História

Mudança nos hábitos alimentares pode ter afetado a nossa fala

Um novo e controverso estudo sugere que talvez seja possível agradecer à agricultura pelo aumento no uso dos sons das letras "f" e "v".Monday, April 15, 2019

Por Michael Greshko
Em boa parte da história das diversas espécies humanas, o desgaste causado pela mastigação fez os dentes e as mandíbulas se alinharem borda com borda, como pode ser visto nesse crânio de Neandertal macho.

Como diz o ditado, a gente é o que a gente come, mas será que esse aspecto da nossa identidade se transporta para os nossos idiomas?

Em novo estudo publicado no periódico Science, uma equipe de linguistas da Universidade de Zurique utiliza a biomecânica e evidências linguísticas para formular a hipótese de que a ascensão da agricultura há milhares de anos aumentou a probabilidade de que as populações começassem a usar sons como os das letras f e v. A ideia sugere que a agricultura tenha introduzido uma gama de alimentos mais moles na dieta humana, que alterou o envelhecimento dos dentes e mandíbulas dos humanos de forma que esses sons ficassem um pouco mais fáceis de se pronunciar.

“Espero que o nosso estudo traga uma discussão mais ampla sobre o fato de pelo menos alguns aspectos da língua e da fala — e, insisto, alguns — precisam ser tratados da mesma forma que outros comportamentos humanos complexos: algo entre a biologia e a cultura", afirma o autor principal do estudo, Damián Blasi.

Se confirmado, o estudo seria um dos primeiros a demonstrar que uma alteração provocada culturalmente na biologia humana alterou o panorama dos idiomas mundiais. Blasi e seus colegas enfatizam que a mudança no desgaste dos dentes não causou diretamente as mudanças no idioma nem substituiu outras forças. Em vez disso, alegam que a modificação no desgaste da dentição aumentou a probabilidade de emergência de sons como os do f e do v. Alguns cientistas de outras áreas, como os especialistas em desgaste dental, estão abertos a essa ideia.

“[O desgaste dos dentes] é um padrão comum com profundas raízes evolutivas; não é específico dos humanos [e] dos hominini, estando também presente nos grandes primatas", afirmam, em e-mail conjunto, os paleoantropólogos Marcia Ponce de León e Christoph Zollikofer, da Universidade de Zurique, que não participaram do estudo. “Quem poderia ter imaginado que, depois de milhões de anos de evolução, ele teria implicações na diversidade dos idiomas humanos?”.

Embora o estudo se sustente em diversas suposições, "acho que os autores construíram uma hipótese bastante plausível", acrescenta Tecumseh Fitch, especialista em bioacústica da Universidade de Viena, que não se envolveu no trabalho. “Esse é provavelmente o estudo mais convincente já publicado que demonstra como os fatores biológicos envolvidos na formação da língua podem eles mesmos mudar com o tempo em função de mudanças culturais”.

Mas muitos linguistas se refugiaram no ceticismo, em função de uma preocupação maior com o problema de se associar as diferenças nos idiomas com as diferenças biológicas — uma linha de pensamento dentro dessa área que já levou ao etnocentrismo e a coisas piores. Tendo em vista a imensa variedade de línguas e dialetos do mundo, a maioria dos linguistas da atualidade pensa que todos nós compartilhamos de forma geral as mesmas ferramentas biológicas e habilidades de produção sonora para os idiomas falados.

“Precisamos ter a certeza de que as pequenas diferenças [médias] observadas em estudos como esse não sejam encobertas pela diversidade normal que existe em uma comunidade", observa Adam Albright, linguista do MIT que não participou do estudo, em e-mail.

Eficiência energética

Pode parecer que os dentes estão totalmente fixos no crânio e na mandíbula, mas qualquer um que já tenha usado aparelho sabe que eles mudam e se deslocam bastante no osso maxilar com o envelhecimento da pessoa. Os humanos nascem com uma mordida levemente profunda, mas o desgaste natural dos dentes leva essa mordida a uma orientação mais vertical. Para compensar, o maxilar inferior se desloca para frente de modo que as fileiras superiores e inferiores de dentes fiquem num alinhamento de borda com borda.

Em boa parte da história da nossa espécie, essa configuração de borda com borda era a norma na fase adulta, observada em muitos crânios pré-históricos estudados nas últimas três décadas. Porém, quando as sociedades adotaram novas técnicas agrícolas, como o cultivo de grãos cereais e a pecuária, os hábitos alimentares mudaram. Uma vez que o mingau, o queijo e outros alimentos moles dominaram os cardápios primitivos, os dentes das pessoas passaram a ter menor desgaste, permitindo que mais indivíduos continuassem com a mordida profunda até a vida adulta.

E essa maior frequência de mordidas profundas, continua o raciocínio, armou as condições para sons como o f e o v, que produzimos cobrindo os lábios inferiores embaixo dos dentes superiores. Se os dentes superiores estiverem projetados um pouco mais para frente, em teoria, fica mais fácil fazer esses sons, que os linguistas chamam de labiodentais.

Blasi e seus colegas nem são os primeiros a levantar essa hipótese. O influente linguista Charles Hockett sugeriu uma ideia similar num ensaio publicado em 1985. Mas a hipótese de Hockett se baseava numa alegação específica de C. Loring Brace, influente antropólogo da Universidade de Michigan. Um ano após o ensaio de Hockett, Brace respondeu dizendo que havia mudado de ideia — o que fez Hockett abandonar sua própria ideia.

Por décadas, o vai-e-vem de Hockett e Brace foi considerado a palavra final nessa questão. De modo que, quando Blasi e seus colegas voltaram a esse assunto muitos anos atrás, eles o fizeram somente para fins demonstrativos. Só que, quando a equipe começou a analisar estatisticamente os bandos de dados dos idiomas mundiais e sua distribuição, passaram a enxergar uma teimosa relação que não podiam explicar.

“Tentei durante meses demonstrar que essa correlação não existia... e, então, pensamos: talvez realmente tenha algo a ver", afirma o coautor do estudo Steven Moran, linguista da Universidade de Zurique.

A equipe então realizou análises de acompanhamento, inclusive algumas que fizeram uso de um modelo computacional dos ossos e músculos faciais. Os modelos descobriram que o gasto energético para fazer sons labiodentais é aproximadamente 29 por cento menor com uma mordida profunda do que sem ela.

Uma vez menos dispendiosos do ponto de vista energético, afirma a equipe de Blasi, os sons do f e do v ficaram mais comuns — talvez acidentalmente no início, com as pessoas errando os sons produzidos pelo toque dos dois lábios, como o p ou o b, ou o que os linguistas chamam de sons bilabiais. Com o aparecimento dos labiodentais, no entanto, eles persistiram, supostamente porque fossem distintos de uma forma útil. No português, as expressões "por favor" e "por pavor" produzem significados totalmente diferentes.

Quando a equipe de Blasi comparou os registros linguísticos com os dados sobre a aquisição de alimentos pelas diferentes sociedades, descobriu que os idiomas usados pelas sociedades caçadoras-coletoras modernas utilizam cerca de um quarto dos sons de f usados pelas sociedades agrícolas, sugerindo uma possível correlação com a dieta. E, ao analisarem a vasta família das línguas indo-europeias, descobriram que as probabilidades de aparecimento de sons labiodentais eram menores que 50 por cento há até 4 mil a 6 mil anos.

A época de ascensão dos sons labiodentais corresponde mais ou menos ao momento em que esses indivíduos começaram a usar laticínios e a cultivar grãos cereais. A equipe de Blasi alega que isso não é coincidência.

“Toda a seara de sons que utilizamos é afetada de forma fundamental pela biologia do nosso aparato fonético", afirma o coautor do estudo Balthasar Bickel. “Não é simplesmente a evolução cultural”.

Cliques persistentes

Dito isso, tudo pode afetar o idioma, desde a estrutura social até modas passageiras, e a ascensão da agricultura trouxe consigo profundas mudanças sociais. Os linguistas enfatizam ainda que, mesmo com uma única população, a fala das pessoas pode variar significativamente.

O linguista Khalil Iskarous, da Universidade do Sul da Califórnia, que não participou do estudo, está disposto a acolher os argumentos probabilísticos do artigo. Mas ele aponta que os órgãos humanos da fala não usam tanta energia com relação ao movimento e são tão flexíveis que podem compensar as diferenças na estrutura óssea. Os sons mais difíceis quando se tem uma mordida profunda, como os bilabiais, deveriam apresentar um declínio — e, no entanto, muitos idiomas claramente os mantêm.

Além do mais, se os gastos energéticos exercem um papel tão crucial na língua, muitos sons fonéticos difíceis enfrentariam grande barreira até serem adotados. Por exemplo, Iskarous aponta para os cliques que ainda fazem parte de muitas línguas khoisan, do sul da África.

“Se a quantidade de esforço fizesse diferença na probabilidade de se manter ou não um som fonético, poderíamos estabelecer, por exemplo, que nenhum idioma teria cliques. E esses cliques não só existem, como se espalharam para muitos idiomas que não os tinham", afirma. “São extremamente difíceis de produzir, mas não importa: as forças culturais decidiram que os cliques deveriam se espalhar".

Mas Blasi continua a enfatizar que as alegações de sua equipe não excluem a importância da cultura.

“As probabilidades [de se fazer sons labiodentais acidentalmente] são relativamente baixas, mas, considerando um número suficiente de tentativas — e, com isso, queremos dizer que cada emissão vocal é uma tentativa — ao longo das gerações, teríamos aí o sinal estatístico que enxergamos", diz ele. “Mas não se trata de um processo determinista, né?”

Com a continuidade da discussão acadêmica, a equipe de Blasi já tem ideias para o próximo passo. Por exemplo, eles afirmam que os métodos utilizados por eles poderiam ajudar a reconstruir a forma como eram falados os idiomas primitivos e, assim, catalogar os infinitos e mais belos fonemas da língua.

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