História

Escavações em obras de novas hidrelétricas revelam riqueza arqueológica em Mato Grosso

Cerâmicas, ferramentas de pedra polida, desenhos rupestres e urnas funerárias recontam a história da ocupação humana da ancestralidade dos povos indígenas do Alto Tapajós. sexta-feira, 5 de julho de 2019

Por Juliana Arini
Desenhos rupestres no sítio arqueológico da Pedra Preta de Paranaíta, em Mato Grosso. Antes da construção de novas hidrelétricas, as empresas são obrigadas a escavar a área para evitar que vestígios arqueológicos sejam destruídos. Além de suscitar o debate sobre o respeito à cultura tradicional dos povos originários, as descobertas têm ajudado a reescrever a história de ocupação da Amazônia.
Esta reportagem foi produzida com apoio do Rainforest Journalism Fund em associação com o Pulitzer Center.

Uma trilha com centenas desenhos rupestres perpassa o maciço de granito da Pedra Preta de Paranaíta. A laje coberta de musgo negro ergue-se a trinta e sete metros sobre uma mancha de floresta na Amazônia Meridional, no Alto Tapajós, em Mato Grosso.

A paisagem parece narrativa de ficção científica. A chuva forma no solo escuro lagoas que espelham o céu e são cercadas por minúsculas flores. Painéis com petroglifos de até 40 metros trazem a mente imagens de corpos humanos dançando, estrelas cadentes, animais e figuras geométricas variadas. O sol escaldante aumenta a sensação de alucinação dos visitantes.

Dois ou 12 mil anos? Não há datação certa para esse sítio arqueológico de 200 m de extensão. “Sabemos que se trata de um local único, um complexo de arte rupestre, com sítios cerâmicos e líticos”, explica Erika Marion Robrahn-Gonzáles, pesquisadora da Universidade de São Paulo responsável pelo componente de arqueologia dos estudos para a construção da Usina Hidrelétrica (UHE) Teles Pires.

A decisão de erguer em um intervalo de dez anos, quatro projetos de geração de energia, em menos de 1.000 km do rio Teles Pires obrigou o governo federal a intensificar as investigações sobre o patrimônio cultural do Alto Tapajós.

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As hidrelétricas de Sinop (462 MW/h), Colíder (342 MW/h), Teles Pires (1.800 MW/H) foram construídas entre Sinop, Itaituba, Nova Canãa do Norte, Claudia, Colíder, Alta Floresta e Paranaíta, em Mato Grosso. A UHE São Manoel (746 MW/h) está na divisa entre Paranaíta (MT) e Jacareacanga.

A legislação obriga os empreendedores a resgatarem todo o material arqueológico impactado. Os projetos acabaram revelando um pouco da história de ocupação da Amazônia e suscitou o debate sobre o respeito à cultura tradicional.

A 30 km da casa de máquinas da usina Teles Pires, Pedra Preta de Paranaíta é área de influência direta (AID) da hidrelétrica. Do sítio, é possível ver as linhas de transmissão a alguns metros da muralha de granito. O projeto inicial propôs um museu a céu aberto e trilhas de visitação, mas a falta de acordo entre o governo e o consórcio responsável pela hidrelétrica engavetou a ideia.

“A arqueóloga  Maria Clara Migliaccio, falecida em 2017, registrou o sítio, hoje Monumento Natural de Pedra Preta e Parque Municipal. Mas não foi feito o tombamento e não temos recursos para evitar  invasores. Alguns petroglifos foram danificados”, explica Érico Baukat, diretor do departamento de turismo de Paranaíta.

Relíquias arquelógicas

O número de sítios encontrados nos levantamentos das quatro hidrelétricas comprova a importância e vulnerabilidade local.  Durante os estudos da UHE Teles Pires foram coletados 297 mil artefatos entre fragmentos cerâmicos e material lítico. Os estudos da UHE São Manoel detectou mais 200 mil artefatos.

Linhas de transmissão (à esquerda) são visíveis do alto da rocha granítica do sítio arqueológico da Pedra Preta de Paranaíta, em Mato Grosso. Estima-se que os desenhos rupestres (à direita) tenham entre 2,5 e 5 mil anos.

Uma ponta de flecha está entre os mais importantes. “Possivelmente pertence aos povos caçadores e coletores, os mais antigos, que chegaram aqui há uns dez mil anos, ou mais, de uma ocupação do pleistoceno ou holoceno inicial”, explica Robrahn-Gonzáles. “A característica do solo não nos possibilitou fazer a datação, o que nos daria mais certezas.”

As pesquisas na UHE Colíder, a 300 km de Pedra Preta, geraram dados mais precisos. O arqueólogo e geólogo Marco Aurélio Nadal De Masi encontrou 171 sítios e datações finais de 11 períodos cronológicos.

“As datas das cerâmicas mostram a intensificação da chegada de povos na região. Os dados permitem inferir que o vale do rio Teles Pires, além de ter uma ocupação continuada por milênios, foi um corredor migratório para os grupos proto-jês do Brasil Central vindos da Amazônia Central”, afirmou Marco De Masi.  As amostras de carvão foram analisadas na empresa Beta Analytic, de Miami, EUA.  

O arqueólogo classificou os sítios como acampamentos de grupos de caçadores coletores da tradição itaparica, de 9,1 mil anos atrás. Outros objetos foram datados de um período há 4,5 mil anos e classificadas como pertencentes a tradição Uru. “Essa tradição era conhecida apenas com datações de 800 d.C., e conseguimos recuar para 2.500 a.C., algo nunca registrando antes no Brasil Central”, explica De Masi.

Na região da UHE Sinop, a arqueóloga Suzana Hirota detectou 57 sítios a céu aberto, com cerca de 36 sítios cerâmicos. Também foram encontrados machados de pedra e fragmentos cerâmicos. Algumas cerâmicas da tradição tupi foram reconstituídas pela equipe de Hirota e serão expostos no Museu da Casa Dom Aquino Correa, em Cuiabá (MT).

Erico Helmut Baukat, diretor do departamento de turismo da prefeitura de Paranaíta e do parque municipal de Pedra Preta, em Mato Grosso, analisa inscrições rupestres de 5 mil anos de idade. No fundo, as linhas de Transmissão da UHE Teles Pires, que passam a menos de 100 m dos vestígios arqueológicos milenares do Sítio Arqueológico de Pedra.

História indígena

Os povos kayabi, apiká e munduruku são remanescentes dessa primeira ocupação. Eruíde Kayabi, 52 anos, cacique da aldeia São Benedito, em Jacareacanga (PA) relembra o extenso território de seu povo. “Nasci no parque do Xingu. Meus pais foram levados pra lá de avião. Antes, nós e os parentes apiaká e munduruku vivíamos caçando por todo rio Teles Pires”, recorda-se. A aldeia fica a apenas 700 m da UHE São Manoel.

Eruíde é filho da Operação Kayabi. Coordenada pelos sertanistas Orlando e Claudio Villas-Bôas (1960 e 1966), a ação retirou os indígenas de seu território original, onde eram ameaçados por seringalistas, e os deslocou para o Parque Indígena do Xingu. Em 1987, Eruíde e um grupo de kayabi retornaram ao Alto Tapajós. As marcas culturais e conflitos territoriais ainda não foram superados.

As ações de etnoarqueologia reviveram parte da história perdida. “Fizemos um mapa de memórias de locais sagrados e de caça. As narrativas dos mais velhos viraram cartilhas para crianças kayabi e apiaká. Eles optaram por não divulgar o conteúdo”, explica Erika Marion-Gonzales.

As conexões entre os sítios e os povos indígenas não indicam que as culturas milenares da região necessariamente interagiram entre si. “Compartilharam espaços simbólicos e resquícios de antigas moradas”, explica Marco De Masi.

A cachoeira de Sete Quedas, do rio Teles Pires, seria o mais importante desses territórios. Alagada para formação do reservatório da primeira hidrelétrica, a destruição dos saltos revoltou os indígenas. “Era a morada do espírito dos peixes. Para os mundurukus, ali era a casa da mãe Karobixexe e Dekokaía. Jamais foi apenas uma cachoeira. Meus avós, os antigos, todos nós sofremos com a perda de Sete Quedas”, conta Darlison Apiaká, 33 anos, que acompanhou as escavações no sítio arqueológico Cadeado, hoje tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) por ser um sítio cemitério, possível ponto de sepultamento de xamãs e lideranças indígenas.

Jesus da Silva Paixão é professor de paleontologia e biologia da Universidade do Estado de Mato Grosso e diretor do Museu de Historia Natural de Alta Floresta (MT). O lugar abriga fósseis de preguiça-gigante e mastodontes, além de doze urnas dos indígenas munduruku.

Revoltados com a violação, os indígenas invadiram o canteiro de uma das hidrelétricas em 2017. Para minimizar os danos, as urnas funerárias encontradas no local foram levadas ao Museu de História Natural de Alta Floresta (MT).

O geólogo Jesus da Silva Paixão é o guardião das chaves da sala de 4 m² onde estão as caixas com os restos mortais dos indígenas. “Os caciques vieram umas três vezes, inclusive com xamãs, para vistoriar as urnas. Fizeram alguns rituais no prédio. Mas há meses está mais parado”, diz Paixão, que também idealizou o museu, com relíquias coletadas entre as balas de garimpo de ouro da região, como ossos de mastodontes e de preguiças-gigante.

A sala resfriada é pequena e as urnas ficam no chão. São seis caixas de madeira lacradas e outras seladas com lona e gesso. Nos recipientes estão ossos humanos depositados dentro de peças cerâmicas. Os arqueólogos acreditam que os corpos possivelmente estão em posição fetal, mas nenhum dos recipientes foi aberto por completo.

Não há consenso sobre o que será feito com as urnas. As lideranças Munduruku reivindicam seis como da etnia, mas tanto os kayabi quanto os apiaká acreditam que o material possa pertencer aos seus antepassados. Caso sejam encaminhados para estudos, o conteúdo pode ter matéria para a datação dos sítios mais próximos da Pedra Preta de Paranaíta.

Alguns indígenas defendem algo mais respeitoso aos que antes estavam sepultados. “Precisam voltar aos lugares sagrados. Enterrar em Ka’iuu kwat, onde ficam os espíritos, no Morro dos Macacos,  lá nas curvas do rio Teles Pires”, afirma o cacique Eruíde Kayabi.

Em agosto, os munduruku farão um encontro de lideranças na aldeia Teles Pires. As questões de arqueologia serão debatidas. “Temos a demanda da Casa de Memória que precisa ser construída em Jacareacanga e as urnas estão na nossa pauta também”, explica o coordenador da Associação Indígena Pusuru, Adaisio Munduruku.

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