O que o mundo perderia em um eventual conflito dos EUA com o Irã

À medida que as tensões entre os EUA e o Irã se intensificam, importantes patrimônios culturais podem sofrer danos colaterais.

Publicado 7 de jan. de 2020 17:18 BRT, Atualizado 5 de nov. de 2020 03:22 BRT
A cidade iraniana de Yazd, lar de mais de meio milhão de pessoas, foi listada como ...
A cidade iraniana de Yazd, lar de mais de meio milhão de pessoas, foi listada como Patrimônio Mundial da UNESCO em 2017, em reconhecimento a seu legado arquitetônico único.
Foto de Richard I'Anson, Getty Images

A série de tuítes do presidente norte-americano Donald Trump no fim de semana advertindo que os EUA terão como alvo pontos culturais iranianos (“... esses alvos, e o próprio Irã, SERÃO ATINGIDOS MUITO RÁPIDO E DE FORMA INTENSA”, escreveu ele) fez com que muitos comentaristas chamassem o anúncio pelo que realmente é: uma ameaça de cometer crimes de guerra.

Existem 22 Patrimônios Mundiais culturais da UNESCO no Irã, como as grandes capitais do Império Persa, mosteiros cristãos e centros religiosos sufis (para fins de comparação, os EUA possuem apenas 12 Patrimônios Mundiais culturais). No momento, o presidente Trump não declarou explicitamente quais desses locais culturais iranianos (se é que realmente escolherá algum) ele pretende atingir.

Colunas de um palácio real de 2,5 mil anos erguem-se no sítio arqueológico de Persépolis, a antiga capital persa construída pelo imperador Dário, o Grande.
Foto de DeAgostini/ Getty Images

Após os tuítes de Trump no domingo, Mike Pompeo, secretário de Estado dos EUA, não endossou expressamente as ameaças do presidente de atacar locais “importantes ao Irã e à cultura iraniana”, porém disse que “vamos fazer o certo e agir de acordo com a legislação dos Estados Unidos”, e esses alvos serão “lícitos”.

Muçulmanas iranianas visitam o patrimônio mundial da UNESCO em Qara Kelisa (Mosteiro Negro) em Chaldran, no noroeste do Irã. Também conhecido como Mosteiro de São Tadeu, é um dos três mosteiros armênios no Irã declarados Patrimônio da Humanidade.
Foto de Hasan Sarbakhshian, AP

A proteção do patrimônio cultural está consagrada na Convenção de Haia para a Proteção dos Bens Culturais em Caso de Conflito Armado de 1954 e na Convenção relativa à Proteção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural de 1972 — ambas convenções internacionais de que os EUA e o Irã são signatários (muitos alegam que a Convenção de Haia de 1954 teve suas origens em um documento anterior utilizado apenas nos Estados Unidos e que Abraham Lincoln transformou em lei no auge da Guerra Civil. O Código Lieber declara, dentre outros pontos: obras clássicas de arte, bibliotecas, coleções científicas, instrumentos preciosos como telescópios astronômicos e hospitais devem ser protegidos contra todos os danos que possam ser evitados, ainda que estejam em fortificações, quando sitiados ou bombardeados).

Este mihrab detalhadamente esculpido na Mesquita de Sexta-feira de Ishfahan indica a direção dos fiéis para Meca. A mesquita, a mais antiga do Irã, representa 12 séculos de arquitetura islâmica.
Foto de Eric Lafforgue, Bridgeman Images

Horas após as declarações de Pompeo, Trump questionou a validade da Convenção de Haia de 1954 diante de repórteres a bordo do Força Aérea Um: “O Irã tem autorização para torturar e mutilar nosso povo. Eles têm permissão para colocar bombas na beira das estradas e explodir nossos cidadãos. E nós não podemos tocar no patrimônio cultural deles? Não é bem assim que funciona.”

Há uma boa razão pela qual o patrimônio cultural é explicitamente protegido em tempos de guerra: objetos e monumentos que refletem os valores de uma comunidade ou cultura propiciam um senso crítico de coesão e continuidade. Destruir esses monumentos significa eliminar a identidade humana.

Fiéis reúnem-se no pátio do Santuário de Fátima Masumeh, na cidade de Qom. Originalmente construído no século 9 d.C., o santuário é considerado um dos monumentos mais importantes do islã xiita.
Foto de Konrad Zelazowski, Getty Images

É por isso que o Estado Islâmico atacou especificamente monumentos muçulmanos de grupos religiosos contra os quais lutavam. É por isso que as forças sérvias bombardearam a Biblioteca Nacional de Sarajevo. E fomos lembrados de como essas perdas podem ser dolorosas, mesmo em tempos de paz, com os incêndios de Notre Dame e do Museu Nacional no Brasil.

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