Na Alemanha, novo museu reacende uma polêmica colonial

O novo Fórum Humboldt de Berlim levanta novamente o debate sobre quem tem o direito de possuir e exibir o patrimônio oriundo da África.

Publicado 12 de jan. de 2021 07:00 BRT
A restauradora Roxane Julie von der Beek recuperando tambor originário do Mali, no Museu Etnológico de Berlim, ...

A restauradora Roxane Julie von der Beek recuperando tambor originário do Mali, no Museu Etnológico de Berlim, um dos diversos museus alemães que estão transferindo seus acervos para o novo Fórum Humboldt.

Foto de Sean Gallup, Getty

Durante anos, uma escultura representando a cabeça de uma rainha ficou guardada em um edifício em Berlim. A expressão da mulher representada na escultura é tranquila, mas sua cabeça é intrinsecamente gravada e coberta por uma coroa condizente com uma lyoba — figura matriarca do Reino de Benin, na atual Nigéria.

Esculpida no início do século 16, é uma das mais de mil esculturas de metal roubadas por soldados britânicos quando saquearam a cidade de Benin em 1897. No século seguinte, os famosos bronzes de Benin foram comprados e vendidos por museus e colecionadores particulares por toda a Europa e América do Norte e, atualmente, estão entre os artefatos africanos mais cobiçados do mundo.

Fundidos nos séculos 16 e 17 por artistas do antigo Reino de Benin, agora pertencente à Nigéria, os bronzes de Benin — na realidade, produzidos com latão e outros materiais — foram apreendidos como “espólios de guerra” por soldados britânicos em 1897. Posteriormente, centenas de peças foram vendidas para a Alemanha e outros países.

Foto de Universal Images Group, Getty

Tudo isso representa um grande problema para o mais novo museu da Europa. Após 20 anos de idealização, o Fórum Humboldt da Alemanha abre suas portas digitalmente nesta semana — e pretende abrir fisicamente no segundo trimestre de 2021 — com exibição de milhares de artefatos da África, Ásia e outras regiões. O Museu Etnológico de Berlim, cuja coleção será transferida em grande parte para o Fórum Humboldt, detém atualmente cerca de 530 bronzes e outros artefatos de Benin — a segunda maior coleção do mundo depois do Museu Britânico. Metade da coleção de Benin ficará exposta no Fórum Humboldt.

Poucos dias antes da inauguração do Fórum, o embaixador da Nigéria na Alemanha escreveu uma carta à chanceler alemã, Angela Merkel, exigindo que a Alemanha devolvesse os bronzes de Benin, trazendo à tona uma polêmica sobre quem teria o direito de possuir, curar e exibir o acervo africano para o mundo.

Em toda a Europa, ativistas exigem a devolução de milhares de artefatos africanos que foram roubados ou comprados durante o período colonial. “Quando falamos em restituição, não significa que os museus europeus ou americanos devem abdicar de suas coleções”, diz George Abungu, ex-diretor-geral dos Museus Nacionais do Quênia e conselheiro do Fórum Humboldt. “A restituição não significa devolver tudo, mas [principalmente] os artefatos que têm significado — significados simbólicos e ritualísticos — que foram saqueados. Estes precisam retornar para o lugar de origem.”

Em 2017, o presidente Emmanuel Macron da França, nação que colonizou grandes regiões do norte e oeste da África, declarou que a França devolveria os artefatos roubados. Em 2018, a Bélgica, país que colonizou o Congo, enfrentou protestos pedindo às autoridades que devolvessem alguns dos 180 mil artefatos africanos mantidos no Museu Real da África Central, próximo a Bruxelas. O Museu Britânico de Londres, que possui 69 mil artefatos da África Subsaariana, notoriamente se recusou a devolver ou até mesmo emprestar seus artefatos africanos adquiridos de forma indevida. (Um novo museu na cidade de Benin, Nigéria, espera mudar essa situação).

A Alemanha — tendo colonizado a África por menos tempo do que outras potências europeias — até agora resistiu a essa polêmica pouco divulgada. Isso está mudando à medida que o Fórum Humboldt coloca o país na frente e no centro do debate sobre a restituição.

O Fórum está localizado a poucas ruas de onde, há 136 anos, os líderes europeus se reuniram na residência particular do Rei Guilherme I para dividir os artefatos africanos entre os colonizadores. A Conferência de Berlim de 1884-1885, também conhecida como Conferência do Congo, foi uma proposta de Guilherme I e do chanceler Otto von Bismarck para alcançar outros líderes coloniais em sua corrida para lucrar com os recursos naturais, negros escravizados e artes provenientes da África.

Essa história polêmica é particularmente difícil de ignorar por conta do edifício escolhido pelo parlamento alemão para abrigar o Fórum: o Palácio de Berlim, antigo palácio prussiano onde o sucessor de Guilherme I, Guilherme II, vivia das riquezas da África.

A tão esperada e protelada inauguração do Fórum Humboldt ocorre no auge de uma pandemia global. Mas um atraso na inauguração física pode ser a menor das preocupações dos responsáveis pelo museu. Eles estão enfrentando um debate caloroso sobre se deveria existir um museu europeu de artefatos africanos.

“Nós, como africanos, nos perguntamos — o que eles querem nos mostrar reconstruindo este palácio dos colonizadores? Querem nos mostrar que ainda estão no poder?”, diz Mnyaka Sururu Mboro, tanzaniano residente na Alemanha e que se opõe à construção do Fórum. “Estive nos porões do Museu Etnológico aqui em Berlim. Existem milhares de objetos no museu que foram roubados durante o período colonial. Nós, africanos — os queremos de volta.”

Ousadia e inovação

Concebido pela primeira vez em 2001, o Fórum Humboldt está localizado no coração de Berlim, próximo a outras instituições importantes da cidade, na Ilha dos Museus, a meca do turismo no centro do rio Spree. Seus fundadores queriam que Berlim se tornasse uma das grandes cidades-museu da Europa, ostentando uma instituição de classe mundial comparável ao Museu Britânico ou ao Louvre.

O Fórum recebeu seu nome em homenagem a dois irmãos que viveram no século 18 relembrados com orgulho pelos alemães: o filósofo Wilhelm von Humboldt e seu irmão mais novo, Alexander von Humboldt, naturalista que coletou espécimes e artefatos em todo o mundo.

De acordo com o site do museu, “o Fórum Humboldt considera a história e a cultura do mundo em toda sua complexidade”. Seu objetivo é “contar a história universal da raça humana a partir de múltiplas perspectivas”.

O Fórum exibirá obras do Museu de Arte Asiática de Berlim, da Universidade Humboldt, do Museu da Cidade de Berlim e do Museu Etnológico. Muitos de seus artefatos chegaram a Berlim por meio de uma “rede de comerciantes, colecionadores, oficiais coloniais e funcionários públicos”, de acordo com o site do museu.

Segundo Paola Ivanov, curadora de parte da coleção africana do Fórum Humboldt, antes que a Conferência de Berlim influenciasse a Alemanha na corrida pela conquista da África, o Museu Etnológico possuía apenas 3,3 mil objetos africanos. No fim da era colonial, esse número subiu para cerca de 50 mil. Alguns desses objetos foram saqueados da região então conhecida como África Oriental Alemã, durante o período colonial alemão de 1886 a 1919.

Ocupando um palácio prussiano reconstruído no coração de Berlim, o Fórum de Humboldt está no centro do debate sobre como a Alemanha deve avaliar seu passado imperial.

Foto de Fabian Sommer, picture alliance/Getty

Os territórios africanos da Alemanha incluíam partes da atual Tanzânia, Ruanda e Burundi na África Oriental, Namíbia no sul e Camarões e Togo no oeste. Em 2016, o Museu Etnológico estabeleceu uma estrutura “para pesquisar a procedência de artefatos controversos”, especificamente os mais de 10 mil artefatos da Tanzânia, alguns obtidos por meio de “apropriação violenta e guerras coloniais”. O museu também convidou cientistas da Tanzânia para pesquisar artefatos da coleção, promovendo um intercâmbio intercontinental.

“Temos objetos muito controversos na coleção da Tanzânia, devido ao fato de os alemães terem conquistado a Tanzânia de forma muito violenta”, explica Ivanov. “A guerra Maji Maji conduzida pelos alemães no sul da Tanzânia causou a morte de pelo menos 200 mil pessoas. Muitos objetos estão relacionados a essas conquistas violentas.”

Ivanov conta que o museu tem realizado pesquisas de procedência para compreender como centenas desses itens chegaram à posse dos alemães. Por exemplo, sua equipe de antropólogos encontrou as origens de um conjunto de figuras esculpidas de Camarões e de um banco de Benin. Para a exibição inaugural do Fórum Humboldt, esses artefatos foram cercados por arquivos históricos, fotos, filmes e outras mídias selecionadas com a ajuda de curadores africanos.

Mas fazer o mesmo para todos os 75 mil artefatos africanos do museu seria um trabalho hercúleo. “Sem essa pesquisa, o Fórum Humboldt e o Museu Etnológico não deveriam estar abertos atualmente”, disse a historiadora de arte Bénédicte Savoy, que atuou no conselho consultivo do Fórum Humboldt. Ela renunciou ao cargo em 2017, alegando que o museu não investigou criteriosamente sua coleção. Cada item da coleção deve ser examinado de forma minuciosa antes de ser exibido, diz Savoy, para que o público saiba “quanto empenho há por trás de uma obra de arte”.

Belezas de bronze

De todos os artefatos africanos em museus europeus, nenhum atraiu mais atenção do que os bronzes de Benin — que, a propósito, são feitos de latão além de bronze.

“Esses artefatos se tornaram uma espécie de símbolo para todo o debate sobre a restituição”, diz Jörg Häntzschel, que escreve sobre museus para o jornal alemão Sueddeutsche Zeitung. “Os bronzes são como as marcas de todos os objetos dos museus europeus, em parte porque são muito valiosos.” Alguns foram vendidos em leilões de arte globais por milhões de dólares.

“Esses objetos de Benin são surpreendentemente bonitos”, diz Häntzschel, que viajou para Camarões para ver artefatos africanos em seus lugares de origem. “E eles também são um caso evidente de saque — todos foram saqueados em poucos dias por uma expedição britânica.” Muitos foram rapidamente vendidos para colecionadores abastados na Alemanha e na Áustria.

Placas de latão que antes adornavam o palácio real de Benin agora cativam os visitantes do Museu Britânico em Londres, que mantém a maior coleção de bronzes de Benin do mundo. A segunda maior coleção pertence ao Fórum Humboldt.

Foto de Dan Kitwood, Getty

“Os alemães sabiam muito bem que os objetos que estavam comprando foram trazidos ilegalmente da cidade de Benin para Londres”, escreve Kwame Opoku, jornalista e autor que defende a devolução dos artefatos patrimoniais da África. Alguns dos bronzes foram leiloados poucos meses após o saque. “Muitos dos objetos que os alemães e austríacos compraram envolvem o sangue do povo de Benin derramado em campo de batalha”, escreve Opoku.

Atualmente, mesmo nações que nunca tiveram colônias na África fazem parte do debate de restituição. Os descendentes dos governantes de Benin escreveram cartas ao Instituto de Arte de Chicago e ao Museu Field de Chicago, solicitando a devolução dos artefatos de seus ancestrais. O Museu de Belas Artes de Boston, o Museu de Arte da Escola de Design de Rhode Island e o Museu Metropolitano de Arte de Nova York, todos detêm bronzes de Benin. “Os bronzes de Benin estão espalhados por todo o mundo”, diz Abungu. “A obrigação moral é de quem adquiriu esses artefatos. Não tem como fugir disso.”

Alguns acreditam que a Alemanha é a única responsável por devolver seus bronzes. Afinal, foi a Conferência de Berlim que acelerou a “corrida pela África” e levou ao saque dos bronzes e de muitos outros artefatos. Outros dizem que o Fórum é uma instituição intrinsecamente racista e nunca deveria ter sido construído. Exibir tesouros coloniais em um antigo palácio imperialista remonta aos “tempos em que ‘curiosidades exóticas’ eram exibidas nos ‘gabinetes de curiosidades’”, segundo o No Humboldt 21, grupo de ativistas que se opõe ao Fórum.

Simon Rittmeier, cofundador do Programa Internacional de Inventários, que busca catalogar os artefatos do Quênia no exterior, explica que “o Museu Etnológico que conhecemos começou na década de 1600 com o gabinete de curiosidades”. Durante o império alemão, diz Rittmeier, “o poder de um rei era demonstrado pela exibição de objetos exóticos reunidos em um só lugar. Essa concepção europeia está presente até hoje”.

Museu universal?

Neil MacGregor, ex-diretor do Museu Britânico, criou o conceito de “museu universal” como um lugar onde pessoas de todas as culturas podem visitar para admirar e aprender com o passado. O Fórum Humboldt foi idealizado com essa mesma visão, e MacGregor foi contratado para liderá-lo, tornando-se um de seus três diretores fundadores. A missão inicial do Fórum era “estar em contato com a maior parte possível do mundo” e criar um “Museu Universal para o século 21”.

Mas para aqueles que se opõem ao Fórum, essa ideia parece cada vez mais divergente da realidade, evidenciada pelo afunilamento das fronteiras da Europa, de forma que a maioria dos africanos nunca terá a oportunidade de conhecer a mais nova instituição europeia.

“Se os africanos não podem entrar nas fronteiras europeias — alguns até morrem no meio do caminho — não é possível considerá-lo um ‘museu universal’”, declara Leonie Emeka, nigeriana-alemã e recém-formada em história da arte que conduziu pesquisas de procedência da coleção do Fórum Humboldt. Alguns artistas africanos tiveram até mesmo seus vistos negados para expor suas próprias obras em países europeus, incluindo a Alemanha. “Nem todos têm acesso a esse museu universal”, afirma Emeka.

Segundo Savoy, não é o momento certo para a inauguração do museu. “A Alemanha está se redefinindo como um país aberto e internacional”, diz ela. “O país está se empenhando para aceitar pessoas vindas de zonas de conflito e guerra. Então, criar um museu [colonial] nesse local e nesse momento — não é o ideal.”

O primeiro passo para a restituição dos artefatos africanos, diz Savoy, é os museus europeus catalogarem os objetos que possuem. O Museu de Etnologia da Alemanha possui cerca de meio milhão de artefatos, mas a origem de muitos permanece desconhecida. No ano passado, o filantropo George Soros criou uma iniciativa de US$ 15 milhões para apoiar pesquisas de procedência destinadas a restituir obras de arte africanas.

Alguns ativistas decidiram agir por conta própria. Mwazulu Diyabanza, que defende que a Europa indenize a África pelo colonialismo, chegou a ponto de roubar artefatos de museus franceses, argumentando que roubar algo que já foi roubado é apenas devolvê-lo ao seu devido lugar. O roubo de artefatos africanos foi popularizado em uma cena do filme de super-heróis da Marvel de 2018, ambientado na África, intitulado Pantera Negra.

Os curadores do museu afirmam que os artefatos não devem ser devolvidos à África até que existam museus modernos e climatizados e instalações de armazenamento para abrigá-los. Porém, no ano passado, Häntzschel descobriu que o Museu Etnológico de Berlim estava armazenando alguns de seus próprios artefatos em péssimas condições. Às vezes, seus depósitos em Berlim inundam, deixando parte dos artefatos embaixo d’água. Ele observou condições semelhantes de baixa qualidade em museus por toda a Alemanha. A curadora de um museu disse a Häntzschel que cerca de 15% de todos os artefatos na Alemanha nem foram contabilizados. “Os museus etnológicos alemães são um caos total”, disse ela.

No ano passado, 100 acadêmicos assinaram uma carta aberta exigindo que a Alemanha disponibilizasse imediatamente suas coleções africanas para que pesquisadores examinassem se foram obtidas por meios apropriados. A carta foi redigida um ano após o ministro da cultura da Alemanha ter apontado como os museus alemães deveriam pesquisar a procedência de seus artefatos estrangeiros.

Quanto aos bronzes de Benin, o Fórum dedicará duas grandes salas à exposição de Benin que descreve a história de mil anos do Reino de Benin, bem como os saques de 1897 por soldados britânicos. E em 2018, o Museu Etnológico da Alemanha juntou-se a diversos outros museus europeus para anunciar que emprestariam alguns dos bronzes para a inauguração de um novo museu na Nigéria. Mas algumas pessoas alegam que esses objetos devem ser devolvidos imediatamente.

Para Häntzschel, o debate sobre a restituição “não se trata apenas de uma questão de propriedade. É uma questão de como lidamos com o passado e do que faremos a respeito disso”.

Ao colocar objetos africanos em vitrines e declará-los arte, diz Rittmeier, estamos “desconectando-os de sua utilidade anterior, de serem tocados e sentidos”. Isso “corta os laços do artefato com sua história”.

Em vez de simplesmente exibir objetos africanos para os visitantes do museu contemplarem, alguns sugeriram repensar a experiência do museu como um todo. Em vez de percorrer as exposições, os visitantes poderiam fazer passeios em galerias e assistir a palestras sobre uma coleção específica conduzida por curadores que fizeram do entendimento do significado histórico das obras o trabalho de suas vidas.

“Eu criaria um museu antropológico completamente diferente”, conta Emeka, jovem graduada em história da arte. Um museu, diz ela, não deve ser um edifício estático, mas algo vivo. Ela sugere que os 644 milhões de euros gastos no Fórum Humboldt poderiam ter sido mais bem empregados transportando antropólogos de Angola para a Alemanha para curar apresentações sobre artefatos angolanos, ou viajando por Angola para levar a arte a comunidades que não têm acesso a um “museu universal”, localizado em um país que eles não podem visitar.

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