Benito Mussolini: ascensão, queda e legado do fundador do fascismo

Embora tenha sido desonrado, a memória do ditador italiano ainda assombra a Itália, um século após ele derrubar o antigo governo e inaugurar uma era de brutalidade.

Por Erin Blakemore
Publicado 20 de out. de 2022 09:42 BRT
Benito Mussolini faz discurso na Itália. Conhecido por seu carisma e retórica persuasiva, o ditador fascista ...

Benito Mussolini faz discurso na Itália. Conhecido por seu carisma e retórica persuasiva, o ditador fascista subiu ao poder em meio à crescente insatisfação dos italianos, no início do século 20.

Foto de NPL - DeA Picture Library Bridgeman Images

Em outubro de 1922, uma tempestade se formava sobre a Itália. O fascismo – um movimento político que atrelou o descontentamento dos italianos com uma potente mistura de nacionalismo, populismo e violência – logo envolveria esta assediada nação e também grande parte do mundo.

Benito Mussolini, o líder do movimento italiano, acumulou fortes seguidores e começou a pedir que o governo entregasse o poder.

“Estamos no ponto em que a flecha é disparada ou a corda tensa do arco quebra!”, disse ele durante um discurso em um comício em Nápoles, em 24 de outubro daquele ano. “Nosso programa é simples. Queremos governar a Itália.” Ele disse aos simpatizantes que, se o governo não renunciasse, eles deveriam marchar sobre Roma. E quatro dias depois, fizeram exatamente isso – deixando o caos no caminho quando Mussolini assumiu o controle.

Mussolini, cercado por simpatizantes, entra em Roma em outubro de 1922. Dias antes, ele tinha se reunido com a ala paramilitar de seu movimento – conhecida como os Camisas Negras – para derrubar o governo.

Foto de Leonard de Selva Bridgeman Images
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Nascido em 1883, Benito Amilcare Andrea Mussolini fundou o Partido Nacional Fascista da Itália – aproveitando um crescente senso de nacionalismo e populismo no país.

Foto de Art Resource NY
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o perfil de Benito Mussolini em um pôster de propaganda do livro: Il primo libro del fascista, ou “O primeiro livro do fascista, na tradução em português”.

Foto de Universal History Archive UIG, Bridgeman Images

O nome de Mussolini ainda é frequentemente invocado no país como um ditador brutal, embora alguns ainda o reverenciem como um herói. Mas como ele chegou ao poder e o que exatamente aconteceu durante aquela marcha fatídica que derrubou o governo da Itália? Aqui está o que você precisa saber.

Como Mussolini fundou o fascismo italiano

O fascismo galvanizou um crescente movimento nacionalista na Europa, nascido em face da Primeira Guerra Mundial e da Revolução Bolchevique de 1917, na qual os socialistas russos derrubaram o Império Russo. 

Na Itália, Mussolini abriu caminho para o fascismo. Nascido em 29 de julho de 1883, em uma pequena cidade do sul da Itália, filho de pai ferreiro e mãe professora, ele cresceu com as histórias de nacionalismo e heroísmo político de seu pai socialista. Tímido e socialmente desajeitado, ele teve problemas desde cedo devido à sua intransigência e violência contra seus colegas de classe. Quando jovem, mudou-se para a Suíça e tornou-se um socialista declarado. Eventualmente, ele voltou para a Itália e se estabeleceu como um jornalista socialista.

Mussolini falando publicamente no famoso Coliseu de Roma em 1928.

Foto de Andrea Jemolo Bridgeman Images
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Mussolini atraia multidões para seus comícios e discursos. Como escreveu a Associated Press em 1922, sua “carreira se distinguiu por seus traços de caráter viris e vigorosos, seu magnetismo e eloquência”.

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Mussolini atraia multidões para seus comícios e discursos. Como escreveu a Associated Press em 1922, sua “carreira se distinguiu por seus traços de caráter viris e vigorosos, seu magnetismo e eloquência”.

fotografias de Andrea Jemolo Bridgeman Images

Em 1914, quando a guerra estourou na Europa, a Itália inicialmente permaneceu neutra. Mussolini queria que a Itália se juntasse à guerra – enfrentando-se com o Partido Socialista Italiano, que o expulsou devido à sua defesa pró-guerra. Em resposta, ele formou seu próprio movimento político, os Fasces de Ação Revolucionária, com o objetivo de encorajar a entrada na guerra. (A Itália acabou entrando na disputa em 1915.)

Na Roma antiga, a palavra fasces se referia a uma arma que consistia em um feixe de varas de madeira, às vezes em torno de um machado. Usado pelas autoridades romanas para punir os malfeitores, os fasces passaram a representar a autoridade do Estado. No século 19, os italianos começaram a usar a palavra para grupos políticos ligados por objetivos comuns.

Mussolini estava cada vez mais convencido de que a sociedade deveria se organizar não em linhas de classe social ou filiação política, mas em torno de uma forte identidade nacional. Ele acreditava que somente um ditador “impiedoso e enérgico” poderia fazer uma “limpeza” da Itália e restaurá-la à sua promessa nacional.

Cresce o apoio ao fascismo

Mussolini não estava sozinho: na esteira da guerra, muitos italianos ficaram desapontados com o Tratado de Versalhes. Eles sentiram que o tratado, que dividiu o território das nações agressoras, desrespeitou a Itália ao conceder-lhe muito pouca terra. Essa “vitória mutilada” moldaria o futuro da Itália. 

Em 1919, Mussolini fundou um movimento paramilitar que chamou de Fasces Italianos de Combate. Um sucessor do Fasces Ação Revolucionária, este esquadrão focado em combate visava mobilizar veteranos da guerra experimentados que poderiam devolver a glória à Itália.

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Um cartaz de propaganda da Segunda Guerra Mundial representando a aliança entre a Itália e a Alemanha nazista. O slogan na parte inferior diz: “Due popoli una Guerra”, ou “dois povos, uma guerra, em português”.

Arte de SeM Studio UIG, Bridgeman Images
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Mussolini cumprimenta uma multidão após um encontro com o ditador alemão Adolf Hitler em Munique, Alemanha, em setembro de 1937.

Foto de Stefano Bianchetti Bridgeman Images

Mussolini esperava traduzir o descontentamento da nação em sucesso político, mas o jovem partido sofreu uma derrota humilhante nas eleições parlamentares daquele ano. Mussolini obteve apenas 2420 votos em comparação com os 1,8 milhão do Partido Socialista, encantando seus inimigos em Milão, que realizaram um funeral falso em sua homenagem.

Imutável, Mussolini começou a cortejar outros grupos que estavam em desacordo com os socialistas: industriais e empresários que temiam greves e desacelerações, proprietários rurais que temiam perder suas terras e membros de partidos políticos intimidados pela crescente popularidade do socialismo.

Os novos e poderosos aliados de Mussolini ajudaram a financiar a ala paramilitar de seu movimento, conhecida como “os camisas negras”. Embora Mussolini professasse estar contra a opressão e a censura de todos os tipos, o grupo rapidamente se tornou conhecido por sua disposição de usar a violência para obter ganhos políticos.

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Um busto de Mussolini exibido na sua cidade natal em Predappio, Itália. A estátua faz parte de uma exposição organizada para comemorar o centenário da marcha de Mussolini em Roma, em outubro de 1922.

Foto de Filippo Venturi
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Mussolini governou a Itália por 20 anos, que foram marcados por uma estrita restrição dos direitos civis e ambições imperialistas.

Foto de Adoc-photos Art Resource, NY

Os camisas negras aterrorizaram socialistas e inimigos pessoais de Mussolini em todo o país. O ano de 1920 foi cruel, com fascistas marchando pelas cidades, espancando e até matando líderes sindicalistas e efetivamente tomando o poder local. Mas o governo italiano, que compartilhava a inimizade dos fascistas com os socialistas, pouco fez para conter a violência.

A ascensão de Mussolini ao poder

Na realidade, Mussolini controlava apenas uma fração dos membros da milícia. Mesmo assim, sua imagem dura ajudou a construir sua reputação como um líder poderoso e autoritário, capaz de sustentar suas palavras com ações violentas e decisivas. Conhecido como Il Duce, (o Duque), exerceu uma poderosa influência sobre os italianos, seduzindo-os com seu charme pessoal e retórica persuasiva.

Os italianos comemoram a queda do fascismo derrubando e destruindo uma estátua de Benito Mussolini, em 25 de julho de 1943. Naquela manhã, o rei Victor Emmanuel 3º demitiu Mussolini como chefe de Estado e o prendeu.

Foto de Adoc-photos Art Resource, NY
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Feldman Berta, nascida em Odessa em 1913, foi uma das muitas vítimas de Mussolini. Judia alemã, ela foi internada no campo de concentração de Lanciano, na Itália central, em 1940.

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Outra vítima da brutalidade de Mussolini foi Marco de Andrea Bukić, que foi internado na Città Sant'Angelo em Abruzzo, Itália, em 1942.

fotografias de Mattia Crochetti
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Beniacar Santo – judeu originário da Turquia – foi internado em um campo em Agnone, Itália.

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Luisa Mahler, nascida em Viena em 1900, foi internada em Vinchiaturo, uma comuna próxima a Campobasso, em 1940.

fotografias de Mattia Crochetti

Em 1921, Mussolini ganhou um cargo no parlamento e até foi convidado a formar parte do governo de coalizão pelo primeiro-ministro italiano Giovanni Giolitti – que esperava que Mussolini colocasse os camisas negras de joelhos assim que recebesse uma parte do poder político.

Mas Giolitti tinha julgado mal Mussolini, que, em vez disso, pretendia usar seus camisas negras para assumir o controle absoluto. No final de 1921, Mussolini transformou o grupo no Partido Nacional Fascista, tornando um movimento que contava com cerca de 30 000 simpatizantes em 1920 em um partido político de 320 000 membros.

Embora ele tivesse efetivamente declarado guerra contra o estado, o governo italiano não conseguiu dissolver o partido e ficou parado enquanto os fascistas tomavam a maior parte do norte da Itália.

Mussolini viu sua oportunidade no verão de 1922. Os socialistas anunciaram uma greve que, segundo escreve o historiador Ararat Gocmen, “não era em nome da emancipação dos trabalhadores, mas era um grito desesperado para que o Estado acabasse com a violência fascista”. Mussolini posicionou a greve como prova de que o governo era fraco e incapaz de governar. Com novos partidários que queriam lei e ordem, Mussolini decidiu que era hora de tomar o poder.

A marcha sobre Roma

Em 25 de outubro de 1922, um dia após seu comício em Nápoles, Mussolini nomeou quatro líderes do partido para conduzir os membros à capital do país. Mal treinados e sem equipamentos, esses homens provavelmente teriam perdido uma batalha com o exército da Itália. Mas Mussolini pretendia intimidar o governo até a submissão.

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Um escritório na Villa Carpena, também conhecida como Villa Mussolini, que já tinha sido residência de Benito Mussolini e sua família. Localizada em San Martino, hoje a Villa é um museu.

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Um adepto fascista moderno faz continência perto da cripta da família Mussolini no Cemitério Monumental de San Cassiano em Pennino.

fotografias de Filippo Venturi

Os batalhões fascistas se reuniriam fora de Roma. Se o primeiro-ministro não entregasse o poder aos fascistas – e o rei Victor Emmanuel 3º não reconhecesse sua autoridade posteriormente – seus homens marchariam sobre a capital e assumiriam o controle.

Itens à venda na Loja Tricolor Predappio. Localizada na cidade natal de Mussolini, a loja é especializada em souvenirs fascistas, incluindo bustos de Mussolini e outras lembranças.

Enquanto Mussolini permanecia em Milão, seus partidários se reuniam. Eles deixaram o caos no caminho, tomando prédios governamentais nas cidades por onde passaram em direção de Roma. Embora o partido tenha exagerado consistentemente em seus números, a historiadora Katy Hull assinala menos de 30 000 homens aderidos à marcha.

Luigi Facta, então primeiro-ministro, tentou impor a lei marcial. Mas o rei pensou que Mussolini poderia implantar a estabilidade e se recusou a assinar a ordem que teria mobilizado as tropas italianas contra os fascistas.

Em protesto, Facta e seu gabinete renunciaram na manhã de 28 de outubro. Armado com um telegrama do rei convidando-o a formar um gabinete, Mussolini embarcou em um vagão-leito e fez uma viagem tranquila de 14 horas de Milão a Roma. Em 30 de outubro, ele se tornou primeiro-ministro e ordenou que seus homens desfilassem diante da residência do rei ao deixar a cidade.

A queda de Mussolini – e o legado do fascismo

O rei, exausto pela guerra mundial e um estado de quase guerra civil na Itália, havia assumido que Mussolini imporia a ordem. Mas em três anos, o homem forte seria um ditador absoluto – e Victor Emmanuel o deixou fazer o que queria.

Ao longo dos anos, Mussolini aumentou seu próprio poder ao mesmo tempo em que desbastou os direitos civis da população e formou um estado policial propagandístico. Sua agenda também foi além dos assuntos internos. As ambições imperiais de Mussolini levaram a Itália a ocupar a ilha grega de Corfu, invadir a Etiópia e à aliança com a Alemanha nazista, resultando no assassinato de 8500 italianos no Holocausto.

A ambição de Mussolini seria sua queda. Embora ele tenha liderado a Itália na Segunda Guerra Mundial como uma potência do Eixo alinhada com o aparentemente imparável Adolf Hitler, ele presidiu a destruição de grande parte de seu país. Victor Emmanuel 3º convenceu os aliados mais próximos de Mussolini a se voltarem contra ele e, em 25 de julho de 1943, eles finalmente conseguiram removê-lo do poder e colocá-lo sob prisão. 

Após uma fuga dramática da prisão, Mussolini fugiu para a Itália ocupada pelos alemães, onde, sob pressão de Hitler, formou um estado fantoche fraco e de curta duração. Em 28 de abril de 1945, quando a vitória dos Aliados se aproximava, Mussolini tentou fugir do país. Ele foi interceptado por guerrilheiros comunistas, que atiraram nele e jogaram seu corpo em uma praça pública em Milão.

Logo, uma multidão se reuniu, profanando o cadáver do ditador e desabafando anos de ódio e perda. Seu corpo quase irreconhecível acabou sendo depositado em uma cova anônima. Il Duce estava morto. Mas seu legado ainda assombra a Itália hoje – e o movimento fascista do que ele foi pioneiro permanece vivo tanto na política italiana quanto no imaginário internacional.

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