Meio Ambiente

Com tigres se tornando cada vez mais raros, caçadores buscam leões

Número crescente de leões selvagens africanos é morto por conta de seus dentes e garras, vendidos em países asiáticos como joias. Quarta-feira, 6 Junho

Por Alexandra Fisher

Parque Nacional do Limpopo, Moçambique –  Os quatro jovens leões morreram onde comeram sua última refeição. Eles foram encontrados deitados na areia, perto dos restos de um gado envenenado. Ninguém testemunhou a morte silenciosa – apenas o resultado terrível. Quando funcionários do parque investigaram as mortes, descobriram que os rostos e patas dos quatro felinos haviam sido retirados.

“Não é algo bonito de se ver”, conta Marius Steyl, sem dizer muito. Gerente de operações de imposição de leis no Parque Nacional do Limpopo, em Moçambique, Steyl foi um membro do time que investigou as mortes no fim de janeiro. “É o rei da selva, e de repente está sendo destruído pelos humanos.”

De acordo com Steyl, dois homens são suspeitos do crime, provavelmente matando leões em retaliação pelos felinos terem matado seus gados. Um homem foi fichado, o outro ainda está solto.

Em Moçambique, e na maior parte da África onde leões são encontrados, o predador mais conhecido do continente está encarando uma ameaça crescente. Com os tigres asiáticos se tornando mais escassos na natureza (estima-se que haja menos de 4 mil restantes), outros grandes felinos do mundo estão virando alvos: leopardos, jaguares – e agora os leões africanos.

Grupos de conservação no Leste e Sul da África dizem que, nos últimos três anos, um número crescente de leões vem sendo mortos e mutilados, para retirar suas garras e dentes, provavelmente para satisfazer a demanda da China e Sudeste da Ásia, onde eles parecem ser usados como pingentes e amuletos.

“Há um crescente conhecimento da disponibilidade de partes de leões na África e seu potencial para serem vendidos como partes de tigres”, diz Kristin Nowell, diretora do Cat Action Treasury, uma organização dos Estados Unidos dedicada à conservação de grandes felinos em seus habitats naturais pelo mundo. Nowell também é a coordenadora da “lista vermelha” de grandes felinos com a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), que determina o status de conservação das espécies.

“Estamos muito preocupados com os leões”, disse Nowell, que contribuiu com a mais recente avaliação da IUCN de leões africanos, em 2016, que os listou como “vulneráveis”.

Na África, a população de leões selvagens caiu em 43 porcento desde 1993 para não mais de 20 mil em 2014, de acordo com a IUCN. Perda de habitat e a redução de presas selvagens para os leões, efeito do comércio de carne, estão forçando-os a entrar em contato perigoso com humanos e seus rebanhos. Felinos que se alimentam de gados se tornam os maiores alvos de mortes por retaliação. E agora, a crescente busca por partes de leões está somando a esse problema.

A Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES), que regula a venda de espécies selvagens globalmente, proíbe a venda de partes de leões africanos. Mas a África do Sul, que tem milhares de leões criados em cativeiro, podem exportar suas partes legalmente – até 800 esqueletos de leões por ano. De acordo com a CITES, a maioria vai para o Laos e Vietnã, onde os ossos são usados como substitutos para vinho de osso de tigre, considerado um símbolo de status e usado para tratar vários alimentos e dar àquele que o bebe a “força do tigre”.

CITES também nota que durante os últimos cinco anos, cerca de 150 garras e dentes de leões foram exportados da África do Sul para a China e Vietnã. Esse número é apenas um indício do comércio entre a África e Ásia, pois o volume de garras e dentes ilegais que foram apreendidos durante o mesmo período excederam aqueles que foram vendidos legalmente.

De acordo com Nowell e outros, a venda legal da África do Sul está aumentando a demanda asiática por partes de leões como substitutas para partes de tigres e está alimentando a crescente venda ilegal de dentes e garras de leões selvagens, reduzindo ainda mais seu número.

“Oportunidade para ganhar dinheiro”

A avaliação dos leões de 2016 da IUCN trouxe a preocupação de que “partes de leões selvagens do Leste e Sul da África podem ser levadas ao grande mercado ilegal de animais selvagens da Ásia, que gira em torno do marfim de elefante.” Essa preocupação está agora se realizando.

Em Moçambique, em junho de 2017, um chinês foi preso no Aeroporto Internacional de Maputo com dentes e garras de leão, assim como itens feitos de marfim. No Senegal em agosto, dentes de leão foram apreendidos como parte do maior transporte de marfim na história do país. Depois, em novembro, 19 dentes de leão e 51 garras foram descobertas na África do Sul em um pacote contendo um chifre de rinoceronte a caminho da Nigéria.

De acordo com Nowell, o aumento da caça de leões selvagens por suas garras e dentes corresponde ao crescimento da caça de outros animais selvagens africanos que estão sento traficados para a Ásia. “Não é surpreendente que os leões tenham entrado nessa”, ela disse sobre a convergência com o marfim e os chifres de rinoceronte. Como o marfim, as garras e dentes de leão são valiosos para os envolvidos na venda: aldeões pobres que suplementam sua renda com a caça, os intermediários, que têm conexões com os grandes vendedores e os vendedores da Ásia.

“Se você estiver nesse comércio, não importa se está vendendo marfim, chifres de rinoceronte, partes do corpo de um leão, são os mesmos mercados, a mesma maneira de sair do país, que as pessoas envolvidas já sabem”, diz Peter Leitner, oficial de projeto do Parque Nacional do Limpopo com a Peace Parks Foundation, um grupo sem fins lugrativos que ajuda a estabelecer áreas de conservação nas fronteiras. “É uma oportunidade de ganhar dinheiro. Então é mais produto. Não resta dúvida de que as mesmas pessoas estejam envolvidas.”

O que está acontecendo em Limpopo serve como caso de estudo. Nos últimos 3 anos, caçadores levaram as garras de dentes de 20 leões do parque, reduzindo a população em 15%, trazendo o medo de que os felinos sejam dizimados em algumas áreas.

De acordo com Nowell, uma razão para os caçadores estaem cada vez mais matando leões por suas garras e dentes, ao invés de sua pele ou ossos, é prático. “Pode ser um longo processo, matar e extrair os ossos – é difícil de carregar o corpo inteiro de um leão – então em parte, eles podem querer sair rapidamente. Além disso, os dentes e garras são mais fáceis de contrabandear.”

No momento, de acordo com Marius Steyl, a maior ameaça de caça dos leões de Limpopo vêm do crime organizado que matam presas de leões e envenenam suas carcaças, para matar os felinos. Monitorar o que está acontecendo no parque, ele diz, é difícil. “O criminoso sempre tem uma vantagem, no sentido de não sabermos onde ele está. Temos um parque grande – 1,1 milhão de hectares, então é uma área grande para observar.”

Mas Limpopo está lutando.

Em um acampamento remoto em uma manhã quente de abril, 40 novos recrutas estavam sendo treinados, a maioria deles entraria para a equipe do parque. Em um treinamento, os recrutas estavam se esgueirando pela savana, carregando armas automáticas para prender um caçador. Vários recrutas vão se juntar a um time especial anti-caça, dedicado à proteção dos leões.

“Gostaríamos de chegar [lá] antes dos leões serem mortos”, diz Leitner. Para isso, o time está sendo treinado para seguir os rastros dos leões, procurar pegadas de caçadores e remover armadilhas e carcaças envenenadas antes que os leões as comam.

O parque também está reforçando seu material, adicionando um novo helicóptero e veículos, e introduziu um sistema de pagamento de informantes quando conseguirem prender caçadores. “Então, estamos tentando lutar essa batalha com informação, é a maneira mais eficiente de fazer isso”, diz Leitner.

Tigre ou leão?

De acordo com Nowell, confiscos e pesquisas de ONGs mostram que alguns vendedores estão vendendo dentes e garras de leão como se fossem de tigres.

A não ser que você seja um grande especialista em felinos, é difícil saber o que está sendo realmente vendido: O que é vendido como tigre pode ser leão. E se o dente de leão sendo vendido for de fato um dente de leão, não tem como saber se é um leão selvagem (logo, ilegal) ou se um leão de cativeiro da África do Sul.

À venda em um mercado de artesanato e antiguidades no centro de  Pequim, tem pingentes feitos com dentes de ursos e lobos, prendedores de cabelo feitos de escamas de pangolim e em meia dúzia de barracas, supostos caninos de tigre – decorados com prata, com coisas escritas ou em seu estado natural – e garras.

“É só fazer um buraco na parte de baixo do dente e usar como cordão”, disse um homem, falando em condição de anonimidade. Ele estava vendendo dois dentes por 1600 yuans (cerca de 250 dólares), que ele dizia serem de tigres de Bangladesh. “Vai te trazer segurança”, ele disse.

Em outra barraca, uma jovem estava vendendo o que ela anunciava como garras de tigre por até 65 dólares, dependendo do tamanho. “Use um fio preto, amarre, pendure em você mesmo e use como colar”, ela disse. (Ela também se recusou a dizer seu nome.) Essas coisas, ela explicou, representam o vigor e a força do tigre. “Usá-las vai te proteger e te manter seguro.” Como os tigres estão em perigo de extinção, esses itens são ilegais, mas a mulher disse que compradores que moram fora da China podem colocá-los em uma caixa e dizer que são itens de arte.

Hoje em dia, muita venda de produtos de animais selvagens são feitas pela internet. No Taobao, um site de compras da China, subsidiário do Alibaba, eu encontrei pingentes de dentes de leão à venda. Um deles estava sendo vendido por 126 dólares.

Nunca antes o rei das animais da África esteve tão ameaçado. Conservacionistas insistem por leis mais rigorosas para atacar a venda ilegal e pedem que seja banida a venda legal. “Os leões têm um problema”, diz Nowell. “Há o medo de que esse problema da venda aumente e saia do controle, como aconteceu com os tigres.”

 

Alexandra Fisher é uma jornalista freelancer que cobre notícias e histórias atuais no Leste africano. Você pode segui-la no Twitter.

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