Elevação do nível dos mares gera escolha difícil à população insular: realocar-se ou elevar-se?

Mudanças climáticas significam que as Ilhas Marshall, de baixa altitude, devem considerar medidas drásticas, incluindo a construção de novas ilhas artificiais.quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Por Jon Letman
Vista aérea de Ejit, nas Ilhas Marshall, no centro, onde o aumento do nível do mar já é uma parte inescapável da vida cotidiana.

A proeza de navegação dos Ilhéus de Marshall  é lendária. Durante milhares de anos, os marshaleses incorporaram seu ambiente aquático, construindo uma cultura em mais de 1,2 mil ilhas espalhadas por 750 mil milhas quadradas de oceano.

Todavia, os fortes ciclones tropicais, os recifes e a pesca prejudicados,  o agravamento da seca e a elevação do nível do mar ameaçam os atóis de recifes de corais deste grande estado oceânico, forçando os marshalleses a navegar por uma nova realidade.

Em um momento de avaliação, os habitantes de Marshall enfrentam uma escolha difícil: se realocarem ou se elevarem. Uma ideia que está sendo considerada é a construção de uma nova ilha ou a elevação da ilha existente.

Com 600 bilhões de toneladas de gelo derretido fluindo para os oceanos, que estão absorvendo calor duas vezes mais rápido que há 18 anos, os marshalleses precisarão se mudar rapidamente.

Um relatório publicado em outubro pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) destacou diferentes resultados projetados de um aumento de temperatura de 1.5°C quando comparado a 2°C.

No relatório, os estados de desenvolvimento de pequenas ilhas são identificados como estando em risco desproporcionalmente maior de consequências adversas do aquecimento global. Entre eles, quatro nações do atol: Kiribati, Tuvalu, as Maldivas, e as Ilhas Marshall estão em maior risco.

De acordo com as estatísticas do IPCC, as temperaturas globais podem exceder os 3°C acima do aumento da temperatura pré-industrial até o ano 2100, com a elevação global do nível do mar projetada  entre 30 e 120 centímetros ou mais. Sem medidas extraordinárias, a mudança climática pode tornar as Ilhas Marshall inabitáveis.

Em julho, falando em uma conferência sobre mudanças climáticas em Majuro, capital das Ilhas Marshall, o cientista climático da Universidade do Havaí, Chip Fletcher, discutiu possíveis medidas de adaptação.

Quando Fletcher apresentou um mapa mostrando Majuro inundada sob um metro de água, houve uma comoção audível na sala. Para ativistas climáticos do Pacífico “1.5 para continuar viva,” tem sido o mantra para sobrevivência.

“Podemos não atingir a meta de 1.5°C,” disse Fletcher ao público, mas acrescentou: “há algo que podemos fazer a respeito”.

Citando exemplos de recuperação de terras nas Maldivas, nos Emirados Árabes Unidos e em outros lugares, Fletcher diz que a dragagem de uma área rasa da lagoa de Majuro pode ser uma opção para se construir uma ilha alta o suficiente para ser segura.

“Não há nada de novo em dragagem e recuperação de terras. Não há nenhuma tecnologia mágica. Só é muito caro,” diz Fletcher. “Outra questão é que é prejudicial ao meio ambiente.” E, embora os custos ambientais sejam altos, Fletcher diz, “eu preferiria destruir alguns recifes a ver uma cultura inteira extinta.”

A urgência sempre existiu

Mark Stege, consultor climático e vereador do atol de Maloelap que trabalha em projetos de adaptação climática desde 2010, observa que as pessoas têm trabalhado nas Ilhas Marshall há décadas, voltando sempre à dragagem pelos militares dos EUA para preencher o mejje, ou recife entre ilhas.

Ele enfatiza a importância do gerenciamento de recursos baseado na comunidade e monitoramento ambiental. Só com relutância ele admite que a dragagem na lagoa de Majuro está em uma lista muito pequena de opções viáveis.

Pessoas reconstruindo um paredão em Ejit para tentar conter a subida da água.

“Acredito firmemente que a construção de uma ilha terá que acontecer,” diz Stege. “Eu tentei dizer isso de uma forma mais agradável, mas é difícil afirmar isso publicamente.” Antes que isso possa acontecer, ele diz que um extenso trabalho de pesquisa deve ser conduzido para determinar locais adequados para um possível trabalho de elevação.

Não importa o que for decidido, Stege argumenta que é imperativo que os marshalleses estejam no centro do trabalho – e não à margem de um esforço liderado por estrangeiros.

O senso de urgência não é nada novo. “Acho que a urgência sempre esteve presente em outras questões importantes – questões de saúde relacionadas ao legado do teste de armas nucleares, construção de capacidade educacional, desemprego e mudança climática.”

“Se vamos elevar ilhas,” diz ele, “devemos também elevar o bem-estar das pessoas que vivem nessas ilhas.”

Mitigação e Adaptação

A presidente das Ilhas Marshall, Hilda Heine, disse à National Geographic que o foco de seu país é a mitigação da mudança climática, mas diz que há necessidade de uma ênfase maior na adaptação, incluindo a consideração de construir terrenos mais altos.

Primeiro, a consulta pública deve acontecer. Governos locais, iroij ou chefes, chefes de clãs e outros líderes tradicionais precisam fazer parte da conversa, diz ela.

“Por considerações as pessoas precisam pensar se devemos simplesmente deixar nossas ilhas e ir embora ou se devemos ter um lugar designado para construir,” diz Heine.

Atualmente, a administração de Heine está conduzindo discussões preliminares e se preparando para formular um Plano Nacional de Adaptação.

Construir uma ilha alta suficiente para fornecer refúgio seguro seria muito caro e a presidente diz que trabalhar com nações parceiras como os EUA, Taiwan e Japão será crucial. Mas ela acrescenta: “somente se o povo de Marshall estiver completamente a favor de tal ideia podemos buscar ajuda de fora.”

Os Estados Unidos, que realizaram 67 testes nucleares nas Ilhas Marshall entre 1946 e 1958, negociaram um Pacto de Livre Associação  que permite que 28 mil marinheiros morem e trabalhem nos EUA. Os EUA também operam uma instalação bilionária de testes de mísseis no atol de Kwajalein, que é altamente vulnerável aos impactos das mudanças climáticas.

“Acho que é muito claro que, se você é um marshallês você quer ter certeza de que a cultura, o lugar e a identidade não desapareçam,” diz Heine. A migração completa e o abandono das ilhas, diz ela, teriam impactos profundamente prejudiciais na preservação da cultura marshallesa e da soberania territorial e política.

Há séculos marshalleses estão ligados às suas terras ancestrais através de suas famílias e clãs. A mudança forçada de uma ilha para outra, resultante de testes nucleares, levou à urbanização e à interrupção do sistema tradicional de posse da terra.

Se a mudança climática exigir que os marshalleses elevem suas terras e consolidem a população residente de 55 mil pessoas, os laços ancestrais com a terra serão ainda mais prejudicados.

“Não escolhemos simplesmente morar em certas ilhas,” diz Heine. “Todo mundo mora em sua ilha porque é aonde eles pertencem. Mudar de uma ilha para outra não é correto. Não é tão simples assim.”

Ben Graham, secretário-chefe e conselheiro da presidente, observa que em um país onde o governo possui menos de um por cento da terra, as identidades das pessoas estão vinculadas a terrenos específicos.

Um cronômetro disparado

Graham aponta para os esforços de adaptação já em andamento – fortalecimento da segurança hídrica e alimentar, infraestrutura à prova do clima, fortalecimento de linhas litorâneas e outras proteções costeiras. Ele chama a construção de uma nova ilha de “a última e derradeira defesa.”

Quaisquer recursos que seriam desviados para construir uma ilha, Graham diz, serão feitos “para manter nossas cabeças acima da água.”

A inundação costeira aumentou nas Ilhas Marshall e deve piorar. Com tempo limitado, as consultas, os estudos e as medidas de adaptação precisam ser acelerados antes que eventuais inundações sejam prejudiciais à vida na ilha.

Como habitantes das Ilhas Marshall adoram basquete, Graham usa uma analogia adequada: “É uma espécie de cronômetro disparado sobre a nossa existência,” ele diz. “Não um cronômetro de 30 segundos, mas de 30 anos.”

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