Como essa cidade planeja recuperar a perda da maioria de suas árvores

Milhares de árvores foram destruídas por um vendaval de verão devastador em Cedar Rapids, Iowa. O evento causou sofrimento para os moradores da cidade, mas também trouxe a oportunidade de um replantio mais resistente.

Publicado 9 de jan de 2021 09:00 BRST
Laurie Berdahl em seu quintal em Cedar Rapids, Iowa, depois que uma tempestade de vento devastadora, ...

Laurie Berdahl em seu quintal em Cedar Rapids, Iowa, depois que uma tempestade de vento devastadora, denominada derecho, derrubou árvores em 10 de agosto de 2020. Meses depois, a cidade ainda está limpando os destroços das árvores e formulando planos de replantio.

Foto de Andy Abeyta, The Gazette/AP

CEDAR RAPIDS, IOWA, EUA — A cidade representada pela imagem de uma árvore, que relaciona as pessoas ao meio ambiente — teve suas árvores destruídas.

Uma tempestade de vento denominada derecho atingiu a região Centro-Oeste dos Estados Unidos em agosto, com a intensidade de um forte furacão de categoria 3. A tempestade de vento atingiu Cedar Rapids por volta do meio-dia e, em menos de uma hora, árvores por toda a cidade — nogueiras, sicômoros, tílias e espinheiro-da-virgínia — caíram sobre casas e ruas e não mais adornavam o céu.

Todd Fagan, arborista da cidade, estima que os ventos derrubaram 80 mil árvores, mais da metade do total de árvores da região. Muitas eram espécimes grandes com coroas arqueadas, portanto, ele estima que o fenômeno derecho tenha destruído dois terços das copas das árvores da cidade, camada verde que podia ser avistada por bandos de pássaros ou passageiros viajando de avião.

Fagan visitou um parque da cidade onde galhos e troncos de carvalhos de 100 a 250 anos de idade ainda cobriam o solo em meados de outubro. “É muito triste vir neste parque”, diz ele, suspirando e apoiando-se em um portão de metal. “O parque me lembra da grande destruição por toda a cidade. Nunca mais a verei da forma como ela era antes.”

Os efeitos negativos a longo prazo do derecho, como aumento dos custos de eletricidade e escoamento de águas pluviais, levarão anos para serem avaliados completamente, embora já sejam perceptíveis. Mas também existem oportunidades. Meses depois, a limpeza das árvores caídas continua, mas com o plano de replantio para a cidade em 2021, existe a chance de garantir que as áreas verdes sejam mais acessíveis de forma igualitária a todos os residentes e que tenham maior probabilidade de sobreviver a fortes tempestades no futuro.

Menos sombra, contas mais altas

Algumas árvores caíram como peças de xadrez gigantes. Outras permanecem de pé, mas estão tão danificadas que não sobreviverão.

“É como se alguém tivesse arrancado todo o topo da árvore”, diz Fagan. “O que restou foi este pedaço irregular e torcido.”

Milhares de árvores bloquearam ruas e calçadas após a tempestade, dificultando a comunicação e a mobilidade. Todd Fagan, arborista da cidade, precisou de quatro horas e uma motosserra para liberar o trajeto de 10 minutos de carro até o departamento florestal onde trabalha.

Foto de Dustin Renwick

No quintal de Joyce e Terry Moran em Parkland Drive SE, um adorável bordo-prateado caiu. Eles viveram com a árvore por 30 anos antes que a tempestade destruísse parte dela e motosserras terminassem o trabalho. Os tocos da árvore agora servem como pedestais para vasos de flores.

“É como perder um velho amigo”, diz Joyce.

Esse amigo também reduzia a conta de energia elétrica, resfriando a casa. “Aqui na nossa sala de estar, onde estamos sentados, dá para perceber que está mais quente”, diz Joyce.

“Vai ficar mais quente na sala de jantar e na cozinha também”, diz Terry. “Toda a nossa casa ficava à sombra da árvore durante boa parte do dia.”

As sombras resfriam os bairros de duas maneiras: protegendo os edifícios da luz solar direta e reduzindo o calor que as calçadas de concreto e as ruas asfaltadas absorvem e irradiam posteriormente. Desse modo, as árvores resfriam as ilhas de calor urbanas, dias mais quentes de verão em que as temperaturas podem aumentar até 17 graus Celsius em algumas cidades.

Estima-se que as árvores colaborem com uma economia de custos de eletricidade nos Estados Unidos entre US$ 1 bilhão e US$4,7 bilhões. O número mais conservador resulta de um estudo conduzido por Rob McDonald, cientista-chefe de soluções baseadas na natureza da The Nature Conservancy. Ele também analisou as mudanças de temperatura associadas à cobertura de árvores urbanas.

Ao aplicar os dados aos danos causados pelo derecho, McDonald calculou que a temperatura média do ar em um dia de verão em Cedar Rapids pode aumentar cerca de meio grau Celsius. Esse pequeno número, no entanto, subestima o que pode acontecer em algumas regiões da cidade.

“Estatísticas de toda a cidade podem mascarar um contexto realmente importante para bairros específicos em Cedar Rapids que perderam uma grande quantidade de árvores”, diz McDonald. Segundo ele, as temperaturas podem facilmente aumentar de 2 a 4 graus em ruas onde apenas os tocos lembram as árvores que antes costumavam fazer sombra.

Pontes entre o céu e a terra

As árvores não apenas unem o céu à terra, mas também unem a terra à água, um fato nítido no quintal da casa de Russell Snow. Ele e sua família se mudaram para a cidade em março, encantados com a propriedade silvestre. Poucos meses depois, a tempestade derecho destruiu 80 árvores.

“Na primeira semana após a tempestade, trabalhei 10 horas por dia com uma motosserra e não cortei nem a metade das árvores caídas”, conta Snow. “Agora tenho a maior pilha de toras do mundo no fundo do meu quintal.”

O bosque de aproximadamente 0,8 hectare se transformou em uma encosta árida de terra e, com a chuva torrencial que veio em seguida, virou lama.

Após o fenômeno derecho, equipes da cidade limparam os destroços de árvores durante todos os dias da semana, do amanhecer ao anoitecer. Esse ritmo diminuiu, mas meses depois, o trabalho ainda continua.

Foto de Dustin Renwick

As florestas urbanas não apenas bloqueiam o sol, mas também interceptam a chuva — é por isso que a calçada sob uma grande nogueira permanece seca durante uma chuva leve.

As raízes das árvores evitam que o solo se mova à medida que a água da chuva penetra nele, e as folhas e galhos impedem que a chuva atinja encostas desprotegidas ou superfícies impermeáveis, como estacionamentos e ruas. Quando a chuva atinge essas áreas, corrói o solo e geralmente coleta uma combinação de toxinas, carregando-as para riachos e rios. Com tantas árvores destruídas, mais milhões de litros de águas pluviais poluídas entrarão na bacia hidrográfica de Cedar Rapids.

A resposta de Snow é: “pegue uma pá e comece a substituir o insubstituível”.

“Estamos replantando para o futuro”, esclarece ele. “Estamos plantando para nossos filhos e netos. Nunca verei os benefícios de um carvalho de 150 anos de idade. Mas outra pessoa verá.”

Replantio na cidade

Cedar Rapids ainda está avaliando a escolha das espécies de árvores para replantio, mas selecionar uma variedade será crucial para diminuir o risco de pragas que afetam certas espécies. A doença holandesa do ulmeiro, por exemplo, matou 95% dos ulmeiros americanos nas cidades de Iowa depois que os primeiros casos surgiram em 1956.

“Não fizemos um bom trabalho em replantar uma floresta diversa após a doença holandesa do ulmeiro”, diz Emma Hanigan, coordenadora florestal urbana do Departamento de Recursos Naturais de Iowa. “Agora temos essa oportunidade.”

Outro fator importante do replantio é onde essas novas árvores serão plantadas.

“Há uma forte correlação com a economia”, diz Hanigan.

Derecho destruiu mais da metade das árvores da cidade, mas as sobreviventes servirão como âncoras de uma nova floresta urbana durante o replantio da cidade. Folhas de bordo vermelho, carvalho, bétula e amora.

Foto de DUSTIN RENWICK

Em diversas cidades dos Estados Unidos, áreas verdes são mais comuns em bairros ricos, geralmente com predominância de população branca, já os bairros de baixa renda tendem a ter menos árvores — e menos benefícios relacionados às áreas verdes.

Cedar Rapids é uma exceção, conta Fagan: alguns bairros de baixa renda estão em regiões mais antigas da cidade, onde árvores maiores proporcionam mais sombra. E nos últimos anos, a cidade priorizou o plantio de novas árvores em ruas de outros bairros de baixa renda que não possuíam uma floresta urbana desenvolvida.

Mesmo com alguns danos causados pela tempestade, há cobertura das copas das árvores porque “esses bairros eram um bom lugar para começar”, diz Fagan.

Ainda assim, a injustiça ambiental também existe em Cedar Rapids, e os projetos de reflorestamento podem abordar essas desigualdades. Por exemplo, em um quarteirão de prédios pode haver um pequeno parque onde alguns plantios estratégicos criem um impacto significativo.

“Eu acredito que essa área apresente mais oportunidades de plantio eficaz, não necessariamente maior em números”, diz Fagan.

Vários estudos descobriram que o plantio de árvores urbanas que consideram a equidade só tem êxito com envolvimento significativo da comunidade, especialmente quando esse processo capacita os moradores a demonstrar suas expectativas e anseios.

“Esse será o principal foco do novo plano de replantio”, diz Shannon Ramsay, fundadora da organização local sem fins lucrativos Trees Forever. “Não se trata apenas de plantar árvores”, diz ela, mas também de cultivar parcerias em longo prazo com os moradores.

E mesmo enquanto a limpeza das árvores segue acontecendo, os funcionários da cidade discutem os esforços voluntários e os feedbacks da comunidade.

“As pessoas obviamente querem replantar”, diz Fagan sobre o entusiasmo que observou da população. “O replantio demorará uma década e demandará muito trabalho.”

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