Ondas de calor letais, inundações e secas se intensificarão caso aquecimento global continue

No relatório mais recente do IPCC, principais especialistas mundiais sobre o clima revelam como as condições climáticas extremas se tornarão mais comuns, a menos que reduções “drásticas” nas emissões de gases na atmosfera sejam realizadas agora.

Publicado 16 de ago. de 2021 11:52 BRT
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Homens reúnem ovelhas para salvá-las de um incêndio florestal na Turquia. O país enfrentou um dos piores incêndios florestais em décadas em meio a uma onda de calor persistente. Um novo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) explica como as mudanças climáticas tornarão as condições meteorológicas extremas mais letais e comuns.

Foto de Yasin Akgul, AFP/Getty

As ondas de calor letais, inundações e secas que estão afetando a vida de milhares de pessoas desde o oeste norte-americano até o sul da Europa e a China central tendem a piorar conforme as temperaturas globais aumentam, de acordo com um alarmante relatório sobre o a situação climática no planeta.

O incêndio florestal Dixie Fire, ativo no estado da Califórnia, nos EUA, que já é o segundo maior na história do estado, queimou quase 202,3 mil hectares, destruiu mais de 400 casas até o momento e ainda ameaça milhares de outras. A causa exata do incêndio é desconhecida, mas as chamas estão sendo alimentadas por condições extremamente secas e ventos fortes.

Há muito tempo, os cientistas defendem a teoria de que as mudanças climáticas estão relacionadas a alterações generalizadas nos padrões climáticos. Mas o sexto relatório do IPCC, órgão da ONU, publicado em 9 de agosto, demonstra que as mudanças climáticas são causadas por ações humanas. O mundo já aqueceu em 1,1 graus Celsius desde a era industrial, e as condições climáticas extremas são uma das principais manifestações do aquecimento.

“As condições meteorológicas extremas estão relacionadas às mudanças climáticas da mesma forma que fumar pode causar câncer”, afirma Friederike Otto, um dos autores do relatório e pesquisador de mudanças climáticas na Universidade de Oxford.

E, assim como as consequências do fumo, os danos ambientais são difíceis de reverter, explica Otto. Se todas as emissões de gases do efeito estufa cessassem hoje — seria como se o planeta parasse de fumar — o agravamento das ondas de calor e inundações que estão ocorrendo agora seriam interrompidos por séculos. Segundo os cientistas, o mais importante é garantir que esses eventos não se tornem ainda mais comuns e intensos do que são atualmente.

Como e o que se sabe sobre esse assunto? 

As descobertas do relatório sobre as condições meteorológicas extremas são baseadas em centenas de artigos científicos revisados por pares e representam o mais recente consenso da comunidade científica sobre a situação das mudanças climáticas. O primeiro relatório foi publicado em 1990 e o mais recente em 2013.

Os cientistas dizem que, nos sete anos desde então, a influência das mudanças climáticas sobre as condições meteorológicas extremas ficou mais evidente. Apesar de o relatório de 2013 apenas mencionar condições meteorológicas extremas, a última iteração dedica um capítulo ao tema.

“Eu sinceramente acredito que a população precisa saber que as mudanças climáticas prejudiciais estão acontecendo aqui e agora”, disse Michael Wehner, pesquisador que estuda climas extremos no Laboratório Nacional Lawrence Berkeley. Wehner escreveu projeções meteorológicas extremas para o relatório de 2013 e é o principal autor do último relatório.

Pela primeira vez, o relatório detalha os efeitos das mudanças climáticas por região e mostra que quase todos os países do planeta serão atingidos pela intensificação das ondas de calor, por mais chuvas ou pelo agravamento de secas. Em julho, algumas regiões da China receberam 635 milímetros de chuva em um único dia. Quantidade esperada para um ano inteiro nas localidades.

O relatório também observa que os ciclones tropicais (o padrão climático conhecido como “furacões no Oceano Atlântico”) mudarão suas características: se tornarão mais poderosos, sua mobilidade será mais lenta sobre a terra e causarão um nível de precipitação tão alto que as inundações causarão mais danos do que o próprio vento gerado pelos ciclones. Nos Estados Unidos, os estados do Texas, da Carolina do Norte e da Carolina do Sul já sofreram com esse novo tipo de furacão em seu território, que foram os casos dos furacões Harvey, em 2017, e o Florence, em 2018, que causaram inundações catastróficas e um prejuízo de bilhões de dólares em danos.

“Todas as regiões do mundo são afetadas por alguma condição extrema. As mudanças estão acontecendo em todos os lugares”, declara Sonia Seneviratne, cientista ambiental do Instituto de Atmosfera e Clima de Zurique e uma das autoras do relatório do IPCC. “As mudanças climáticas também estão se multiplicando devido a intensificação do aquecimento global.”

Muitas regiões em todo o mundo estão sofrendo “eventos compostos”, afirma a cientista. Incêndios florestais estão ocorrendo em áreas que sofrem com ondas de calor e secas. Ou chuvas fortes em áreas costeiras expostas à elevação do mar, por exemplo, que aumentam a gravidade de desastres.

Depois de enfrentar seca e temperaturas que chegaram a bater recordes de calor, a Califórnia enfrenta o segundo maior incêndio florestal já registrado em seu território. A Turquia e a Grécia também estão enfrentando uma das piores ondas de calor já registradas e incêndios florestais drásticos.

Para determinar qual a relação entre a elevação das temperaturas e a probabilidade de um evento climático extremo, cientistas mostram como os padrões climáticos teriam evoluído sem os altos níveis de emissões que causam o aquecimento global. As mudanças climáticas têm clara influência sobre as ocorrências de ondas de calor e chuvas extremas, pois o aumento da frequência desses fenômenos pode estar diretamente relacionado ao aumento das temperaturas. Outros tipos de clima extremo, como perigosas nevascas e furacões, ainda são temas de pesquisas com menos descobertas conclusivas.

Embora o aumento da temperatura global em um ou dois graus possa parecer insignificante, nem todas as regiões do mundo estão aquecendo da mesma maneira. No noroeste do Pacífico, por exemplo, onde ondas de calor históricas causaram a morte de cerca de 800 pessoas no verão deste ano, prevê-se que as temperaturas em 2050 sejam 14 graus Celsius mais altas do que eram antes da revolução industrial. Isso não é apenas um aumento das médias das temperaturas; é também um aumento nas médias de condições extremas. 

“As mudanças climáticas estão fazendo com que as ondas de calor sejam mais frequentes”, diz a cientista. Em um estudo pesquisa ligado a uma iniciativa chamada World Weather Attribution, Otto e seus colegas descobriram que a onda de calor do noroeste do Pacífico teria sido “praticamente impossível” sem as mudanças climáticas. 

“Com relação às chuvas, a probabilidade quase dobra. Para as ondas de calor, facilmente é observado um aumento de um fator de 10 ou mais, então eu acredito que as ondas de calor são realmente um dos impactos mais marcantes das mudanças climáticas”, reitera ela.

Ondas de calor anômalas, que antes tinham chances de ocorrer uma vez a cada 10 anos, agora têm duas vezes mais chances de ocorrer. Ondas de calor ainda mais raras, que poderiam ocorrer uma vez a cada 50 anos, agora são quase cinco vezes mais prováveis, de acordo com o IPCC.

O que é feito em relação a isso? 

O relatório do IPCC é entregue antes de uma conferência que acontece em novembro, onde cerca de 200 países se reunirão em Glasgow, na Escócia, para discutir maneiras de reduzir suas emissões de gases. Políticas atuais de países de todos os continentes têm uma grande jornada pela frente para restringir o aquecimento global a 3 graus Celsius até o ano 2100. 

Para limitar o aquecimento global a apenas 2 graus Celsius, Wehner diz: “creio que teríamos de tomar medidas bastante drásticas”. Medidas drásticas, acrescenta, significariam eliminar completamente o consumo de carvão, petróleo e gás natural.

Mesmo se hoje todas as nações do mundo cessassem completamente a emissão de dióxido de carbono, metano e outros gases que aquecem o planeta, os efeitos dos apenas 1,1 graus Celsius de aquecimento perdurariam por mais mil anos. O importante agora, alerta Wehner, é tentar evitar mais danos.

“Se o verão deste ano foi considerado hostil, um verão com temperaturas 3 ou 4 graus Celsius mais quente faria este verão parecer normal”, diz Wehner. “É duro imaginar como isso seria ruim. Algumas áreas do planeta deixariam de ser habitáveis. Os grandes furacões seriam simplesmente devastadores.”

Enquanto este relatório do IPCC examinou a ciência física das mudanças climáticas, outra iteração será publicada em fevereiro de 2022. Esse próximo relatório examinará o impacto das mudanças climáticas sobre os humanos e como precisaremos nos adaptar.

De 2000 a 2015, aproximadamente 86 milhões de pessoas migraram para regiões onde inundações são comuns, de acordo com um estudo publicado recentemente na revista científica Nature. O efeito combinado da elevação do nível do mar e maior precipitação significará que ainda mais pessoas estarão expostas a inundações no futuro. Sem uma adaptação eficaz, mais pessoas estarão em zonas de riscos graves.

“O termo ‘desastre natural’ é utilizado com muita frequência para descrever fenômenos como furacões. Pesquisadores que estudam desastres naturais defendem há muitas décadas que o termo é impróprio”, conta Samantha Montano, especialista em gerenciamento de emergências da Academia Marítima de Massachusetts.

Montano afirma que muitos desastres são resultados de ações planejadas, por exemplo a construção de casas vulneráveis em locais de risco e sem os protocolos de gerenciamento de emergências adequados. Conforme os riscos aumentam, mais investimento para auxiliar pessoas a se adaptarem são necessários com urgência, afirma a especialista.

“Há muito tempo falamos sobre as mudanças climáticas como algo que as futuras gerações iriam enfrentar. Mas já estamos lidando com essa questão. Pessoas já perderam a vida por causa disso”, diz Montano.

Os membros mais vulneráveis da sociedade sofrerão o maior impacto negativo do clima mais extremo — aqueles que não têm condições de pagar por um ar-condicionado ou não possuem um carro para evacuar de um local afetado, diz Montano. “Conforme esses desastres ocorrem, nosso discurso deve ser de que tudo isso pode ser evitado.”

Seneviratne alerta que mesmo com medidas tomadas para se adaptar às condições climáticas atuais, será crucial reduzir as emissões de gases para evitar climas extremos ainda piores.

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