Smart Cities: o que são e como nossas cidades enfrentarão os grandes desafios deste século?

Num cenário que nos coloca frente a um futuro de superpopulação, as grandes cidades serão fundamentais para responder aos importantes desafios do século 21.

Por Cristina Crespo Garay
Publicado 2 de set. de 2022 15:53 BRT
Os desafios que representam as cidades se multiplicarão exponencialmente à medida que nos aproximamos dos 10 ...

Os desafios que representam as cidades se multiplicarão exponencialmente à medida que nos aproximamos dos 10 milhões de habitantes que se preveem no mundo até o final do século, 70% deles nas grandes cidades.

Foto de PxHere

Na megalópole do filme Metropolis, Fritz Lang desenhou para o ano de 2026 uma visão apocalíptica da sociedade do futuro, com cidades divididas entre as maiores riquezas e guetos industriais subterrâneos. Proibidos de sair para o mundo exterior, os habitantes do gueto são instigados por um robô e se rebelam contra a classe intelectual, ameaçando destruir a cidade em expansão na superfície.

Desde então, nossa ideia de cidades mudou muito: justamente no momento em que as grandes urbes enfrentam o maior desafio de superpopulação da história, ao mesmo tempo elas estão surgindo como a solução para poder unir todas as respostas. Acolher uma população que se multiplica exponencialmente, reduzir a poluição, descarbonizar sua indústria, reduzir as desigualdades e apostar na mobilidade e energia limpa são alguns desses grandes desafios. Mas como lidar com eles a partir das chamadas smart cities?

“A grande pergunta que precisamos responder é, sem dúvidas, se nossas cidades estarão preparadas”, diz o especialista em cidades inteligentes Enrique Ruz Bentué, autor do livro Ciudad inteligente, ciudad al fin y al cabo (Cidade inteligente, cidade afinal, em tradução livre).“Estamos vivendo uma fase em que o valor das cidades é muito importante. Experimentamos o valor dos impérios, dos países e agora vivemos a grande revolução das cidades”.

Os números atuais desses grandes problemas se multiplicarão exponencialmente à medida que nos aproximamos dos 10 bilhões de pessoas que devem habitar o mundo até 2050, 70% delas nas grandes cidades. “Há uma grande necessidade no mundo de preparar as cidades para toda essa mudança demográfica que estamos vivenciando, tanto pelo crescimento demográfico quanto pela transferência de populações do mundo rural para o urbano”, afirma Ruz Bentué. "Países como a Índia ou a China estão criando e construindo diretamente novas urbes, mas outros países precisam adaptar suas cidades."

Ao perguntar a Alejandro Sánchez de Miguel se estamos prontos, o astrofísico especialista em poluição luminosa nas cidades e líder do projeto Cities at night respondeu enfaticamente que não. “Não existem políticas que realmente meçam os impactos ambientais em muitas áreas de forma confiável”, explica. "Sem políticas baseadas em evidências e sem medidas, todas as políticas permanecem, na melhor das hipóteses, como boas intenções e, no pior cenário, em fraude."

O urbanismo hoje foge da metrópole desumanizada em que a cidade foi concebida para percorrer de carro grandes esplanadas e quarteirões divididos por zonas. Os planejadores urbanos tentam romper as ideias que se desenvolveram no século da industrialização para colocar as pessoas de volta no centro das cidades.

“O trabalho das cidades é fundamental, está muito mais próximo das pessoas”, destaca Ruz Bentué. “Por isso, um projeto de mudança climática que promova um governo municipal é muito mais viável do que os acordos que podem ser feitos em nível internacional nos grandes fóruns de debate que acontecem em todo o mundo”.

O problema é complexo e a resposta abrange uma profundidade que atravessa todos os pilares que sustentam o nosso dia-a-dia nas cidades, muito para além das polêmicas sobre poluição, engarrafamentos ou zonas livres de emissões. 

O desenho das cidades do futuro

O ecodesenho não é uma invenção deste século; um dos pioneiros foi o chamado Megaron de Sócrates, um grande salão nos palácios da civilização micênica, que tinha forma trapezoidal para absorver a energia solar no inverno e manter o conforto no verão graças ao desenho de sua fachada. É inegável o grande impacto que o desenho das cidades tem na sua pegada ecológica, assim como a dificuldade de reestruturar as cidades após séculos de desenvolvimento.

O modelo das chamadas cidades estendidas tão típicas dos Estados Unidos, sprawl city, em inglês, torna tudo distante, em uma cidade infinita cheia de quarteirões de casas e jardins enormes e, portanto, torna insustentável qualquer sistema de transporte público. Esse é um dos grandes problemas das cidades atuais: elas se configuraram em torno do uso do carro, que, além de gerar grandes conflitos de engarrafamentos nas grandes cidades, também degrada o ar que respiramos.

“Na Espanha, quando começamos a trabalhar com o projeto de cidades digitais, o fizemos desde o governo, mas primeiro tivemos que identificar as cidades onde queríamos aplicar esse projeto”, relata Ruz Bentué.

Nos últimos anos, os urbanistas têm pregado uma maior importância para a inteligência artificial e, ao mesmo tempo, uma maior presença de pedestres. Defendem que devemos entender as ruas como uma extensão de nossas casas, para que possamos aproveitar o espaço público ao invés de ficarmos trancados em casa, cedendo esse espaço à mobilidade de nossos carros.

(Você pode se interessar por: Planeta está batendo recordes de calor – e ficará ainda mais quente no futuro)

Por tanto, em relação ao desenho das cidades, entram em jogo sua habitabilidade, sua pegada ecológica e, também, o protagonismo da natureza, raramente incluída nos grandes blocos de paralelepípedos e edifícios altos do século passado, segundo explica Silvia Organista Sandoval, especialista em desenvolvimento sustentável.

Cobrir a terra com cimento teve um grande impacto no aumento das temperaturas nas cidades. Revestir nossos pisos com verde significa não apenas ver mais natureza de nossas janelas, mas também banir o efeito de ilha de calor, cada vez mais perceptível em cidades ao redor do mundo.

Segundo Sánchez de Miguel, as medidas se concentram somente no uso de inteligência artificial, internet e sustentabilidade. "Mas tudo isso é apenas uma moda, em muitos casos sem sentido. Qual a utilidade de ter uma cidade que possa regular a intensidade de cada ponto de luz se o projeto de iluminação é tão ruim que para qualquer nível de iluminação os vizinhos se sentem desconfortáveis? O fator humano, do ponto de vista do desenho e da ciência, é tão, ou até mais importante que a tecnologia”, afirma. Uma cidade é altamente complexa e precisa de diferentes departamentos para trabalhar em conjunto de forma interdisciplinar. "Esse é o verdadeiro desafio para ser uma smart city."

A cidade como catalisadora e vítima das mudanças climáticas

Embora o desenvolvimento ilimitado das grandes cidades tenha provocado muitas das causas das mudanças climáticas, elas também abrigam alguns dos pontos mais críticos diante de suas consequências. Enquanto a subida do rio Ebro, na Espanha, continua a ameaçar todos os assentamentos vizinhos e as inundações devastam cada dia mais lugares na Europa e no mundo, fica claro por que o menor desequilíbrio tem uma enorme capacidade destrutiva nas grandes cidades. 

Além da grande população afetada, por razões históricas e econômicas, a maioria das grandes cidades do mundo está localizada na foz de grandes rios, em terras férteis ou próximas ao comércio marítimo, tornando-as as áreas mais vulneráveis ​​à seca, chuvas torrenciais ou aumento do nível do mar.

“Para ser sustentável, não só é preciso cumprir a lei, que é flagrante e constantemente violada em várias áreas, ou manter as melhores práticas, mas garantir que as diferentes políticas não degradem ainda mais o meio ambiente e a qualidade da vida das pessoas", explica Sánchez de Miguel. "A medida de quão sustentável é uma cidade tem a ver com resultados."

Algumas partes do planeta onde o nível do mar se eleva ou países em desenvolvimento com crescimento de suas metrópoles a um ritmo vertiginoso, já estão realizando projetos, como a construção de parques que protegem as cidades como um muro ou o desenho de cidades flutuantes. Por exemplo, a cidade portuária de Hamburgo, na Alemanha, já possui prédios cujos andares térreos ficarão vazios para as futuras inundações.

De qualquer forma, e seja qual for o desafio escolhido, a inovação tecnológica está no centro de todos os olhares para projetar essas cidades compatíveis com a vida futura. Enfrentar esses grandes desafios é acompanhado de um debate que tem entrado na agenda midiática frequentemente nos últimos anos: a globalização faz com que as cidades tenham autonomia para legislar e se autogerenciar como a polis grega já fez, para poder dar resposta individual a cada problema.

"Dados e tecnologia por si só não tornam uma cidade inteligente", aponta Sánchez de Miguel. "Para que uma cidade seja uma smart city, ela precisa ser inteligente, e este atributo hoje ainda reside nas pessoas." 

Embora os desafios enfrentados pelas cidades deste século sejam inúmeros e não possam ser resumidos em um único artigo, os especialistas concordam que o caminho que devemos seguir sempre colocará as pessoas no centro da equação. "Sem dúvida, a inteligência de uma cidade, desenvolvida no campo que for, será direcionada e determinada pelo progresso das pessoas por trás da tecnologia."

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