Península Mitre, na Argentina, é declarada área natural protegida: conheça este intrigante ecossistema sul-americano

Região é lugar-chave para a luta contra a crise climática global. Atualmente, menos de 10% da superfície do Mar Argentino Continental está preservada, mas novos regulamentos trazem esperança para essa rica biodiversidade marinha.

Em 1989, Oscar Zanola, o primeiro diretor do Museu do Fim do Mundo, propôs a criação de uma Reserva Cultural e Natural.

Foto de Cristian Lagger @LAGGERCRISTIAN
Por Redação National Geographic Brasil
Publicado 14 de dez. de 2022 10:32 BRT

Acaba de ser aprovado no começo do mês de dezembro pela câmara legislativa da província de Tierra del Fuego, Antártida e Ilhas do Atlântico Sul, região que é a mais ao sul da Argentina, a criação da Área Natural Protegida Península Mitre (Anppm). 

O projeto, que há mais de 30 anos esperava para se tornar realidade, transformou em área protegida um lugar de especial importância por sua biodiversidade. 

De acordo ele, a área a ser preservada engloba toda a "parte terrestre do extremo leste do setor argentino da Ilha Grande de Tierra del Fuego, a área marinha adjacente e as áreas marinhas ao redor da Ilha de los Estados, Ilha de Año Nuevo e ilhas adjacentes, e todos os corpos d' água, cursos d' água, lagoas, ilhas e ilhotas interiores localizadas dentro dos limites", explica o documento sobre a preservação.  

Que mudanças podem haver na Península Mitre a partir de agora?

A criação da área natural protegida – aprovada em 6 de dezembro de 2022 – fornece um marco regulatório e "preenche lacunas legais, de responsabilidade e controle que não existiam antes", como explica Cristian Lagger, biólogo marinho, pesquisador do Laboratório de Ecologia Marinha do Instituto de Diversidade Animal e Ecologia (Idea/Conicet) na Argentina e explorador da National Geographic Society.

"Hoje, menos de 10% da área do Mar Continental Argentino está sendo preservada. A recente declaração de Península Mitre como Área Natural Protegida acrescenta 6 mil e 800 quilômetros quadrados de mar a esta porcentagem”.

Entretanto, para o explorador, o verdadeiro desafio e que trará a maior mudança é a educação a respeito da preservação local: "É necessário gerar empatia pelos incríveis ecossistemas da Península, para que as pessoas se apaixonem por eles e os tornem seus".

As costas e o mar que rodeiam a Península albergam uma grande variedade de fauna marinha, pelo que é considerada um santuário natural.

Foto de Cristian Lagger @LAGGERCRISTIAN

Por que é importante conservar a Península Mitre

Segundo o site “Yo voto Península Mitre”, página dedicada ao projeto e ao ecossistema em questão, a falta de um marco regulatório significava que muitas das espécies de flora e fauna da região viviam sob ameaça. A nova lei ajudará a proteger todo esse meio ambiente.

"Suas terras indomadas conseguiram preservar a península como um dos poucos espaços no mundo que resistiu ao avanço da humanidade, mantendo suas paisagens em grande parte inalteradas e imaculadas, mas, infelizmente, sua reputação não é mais suficiente para proteger sua vida selvagem, turfeiras, pastagens e extensa costa", afirma o “Yo voto Península Mitre”.

A costa e o mar ao redor da península são o lar de uma grande variedade de fauna marinha, razão pela qual elas são consideradas santuário natural. É também um dos cinco pontos com a maior diversidade de aves marinhas da Argentina. 

Por outro lado, "juntamente com a Ilha de los Estados e o Estreito de Le Maire, formam um grande corredor marinho e constituem uma área fundamental para a reprodução do pinguim tufado amarelo", informa o site dedicado à Península Mitre.

Entre os animais que podem ser vistos ali estão: pinguins de Magalhães, corvos-marinhos imperiais e de cabeça preta, gaivotas sul-americanas, leões marinhos, golfinhos do sul, golfinhos do Comando, orcas, cachalotes, cachalotes, baleias corcunda e sei, guanacos, raposas vermelhas, gansos costeiros, só para citar alguns.

Em dezembro de 2020, foi declarado de interesse ambiental, natural e cultural pela província.

Foto de Cristian Lagger @LAGGERCRISTIAN

Por outro lado, é também uma área valorizada porque existe um importante reservatório de sítios arqueológicos que deve ser preservado por seu valor científico e por sua relação com as comunidades locais. Estes teriam pertencido a um grupo de caçadores-coletores conhecidos como Haush ou Manekenk, que habitaram a costa da Península Mitre por milênios.

Além dos dados já mencionados, florestas ocupam aproximadamente 35,6% da superfície da Península Mitre, que é coberta por uma folhagem bastante típica. "Como as florestas em terra, as florestas submersas contribuem para mitigar a mudança climática ao armazenar grandes quantidades de carbono orgânico, uma capacidade que lhes valeu o reconhecimento como reservatórios de carbono azul", acrescenta o biólogo marinho. 

(Veja também: Como a mudança climática afeta os seres humanos?)

O site sobre a Península Mitre também salienta que as pastagens ali presentes são fundamentais porque "constituem um dos maiores ecossistemas do mundo e são o habitat de numerosas espécies, contribuindo para a retenção de água e armazenamento de carbono".

Vale ressaltar que 95% das turfeiras (um tipo de vegetação pantanosa) da Argentina se encontram na província de Tierra del Fuego e estão concentradas principalmente em Mitre, onde 45% da superfície é de turfa.  

Um estudo recente do Centro de Monitoramento da Conservação Mundial das Nações Unidas (Unep-Wcmc) e da National Geographic Society constatou que, por unidade de área, a Península Mitre é o ponto de maior sequestro de carbono na Argentina.

“Um estudo recente do Centro de Monitoramento da Conservação Mundial das Nações Unidas (Unep-Wcmc) e da National Geographic Society constatou que, por unidade de área, a Península Mitre é o ponto de maior sequestro de carbono na Argentina.”

"Em um contexto global de crise climática, isto é particularmente importante porque o carbono capturado naturalmente pelas turfeiras é uma ferramenta fundamental de mitigação. Se a turfa for destruída, o carbono armazenado poderá retornar à atmosfera, aumentando o efeito estufa", observa o site.

"Desta forma, a Península Mitre possui valiosos ecossistemas naturais que fornecem serviços essenciais na luta contra a mudança climática, não apenas em escala local, mas também em escala global", resume o explorador da National Geographic.

Para Lagger, a criação desta nova área natural protegida é um exemplo de conservação em escala global e deve servir como um farol de luz para uma maior proteção marinha.

A criação da área natural protegida, aprovada em 6 de dezembro de 2022, fornece o marco regulatório e permite “preencher lacunas legais, de responsabilidade e controle que antes não existiam”, afirma Cristian Lagger, biólogo marinho, pesquisador do Laboratório de Ecologia Marinha da do Instituto de Diversidade Animal e Ecologia (Idea/Conicet) da Argentina e explorador da National Geographic Society.

Foto de Cristian Lagger @LAGGERCRISTIAN

Península Mitre preservada: um projeto de longa data

Desde a primeira campanha para estudar e compreender o valor do meio ambiente da Península Mitre, em 1984, vários órgãos governamentais, da sociedade civil, além de setores comunitários, acadêmicos e científicos, têm procurado proteger a península, como conta o “Yo voto Península Mitre”.

Em 1989, Oscar Zanola, o primeiro diretor do Museu do Fim do Mundo, que fica na região, propôs a criação de uma Reserva Cultural e Natural. Então, em 1995, foi aprovada a Lei nº272, que criou o Sistema Provincial de Áreas Naturais Protegidas, uma precursora para se poder criar futuras áreas protegidas na província de Tierra del Fuego.

"Nesse contexto, o Departamento de Fauna e Ambientes Naturais da Direção Provincial de Proteção Ambiental propôs a criação de uma área protegida na Península Mitre”, informa o site “Yo voto Península Mitre”. Mas foi apenas em 2002 que um conjunto de pessoas dedicadas ao projeto elaborou um documento pedindo para que a área fosse protegida e o encaminhou ao Poder Executivo – que remeteu o pedido à câmara legislativa da província. 

Nos anos de 2005, 2007, 2008, 2008, 2011 e 2013, foram apresentados outros projetos com o mesmo propósito, mas que não prosperaram. Por esta razão, em 2017, a Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento Sustentável e Mudança Climática da Tierra del Fuego convocou os setores governamentais, as organizações não-governamentais e a comunidade a elaborarem um novo projeto de consenso, que foi apresentado em 2018.

Finalmente, em dezembro de 2020, a área foi declarada de interesse ambiental, natural e cultural pela província.

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