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Como por um milagre, leões retornaram ao território onde antes eram caçados

Na reserva de Selinda em Botsuana, os caçadores exterminaram todos os leões, exceto duas fêmeas. Com a chegada de dois machos, hoje, os leões estão se desenvolvendo. Quarta-feira, 12 Dezembro

Por Douglas Main
Fotos de Beverly Joubert

QUANDO OS DOCUMENTARISTAS DERECK e Beverly Joubert visitaram, pela primeira vez, o que se chama agora de Reserva Selinda no norte de Botsuana, a caça tinha dizimado o território.

“Testemunhamos a devastação da região por caçadores de troféus”, afirma Dereck.

Contudo o casal, ambos Exploradores da National Geographic, teve a chance de fazer algo a respeito. Quando a concessão da área de caça foi colocada à venda, eles angariaram fundos e a compraram. Há 13 anos, o local é uma reserva protegida.

Quando a família Joubert adquiriu a terra, a população de leões tinha definhado a um total de dois: uma leoa e sua fêmea filhote.

Em um dia decisivo, chegaram dois machos, nadando da Namíbia pelo rio Cuando. Logo, os leões começaram a repovoar a região.

Hoje, existem cerca de 100 leões em Selinda, estima Dereck.

Esse retorno—abordado no filme da dupla, Birth of a Pride (“O nascimento de um bando”, em tradução livre)—mostra o que pode acontecer quando a vida silvestre é adequadamente protegida.

“Se implantamos boas práticas de conservação, conseguimos reverter uma situação ruim”, afirma Beverly.

É um bálsamo diante de tantas notícias ruins sobre os leões. Houve um declínio na população total dos animais de 450 mil, há 60 anos, quando a família Joubert nasceu, para os cerca de 20 mil dos dias atuais.

Na produção do documentário, os Jouberts testemunharam a incrível determinação que um leão selvagem precisa ter para sobreviver. Em uma cena arrebatadora, duas leoas tentam atravessar com os filhotes um rio repleto de hipopótamos e crocodilos. Quatro passaram e dois foram deixados para trás, passando a noite sozinhos.

“Os dois ficaram tremendo no junco da margem do rio e não achávamos que as fêmeas voltariam”, conta Beverly.

Mas, de repente, “no raiar do dia, vimos as silhuetas delas chegando”, atravessando silenciosamente o rio, prossegue ela. As leoas resgataram os filhotes gelados e os quatro atravessaram a água a nado até ficarem em segurança.

“Foi incrivelmente emocionante ver que os filhotes ainda estavam vivos”, acrescenta Beverly. “Tentamos transmitir o que sentimos para que o público visse que os leões já têm desafios o bastante em sua existência diária aqui na natureza... sem que os exterminemos.”

O casal Joubert está convicto de que não se deve caçar leões, tendo em vista a pequena população global da espécie.

Caçar para se alimentar de animais como o veado nos Estados Unidos, onde os superpredadores foram praticamente eliminados por completo em diversas áreas, “não é algo que eu seja contra”, afirma Dereck. Mas matar leões, que estão no topo da cadeia alimentar, pode causar um caos ecológico, sobretudo os machos.

Quando caçadores de troféus abatem um dos machos mais velhos, isso pode provocar uma reação em cadeia de mortes, explica Beverly. Geralmente, um macho novo entra no bando e, para reiterar sua dominância, mata os filhotes do antecessor. A mudança ainda pode acarretar brigas mortais entre fêmeas em disputa.

Sem a caça, entretanto, os leões naturalmente se expandem para novos territórios. Os jovens machos e fêmeas deixam seus bandos após vários anos e muitos começam novos grupos familiares em áreas vizinhas—e isso já ocorreu em Selinda.

A família Joubert considera isso um exemplo do que pode acontecer em outras regiões.

“Não podemos entregar os pontos diante das más notícias que ouvimos”, afirma Dereck. “Todos nós temos que manter a esperança.”

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