A ciência do bem e do mal

O que torna as pessoas generosas ou cruéis? Segundo novas pesquisas, as conexões cerebrais podem definir a nossa empatia, ou a falta dela, em relação aos outros.sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Por Yudhijit Bhattacharjee
Fotos de Lynn Johnson
1º de outubro de 2017 | Las Vegas, Nevada | 58 mortos, 546 feridos - Do 32º andar de um hotel, um homem armado com fuzis semiautomáticos disparou mais de mil tiros contra o público de um festival de música. Esse tipo de ataque contra multidões se tornou mais comum depois de 2011.
Confira a reportagem completa: A ciência do bem e do mal na edição dejaneiro de 2018da revista National Geographic Brasil.Publicada por ContentStuff.

Pela janela do trailer em que mora, em Auburn, no estado de Illinois, Ashley Aldridge tem a visão de um cruzamento ferroviário a cerca de 100 metros. Quando avistou, pela primeira vez, o sujeito na cadeira de rodas, a jovem de 19 anos havia terminado de dar o almoço aos seus dois filhos, de 1 e 3 anos, e estava lavando a louça. Ao erguer os olhos, Aldridge notou que a cadeira de rodas não saía do lugar: era evidente que estava presa nos trilhos. Embora o homem gritasse por ajuda, uma moto e dois carros passaram por ele sem parar.

Sem hesitar, a jovem saiu correndo, ao mesmo tempo que pedia a uma vizinha que ficasse de olho nas crianças. Ela ouviu o apito do trem e o ruído da cancela que se fechava. Descalça, disparou pelo leito de pedregulhos ao lado dos trilhos. Quando alcançou o homem, o trem estava a menos de mil metros, avançando a uma velocidade de 125 quilômetros por hora. Sem conseguir soltar a cadeira, ela agarrou o homem pelas costas e tentou tirá-lo, em vão. Com o trem cada vez mais perto, ela o puxou então com toda a força que conseguiu reunir. Acabou por arrancá-lo do assento, e os dois caíram, embolados, de costas. Segundos depois, o trem estraçalhou a cadeira de rodas.

Ashley Aldridge nunca tinha visto antes o sujeito, cuja vida salvara naquela tarde de setembro de 2015. A sua inabalável decisão de ajudá-lo, mesmo colocando em risco a própria vida, é algo que distingue essa jovem da maioria das pessoas. O heroico resgate é um exemplo daquilo que os cientistas chamam de “altruísmo extremo” – atos de abnegação com o objetivo de ajudar desconhecidos, mesmo que isso implique em graves danos pessoais. Não admira que muitos desses heróis – como Roi Klein, um major do Exército israelense que saltou sobre uma granada já armada a fim de salvar a vida dos seus homens – tenham ocupações que requerem justamente que coloquem a vida em perigo de modo a proteger outras pessoas. Mas muitos desses exemplos de abnegação extrema são homens e mulheres comuns.

12 de junho de 2016 | Clube Pulse, Orlando, Flórida | 49 mortos, 53 feridos - Num dos piores atentados terroristas desde o ataque às Torres Gêmeas, em 2001, um atirador, que se disse fã do Estado Islâmico, atacou um clube noturno gay. Um ano depois, o cenário do massacre voltou a ficar de luto.

Agora compare esses atos de nobreza com os horrores cometidos por nós: assassinatos, estupros, sequestros, torturas. Pense na carnificina perpetrada pelo homem que, em outubro, disparou partir do hotel Mandalay Bay, em Las Vegas, Nevada, contra as pessoas que assistiam a um show de música country. Três semanas depois, saiu o tétrico balanço: 58 mortos e 546 feridos. Ou considere o modo frio e implacável com que um assassino em série, como Todd Kohlhepp, um corretor de imóveis no estado da Carolina do Sul, parece ter dispersado pistas a respeito dos seus crimes em estranhos comentários online sobre produtos corriqueiros, entre os quais uma pá dobrável: “Você pode guardá-la no carro para quando tiver de esconder os cadáveres”. Por mais aberrantes que sejam tais horrores, eles ocorrem com frequência suficiente para nos lembrar de uma verdade sombria: não há limite para a crueldade de que são capazes os seres humanos.

Ambos os extremos, tanto os altruístas como os psicopatas, exemplificam os nossos melhores e os nossos piores instintos. Numa das pontas do espectro moral, estão o sacrifício, a generosidade e outros traços nobres que reconhecemos como sendo bons; na outra ponta, o egoísmo, a violência e os impulsos destrutivos que consideramos maléficos. Na raiz de ambos os tipos de comportamento, dizem os pesquisadores, está o nosso passado evolutivo. A hipótese deles é de que os seres humanos evoluíram de forma a ajudar uns aos outros, pois a cooperação, no âmbito de grupos sociais maiores, era essencial à sobrevivência. No entanto, como também havia entre os grupos uma competição pelos recursos, igualmente fundamental era a capacidade de mutilar e até aniquilar os oponentes. “Somos a espécie mais social do planeta, e a mais violenta”, comenta o neurologista Jean Decety, da Universidade de Chicago. “Temos esses dois lados, pois ambos são cruciais para a nossa sobrevivência.”

Kent Kiehl | DENTRO DO CÉREBRO DOS PSICOPATAS - O neurocientista Kiehl detectou nítidas anormalidades, depois de fazer exames de ressonância em mais de 4 mil detentos, medindo a atividade encefálica e as dimensões de várias regiões do cérebro. Os psicopatas exibem danos em estruturas encefálicas interconectadas que atuam no processamento das emoções, na tomada de decisões, no controle de impulsos e no estabelecimento de objetivos.

Há séculos, o modo como surgem e se manifestam em nós o bem e o mal tem sido tema de discussões filosóficas ou religiosas. Mas, nas últimas décadas, os cientistas fizeram avanços no entendimento dos comportamentos, tanto os benevolentes como os malévolos. Ambos parecem estar vinculados a uma característica emocional crucial: a empatia, que é uma capacidade intrínseca do cérebro para experimentar as sensações de outra pessoa. Os cientistas constataram que é a empatia que estimula a compaixão no nosso coração, nos levando a acudir quem se encontra em dificuldade. Os mesmos estudos atribuem os comportamentos violentos, psicopáticos e antissociais à falta de empatia, que parece resultar de disfunções nos circuitos neurológicos.

No passado, os pesquisadores estavam convencidos de que as crianças pequenas não se preocupavam com o bem-estar alheio – uma conclusão lógica quando se observa os ataques de fúria de um bebê. No entanto, descobertas recentes mostram que os bebês demonstram empatia bem antes de completarem o primeiro ano de vida. Alguns desses estudos foram conduzidos pela psicóloga Maayan Davidov, em Jerusalém, e tiveram como meta analisar o comportamento dos bebês diante de alguém que está sofrendo – outra criança que chora, um pesquisador ou a sua própria mãe fingindo dor. Mesmo antes dos 6 meses de idade, muitos bebês reagem aos estímulos com expressões faciais que indicam preocupação; alguns chegam a fazer gestos de carinho, inclinando-se para frente e tentando se comunicar com o sofredor. Por volta do primeiro aniversário, os bebês também mostram sinais de que tentam entender o sofrimento que estão vendo. E, com 18 meses, muitas vezes eles traduzem a sua empatia em comportamentos sociais positivos, como abraços ou oferecimentos de brinquedos para consolar outra criança magoada.

Mas isso não ocorre com todas as crianças. Há uma minoria na qual, a partir do segundo ano de vida, os pesquisadores identificam uma desconsideração ativa” em relação aos outros. “Quando alguém contava que havia se machucado”, relata Carolyn Zahn-Waxler, “essas crianças logo zombavam ou mesmo as contestavam, dizendo ‘você não está machucada’ ou ‘devia ter prestado atenção’ – em um tom de voz claramente condenatório.” Ao acompanhar essas crianças até a adolescência, Zahn-Waxler e a psicóloga Soo Hyun Rhee constataram que elas tinham grande chance de desenvolver tendências antissociais e de se envolver em situações problemáticas.

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