Como uma artista conseguiu engarrafar o cheiro de uma pessoa

Ali Liu usou tecnologias novas para criar perfumes de cheiro humano, óculos que mudam a visão e moldes cobertos com micróbios do seu corpo. Thursday, September 6, 2018

Por Lauren O'Brien
Ani Liu faz perfumes com cheiro humano ao capturar moléculas voláteis da roupa de uma pessoa em um solvente durante várias semanas e então destila a solução por meio de vidros tradicionais.

Imagine engarrafar o cheiro da pessoa amada, eternizando-a para sempre e permitindo que você mergulhe em uma lembrança querida daquela pessoa com uma única inalada. Ani Liu descobriu como fazer essa fantasia com jeito de ficção científica virar realidade.

Liu é uma artista que usa tecnologia e ciência para desenvolver experiências multissensoriais. O trabalho dela faz uso de ferramentas utilizadas em arquitetura, realidade aumentada e biologia sintética, criando arte que examina os efeitos sociais, culturais e emocionais dessas tecnologias emergentes.

Conversamos com a Liu, formada pelo MIT Media Lab, sobre como ela conseguiu engarrafar o cheiro de seus pais, o que significa enxergar através dos olhos de outra pessoa e por que devemos parar de nos enojar com germes.

O que te inspirou a começar a misturar arte com tecnologia?

Por pertencer à primeira geração sino-americana, sempre foi muito importante para os meus pais que eu aprendesse matemática, ciências e STEM. Comecei estudando arquitetura e aprendendo sobre todas as ferramentas que os arquitetos usam para projetar prédios, como o Rhino ou AutoCast [softwares usados em desenho assistido por computador e fundição de molde].

Me interessei muito pelo modo como as ferramentas que usamos influenciam o design, o que me fez pensar sobre todas as formas que a tecnologia usa para moldar o nosso comportamento. Lá foi um local expansivo e construtivo para que eu fizesse arte sobre como a tecnologia [nos] molda e como a ciência influencia a forma como construímos as crenças, principalmente as sociais.

Os autorretratos microbianos de Liu são cultivados em um ágar, uma substância de aspecto gelatinoso, moldado no formato de lábios.

Agora você trabalha em diversos projetos com essa intenção. Pode nos falar mais sobre um deles: o “Perfume Humano”?

Quando entrei no MIT Media LAB eu ia criar uma tecnologia que se pode vestir (wearable tech). Tive conversas interessantes com biólogos sintéticos e fiquei muito obcecada pela ideia de pós-humanismo e pelo que significa expandir o sistema cognitivo ou sensorial humano com o uso de ferramentas.

Mas, quando pensei sobre isso, editar os seus genes ou a sua biologia diretamente tem muito mais impacto. Comecei a aprender ciências biológicas e engenharia, e perguntei: “Posso usar essas ferramentas para fazer arte? Como posso usá-las para fazer algo que tenha apelo emocional?”.

E você se decidiu pelo cheiro?

Fisiologicamente, o cheiro está muito ligado à memória. Eu fiquei pensando: “não seria ótimo cultivar uma planta que tenha o cheiro da minha avó?”. Pois assim que eu sentisse o seu cheiro, seria completamente transportada para aqueles momentos da infância. Então, eu trabalhei nessa ideia por um tempo, e foi realmente desafiador, mas parte daquela pesquisa me levou a desenvolver um protocolo para fazer perfumes a partir do cheiro de qualquer pessoa.

Como você conseguiu fazer aquilo?

Parte daquele processo consiste em extrair as moléculas voláteis das roupas usadas [pelas cobaias] e prepará-las em um solvente. Houve muita experimentação. Eu tive que experimentar vários solventes, concentrações e ajustes diferentes no processo de destilação.

Foi bem interessante a precisão disso. Por exemplo, uma das pessoas que usei em muitos dos experimentos foi o meu marido. Eu fiz esses perfumes dele até que senti que tinha o mesmo cheiro dele, mas, quando eu o deixava sentir, ele dizia “isso aqui não tem nada do meu cheiro; tem o cheiro do meu irmão e é nojento!”. Eu acho que, quando se vive no próprio corpo, certas coisas tornam-se invisíveis. Foi interessante ver como esses cheiros são sentidos quando separados do seu corpo.

E é meio que assombroso abrir uma garrafa e sentir o cheiro de uma pessoa.

Liu prepara um autorretrato microbiano ao capturar bactérias da sua axila com um cotonete estéril, esterilizando-o com água deionizada, e esfregando-o sobre a superfície da placa de petri moldada. A cultura é então incubada em temperatura ambiente durante várias semanas.

Quem você engarrafou até agora?

Eu fiz seis pessoas: meu marido, eu mesma, os meus pais, um colega de laboratório e o químico que estava me ajudando. Usar os meus pais teve um apelo emocional muito forte. Eu sei que, em algum momento, eles partirão, então foi como criar uma cápsula do tempo deles antes que partissem.

O seu trabalho multissensorial não está limitado ao cheiro. Você também fez experimentos com a visão através da sua “Máquina da Empatia”.

Eu criei [a máquina da empatia] na época em que o Google Glass e o Oculus Rift foram lançados. Eu pensei: “E se você pudesse ver por meio dos olhos de outra pessoa?”. Eu estava mexendo com alguns fones com vídeo e me dei conta de que poderia fazer aquilo. Então eu construí esses óculos.

Como a tecnologia funciona?

Eu utilizei óculos de vídeo que são basicamente como um par de óculos de proteção. Cada um tem uma tela minúscula e usa câmeras e transmissores minúsculos ou drones. Eu hackeei eles e cruzei os sinais de frequência de rádio para que puderam transmitir um para o outro.

Como é a sensação de usá-los?

Assim que você os experimenta, meio que perde a sua visão e fica o tempo todo esbarrando nas coisas. Fica completamente desincorporado. É como aprender a andar outra vez.

Depois de um tempo, fica ciberneticamente conectado [com a outra pessoa usando os óculos]. Eu trombei em uma lixeira e a outra pessoa usando a minha visão se virou em direção ao som, então eu me vi trombando na lixeira. Foi interessante ver como nos transformamos nesses animais interligados, quando ficamos realmente codependentes.

Você também trabalhou com micróbios e germes. Conte mais sobre o seu projeto “Beijos do Futuro”.

Os micróbios são esses microrganismos que não são você. São uma espécie totalmente diferente. Eles vivem na superfície e no interior do seu corpo, mas podem influenciar diversas coisas, como o seu humor, o seu comportamento e o seu peso.

Comecei a pensar como fazer um autorretrato neste dia e nesta época, expressar todas essas interespécies coevoluindo, uma dissolução de si que é um ser. Fiz moldes do meu corpo, [preparei] eles com os mesmos géis e nutrientes que as pessoas usam nos laboratórios para cultivar micróbios, e então mostrei eles como partes de mim.

Determinadas partes do corpo funcionam melhor que outras?

Já fiz moldes de várias coisas: mas, na maioria das vezes, da minha boca. Passamos muitos dos nossos micróbios dessa forma. Eu também fiz moldes do meu nariz, do meu umbigo e de partes dos meus pés. No final, descobri que a maioria deles cresce melhor em moldes da minha boca.

As pessoas costumam se encolher quando pensam em germes e micróbios, mas isso não parece te impedir. No seu trabalho você também usa cabelo, saliva e sêmen  - fluídos corporais muitas vezes são vistos como “nojentos”. O que você espera que a sua arte diga sobre essas percepções?

Quando foi descoberto que os germes geravam doenças, tudo era antisséptico. Temos tudo antibacteriano - de sabonetes a sprays e géis. Mas, à medida que aprendemos mais sobre micróbios, temos agora kombucha e cremes faciais probióticos na moda.

Acho que quando, expandimos e desconstruímos essas noções de nojo, somos capazes de nos relacionar e criar mais empatia com as pessoas de todo o mundo. Somos todos humanos infestados de micróbios nesta Terra [e deveríamos focar] no que temos em comum e não nas diferenças.

Qual o valor que você acredita que existe em misturar a arte com a ciência e a tecnologia?

É importante porque precisamos de pontos de vista mais amplos. Imagine como seria problemático se as únicas pessoas que investigassem a realidade fossem de um gênero ou tivessem um histórico cultural específico?

Ter vários pontos de vista para expressar as mesmas verdades nos dá a oportunidade de ter uma conversa mais rica e significativa. Sim, existe uma realidade, mas ela é muito fluida e importa muito como as histórias são contadas.

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