Viagem e Aventura

Alpinistas batem recorde de velocidade na montanha El Capitan

Alex Honnold e Tommy Caldwell atingiram o topo do paredão no parque Yosemite em menos de duas horas – algo nunca antes realizado.Monday, June 11, 2018

Por Jayme Moye
Os escaladores Alex Honnold e Tommy Caldwell posam na frente do El Capitan, no Parque Yosemite, após bater o recorde na rota The Nose.

Em 6 de junho de 2018, no Parque Nacional de Yosemite, na Califórnia, Alex Honnold e Tommy Caldwell atingiram o que parecia impossível – escalar os 910 metros da El Capitan pela rota The Nose, em 1 hora 58 minutos e 7 segundos. “É como bater o recorde de uma maratona de duas horas, mas na vertical”, diz Hans Florine, que bateu o recorde em 2002, junto de seu parceiro Yuji Hirayama, em menos de três horas.

A rota The Nose é a maior via de escalada em um paredão no mundo. Ela percorre toda a formação de granito conhecida como El Capitan e é a face mais conhecida do monolito.  Todos os anos, na primavera, atrai escaladores do mundo todo, buscando testar seus limites. A maioria leva de três a cinco dias para completar a rota, “acampados” na rocha, usando portaledges (um misto entre uma barraca e uma maca) que ficam pendurados e ancorados no paredão. Para os escaladores de elite, o tempo de escalada é o NIAD (Nose em um dia), ou seja, escalar a rota toda sem precisar pernoitar nela. Para Honnold e Caldwell, foi um exercício de uma manhã. “Não achei que estávamos tão rápido”, Honnold diz, “mas quando estávamos chegando ao topo e vi que estávamos em 01:57h foi incrível!”

Uma corrida de décadas

O recorde de subida na The Nose pode ser traçado desde 1975, quando um time de três escaladores – Jim Bridwell, John Long e Billy Westbay – a escalaram em menos de 24 horas. Antes disso, a empreitada sempre foi feita em mais de um dia, mesmo pelos mais experientes. Apesar de eles não terem calculado o tempo precisamente, John Long acredita que levaram 15 horas para subir. Foi o primeiro registro no livro não oficial de recordes da The Nose. “Alpinistas mais hardcore, como Royal Robbins, vem tentando reduzir o tempo de escalada de dias para horas no Yosemite desde os anos 60,” diz Long. “Nos anos 70, todos os outros paredões já haviam sido escalados em um dia. The Nose era a última. É a maior, a mais notável, a mais intimidante.”

A escalada de velocidade na The Nose não chamou a atenção do público até os anos 2000, quando um dos escaladores mais influentes, Dean Potter, mostrou interesse na prática. Naquela época, o recorde era o mesmo há 9 anos, de Florine e Peter Croft em 04:22hs. Em outubro de 2001, Potter e seu parceiro Timmy O’Neill bateram o recorde e subiram em 03:59:35. Duas semanas depois, Florine e Jim Herson decidiram reconquistar o recorde, e subiram em 03:57:27. Potter e O’Neill retribuíram e subiram de novo três dias depois, em 03:24:20. “Foi um momento decisivo”, diz Florine. “Pela primeira vez, havia plateia para assistir à escalada. Dava para ouvir a torcida a 600 metros de altura. Foi muito legal”.

Tommy Caldwell lidera a dupla em sua subida recorde na rota The Nose no El Capitan.

Em 2002, Florine e o japonês Yuji Hirayama, um dos maiores escaladores livres da época, decidiram subir a The Nose em menos de três horas, o que ficou conhecido como A Corrida na The Nose. Durante a década seguinte, alguns dos melhores escaladores do mundo, incluindo Potter, Sean Leary, e os irmãos alemães Alexander e Thomas Huber, tentaram e bateram o recorde de Florine.  Vários cinegrafistas, incluindo os criadores do festival de cinema REEL Rock Tour, Peter Mortimer e Josh Lowell, documentaram todo o drama para o cinema.

Em seu livro de 2016, On the Nose: A Lifelong Obsession with Yosemite’s Most Iconic Climb, Florine anunciou sua aposentadoria. Seu recorde com Alex Honnold era de 02:23:46 desde 2012. Em outubro de 2017, Brad Gobright e Jim Reynolds bateram o tempo em 02:19:44.

Preparação para o recorde

O novo recorde inspirou Honnold e Tommy Caldwell a tentarem de novo. “Desde 2012, quando bati o recorde com Hans, sempre achei que poderia fazer em menos de duas horas”, diz Honnold. “Quando Brad e Jim finalmente bateram o recorde, era hora de tentar de novo”.

Honnold e Caldwell começaram a tentar em maio de 2018. Foi a primeira vez de Caldwell na prática da escalada de velocidade, mas não era sua primeira vez no Yosemite. Em 2005, Caldwell e Beth Rodden foram a terceira e quarta pessoas a fazerem escalada livre na The Nose (escaladores livres usam cordas e outros equipamentos apenas para segurança em caso de queda, não para ajudar a subir a rota). Caldwell já escalou vários picos no Yosemite, mas ele é mais conhecido pelos 19 dias em que ficou pendurado na outra rota de El Capitan conhecida como Dawn Wall. Quando Caldwell e seu parceiro Kevin Jorgeson finalmente chegaram ao topo em 14 de janeiro de 2015, eles conquistaram a primeira escalada livre no que é considerada a rocha mais difícil de escalar no mundo.

Honnold e Caldwell escalam juntos há anos, e tem uma lista memorável de conquistas. Uma das mais épicas foi a subida em 2014 ao icônico Fitz Traverse, uma empreitada extenuante de cinco dias percorrendo o Cerro Fitz Roy na Patagônia. A escalada de menos de duas horas na The Nose veio após semanas de treinamento no Yosemite. Em maio e junho, eles subiram a The Nose dezenas de vezes, incluindo duas tentativas, uma em 30 de maio e outra em 4 de junho, com o tempo respectivamente de 02:10:15 e 02:01:50.

“A principal questão da escalada de velocidade é reduzir a ineficiência de todas as formas que puder,” diz Honnold. “Acho que o que faz de Tommy um parceiro tão bom, é que todas as vezes que escalamos a rota, discutíamos sobre tudo no topo e passávamos a maior parte da descida conversando e perguntando um ao outro o que fazer para melhorar. Estávamos sempre analisando nosso desempenho e como melhorá-lo.”

Imperfeito, mas suficiente

Quando a dupla partiu na manhã de 6 de junho para quebrar seu terceiro recorde, Hannold estava seguro de suas habilidades para fazer o tempo de duas horas. A única questão era se a escalada seria tranquila para o feito. Com cerca de 900 metros de rocha, tem espaço suficiente para alguma corda ficar presa e ser preciso voltar para solta-la (como aconteceu no segundo recorde da dupla), ou ter que ultrapassar um grupo de escaladores, perdendo preciosos minutos.  Além disso, Caldwell tinha acabado de voltar de um evento no Texas, e chegou ao Yosemite às 22hs da noite anterior.

Honnold não precisava se preocupar, apesar de haver momentos que poderiam ter atrapalhado os dois. Eles tiveram que ultrapassar quatro grupos de escaladores, incluindo um de japoneses no Great Roof, uma das partes mais difíceis da rota. Tommy derrubou um mosquetão, um equipamento importante, e ainda assim conseguiram diminuir o tempo em 3,5 minutos e conseguiram quebrar a barreira de duas horas. “Não foi perfeito,” diz Honnold, “mas é assim que as coisas são. Foi bom o suficiente.”

“Não foi perfeito, mas é assim que as coisas são. Foi bom o suficiente.”

por Alex Honnold
Alpinista

Quanto a reduzir ainda mais o tempo nas semanas restantes da temporada de escalada de Yosemite, Honnold diz que eles não estão interessados. “Acredito que os limites do potencial humano nessa rota sejam de 1 hora e meia,” ele diz. “Mas não acho que tenhamos interesse nisso agora, sabe?”.

Claro que isso pode mudar se algum competidor aparecer. Mas, nesse ponto, pode ser que não haja ninguém no planeta que possa bater a experiência da dupla Honnold-Caldwell. “Não ficaria surpreso se o recorde se manter por 10, 15 anos”, Honnold diz. “Vamos ver”.

Sombras cobrem o El Capitan, no Parque Nacional de Yosemite, na Califórnia.
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