Viagem e Aventura

Como o turismo ajuda os elefantes - e as pessoas - a encontrarem um lar

O Sarara Camp, do Quênia, é um modelo de ecoturismo voltado para a comunidade.Thursday, October 4, 2018

Por Michaela Trimble
Uma manada de elefantes atravessa o rio Sarara, no Namunyak Wildlife Conservancy, no Quênia. Fundado em 1995, o Namunyak é um santuário para os elefantes financiado pelo ecoturismo.

No coração norte do Quênia, os picos pontiagudos da Cordilheira Mathews cercam as seis tendas de lona do Sarara Camp. Na contramão dos safáris tradicionais, uma estadia aqui - dentro de uma densa floresta repleta de acácias e juníperos, rodeada por elefantes, girafas e dik-diks – busca não só dar acesso à vida selvagem e à natureza, mas também à cultura nativa dos Samburu.

Os Samburu são um grupo de pastores semi-nômades relacionados aos Maasai, que prosperaram no sopé do deserto do Monte Quênia durante séculos. Embora seu território tenha se estendido ao norte do lago Turkana até a Etiópia, a guerra tribal em meados do século 19 trouxe caos aos Samburu e as suas terras atuais - uma área que inclui o Sarara Camp, é um destino que ganhou reconhecimento por seu modelo de conservação comunitário.

Situado em uma área de 850 mil hectares da Namunyak Wildlife Conservancy, o Sarara Camp foi fundado por Piers e Hilary Bastard, em 1997. Desde então, deixou de seguir um modelo móvel para passar a ser um refúgio ecológico de luxo de propriedade exclusiva administrado pelas 1,2 mil famílias da comunidade Samburu. Trabalhando em parceria com o filho dos Bastards, Jeremy e sua esposa, Katie Rowe - com o apoio de organizações como a Conservation International - os Samburu continuam a proteger um dos trechos mais vitais do intocado deserto africano.

Passado doloroso

A partir da década de 1970, caçadores furtivos atrás de marfim mataram quase todos os elefantes da Cordilheira de Mathews. E embora a área tenha sido uma das últimas fortalezas dos rinocerontes negros do Quênia, a espécie foi caçada até a extinção na década de 1990, quando caçadores lucravam com seus chifres de queratina. Outras espécies também diminuíram, de girafas reticuladas às zebras de Grevy.

O Sarara Camp, um National Geographic Unique Lodge, tem vista para o Namunyak Wildlife Conservancy.

Namunyak foi criada como uma resposta a esta crise de caça furtiva, com o objetivo de proteger a vida selvagem através da conservação conduzida pela comunidade. Enquanto as rigorosas medidas contra a caça furtiva do Quênia ganhavam força, o Sarara Camp oferecia os benefícios econômicos do turismo para a comunidade de Samburu em troca de seu papel na proteção da vida selvagem. A parceria viu mais de 4.000 elefantes retornarem à área.

Além da varanda com teto de palha de Sarara, os visitantes podem nadar em uma piscina natural situada a 6 metros acima de um bebedouro, onde dezenas de elefantes bebem languidamente, uma visão quase inimaginável durante o auge da caça furtiva. Até mesmo uma manada de zebras de Grevy - três das quais Rowe encontrou abandonadas, tendo que amamenta-las com mamadeira nos primeiros meses de vida - para dar um gole ocasional.

Essas manadas de elefantes estão prosperando graças ao Santuário de Elefantes Reteti, o primeiro orfanato de elefantes de propriedade da comunidade na África. Lançado pela tribo Samburu a menos de uma hora de carro de Sarara, Reteti é outro desdobramento de um movimento de conservação comunitário amplamente reconhecido e em expansão no norte do Quênia, que começou a se consolidar no final dos anos 90 e início de 2000 com dezenas de organizações.

A parceria da Retiti com a Sarara, financiada por doadores individuais e com contribuições de conservacionistas, defende que a comunidade de Samburu se beneficie do manejo da vida selvagem, mantendo as tradições culturais.

Situada entre a segunda maior população de elefantes do Quênia, a comunidade de Samburu abriga filhotes de elefantes órfãos e abandonados, cuida deles e, eventualmente, os soltam nas manadas selvagens adjacentes ao santuário. E embora a caça ilegal de elefantes na África continue em um ritmo alarmante, o santuário resgatou mais de 30 filhotes no norte do Quênia (de uma população de cerca de 8,7 mil) graças a uma equipe de nutricionistas da vida selvagem, com orientação veterinária fornecida pelo Zoológico de San Diego. Treze elefantes e um rinoceronte negro estão atualmente sob os cuidados da Retiti.

“Muitos dos 45 funcionários do santuário são ex-pastores Samburu”, diz Rowe. “É incrível vê-los cuidando dos elefantes e fazendo coisas que só eles saberiam fazer, como jogar um galho em uma árvore de acácia para liberar as vagens que alimentam os elefantes”.

Um guerreiro Samburu observa uma piscina no Sarara Camp, que é inteiramente de propriedade e administrada pelo povo Samburu.

Seus esforços estão valendo a pena: milhares de elefantes retornaram à Cordilheira de Mathews e outras espécies, como leopardos, búfalos e cães selvagens, estão começando a seguir o exemplo. Mas o impacto do santuário - e do acampamento - inclui pessoas e animais selvagens.

O poder das pessoas

A parceria da tribo Samburu com Sarara Camp e Reteti destaca a necessidade de conservação da comunidade em um momento em que países vizinhos da África Oriental estão fazendo o oposto.

Segundo o instituto de pesquisa independente Oakland Institute, quase 40 mil maasai foram forçados a partir de suas terras ancestrais no norte da Tanzânia no início deste ano em favor de um plano de desenvolvimento para um parque de caça privado financiado por uma empresa de safáris dos Emirados Árabes Unidos. E a Organização das Nações e Povos Não Representados (UNPO) relata problemas similares em Uganda, Ruanda, Burundi e República Democrática do Congo: O povo Batwa, que foi expulso do Parque Nacional Bwindi e Parque Nacional Volcanoes para proteger os gorilas da montanha com os quais eles compartilhavam as florestas de forma sustentável, alegadamente não recebem nenhum benefício econômico do turismo para suas antigas casas.

Reteti e Sarara são diferentes. Procurando misturar o ecoturismo com o enriquecimento da comunidade e a conservação da vida selvagem, essas organizações entregam as rédeas ao povo Samburu para serem os administradores de suas terras, controlando seu próprio futuro.

“Reteti criou uma grande mudança para as mulheres daqui”, diz Dorothy Lowuekuduk, a primeira supervisora feminina do santuário, que começou sua carreira no santuário em 2016. Seus primeiros deveres incluíram a busca de elefantes órfãos rastreando seu esterco na paisagem do deserto. Lutando bravamente contra a resistência, Lowuekuduk quebrou a tradição ao assumir sua nova função, uma posição que muitos na comunidade acreditavam ser adequada apenas a homens. “Eu fui a terceira mulher contratada na Reteti, e estou mudando minha comunidade por causa disso. Agora há seis mulheres aqui, e nossos pais e avós podem ver o quanto somos fortes e tudo o que somos capazes de realizar”.

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E enquanto os animais continuam sendo o pilar central dos safáris de Sarara Camp, o retiro também apregoa suas experiências íntimas com membros da comunidade Samburu. Seja optando por criar peças únicas de joalheria com mulheres Samburu, ou fazendo uma caminhada pelos poços cantantes (poços de água), onde os guerreiros samburu cantam canções tradicionais enquanto reúnem seu gado para beber, os viajantes têm a chance de aprender com pessoas como Robert Lemaiyan, um guerreiro Samburu que administra o mais novo empreendimento do Sarara Camp, o Sarara Treehouses. (Retiros arborícolas financiados por doações dos participantes da expedição Summit Sarara do ano passado.)

Lemaiyan cresceu ao lado de Jeremy Bastard e tem sido parte integrante de Sarara desde a criação do acampamento. Um dos principais defensores do modelo de conservação da comunidade da região, Lemaiyan testemunhou mudanças nas atitudes do Samburu em relação à vida selvagem nas últimas duas décadas, já que a comunidade agora serve como protetores de elefantes, rinocerontes e girafas. Animais que eles viam como uma ameaça à sua subsistência agora os ajudam através do ecoturismo.

“Este projeto significa muito para nós como comunidade”, diz Lemaiyan. “Além de nos dar empregos em nossa própria terra, está protegendo essa área para as próximas gerações. Estamos muito orgulhosos.

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