Do olho grego ao sagrado coração: amuletos da sorte em todo o mundo

Talismãs de boa sorte — gatos japoneses que acenam, escaravelhos egípcios — servem como lembranças de viagem e símbolos significativos de esperança em tempos difíceis.

Publicado 1 de jan de 2021 09:00 BRST
Nos arredores da Capadócia, na Turquia, talismãs azuis de vidro contra o mau-olhado enfeitam uma árvore. ...

Nos arredores da Capadócia, na Turquia, talismãs azuis de vidro contra o mau-olhado enfeitam uma árvore. Esses adornos para afastar a má sorte são exibidos (e vendidos) em todo o país.

Foto de Paul Strawson, Alamy Stock Photo

Trevos de quatro folhas na Irlanda. Cavalos de Dalarna pintados na Suécia. Sapos dourados chineses, escaravelhos egípcios. Esses talismãs ou amuletos podem ser segurados na palma da mão, usados em volta do pescoço ou colocados próximo da porta da frente para atingirmos mais rápido um futuro melhor, espantar maus espíritos ou energias negativas.

É óbvio que não há nenhuma prova de que esses artigos, que os turistas geralmente compram como suvenires, realmente funcionam. Mas esses símbolos culturais nos educam e nos encantam.

Alguns objetos totêmicos se originam da fé (Budas no sudeste da Ásia), e outros da tradição (enfeites hexagonais coloridos e geométricos pendurados em celeiros amish nos EUA). Mas todos parecem singulares em relação a seus locais de origem e universais à natureza humana. “O fato de eles surgirem em todas as culturas ao longo do tempo mostra quanta sorte e superstição estão incorporadas em nosso DNA”, diz Richard Wiseman, professor de psicologia da Universidade de Hertfordshire e autor do livro O Fator Sorte.

Sinais de conforto

Em momentos de dificuldades ou dúvidas, muitos de nós recorrem a um amuleto da sorte. “As pessoas ficam supersticiosas quando precisam enfrentar incertezas em seu desempenho, como é o caso de atletas e atores”, explica Wiseman. “Estamos vivendo tempos muito incertos”, acrescenta. Quando a situação se complica, as pessoas costumam buscar qualquer coisa que indique que dias melhores virão. Os pés de coelho eram populares durante a Depressão; os pilotos de caça da Segunda Guerra Mundial voavam com dados de pelúcia.

Na zona rural do Peru, os toritos de pucará de argila representam o equilíbrio entre o bem e o mal no universo. Geralmente são afixados nos telhados das casas para proteger a vida de toda a família.

Foto de Pawlopicasso, Alamy Stock Photo

Ao dar uma olhada nas notícias globais, encontraremos essas pontas de esperança de uso indispensável durante a crise do coronavírus. Em partes da Indonésia, as pessoas estão confeccionando tetek melek, máscaras caseiras tradicionais feitas com folhas de coqueiro que são penduradas acima das portas para afastar o perigo. O presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador chegou a exibir vários de seus próprios amuletos durante uma coletiva de imprensa sobre a pandemia.

Por todo o México e a América Central, há muito tempo as pessoas buscam consolo em milagros (milagres). Os minúsculos artefatos de metal aparecem nas igrejas e nas lojas de suvenires, geralmente representando partes do corpo ou indivíduos que precisam de cura ou intervenção divina. Seus significados podem ser literais ou figurados: um milagro de um braço pode ser usado para prevenir a degeneração dos tendões chamada cotovelo de tenista ou para dar força a esse membro; uma representação de cachorro pode manter seu perro (cão em espanhol) saudável.

Os pequenos objetos brilhantes costumam ser colados em um sagrado coração (corazón) pequeno de madeira ou metal. Os corazones são símbolos difundidos da fé católica e do romantismo e dizem que eles também protegem seus usuários de desilusões amorosas e doenças cardíacas. Na região central do México, em San Miguel de Allende, o corazón é um símbolo da cidade colonial e um suvenir onipresente que pode ser pendurado na parede e é vendido coberto de milagros, com decupagem do rosto de Frida Kahlo ou estampado em estanho.

Uma mãozinha contra o mau-olhado

Os humanos fazem uso de objetos apotropaicos, ou seja, símbolos que afastam os maus espíritos, há milhares de anos. Entre os mais antigos estão os olhos gregos, que são círculos azuis e brancos à venda em todos bazares e souks nas regiões mediterrânea e árabe. Servem para espantar o olho gordo, também conhecido como mau-olhado, um conceito que remonta cerca de cinco mil anos aos sumérios do vale do Eufrates.

Na Turquia e em outras partes do mundo islâmico, esses olhos que ficam sempre abertos estão por toda parte, inclusive em tigelas, pulseiras e até mesmo capachos. Décadas atrás, em Istambul, lembro-me de ter comprado um pingente de porcelana em forma de olho grego (nazar boncuğu). Na época, eu achava que era um belo adereço e não me dava conta de todo o seu significado. Mas quem sabe minha viagem tenha sido mais segura por causa disso?

Outro antigo amuleto da Rota da Seda: o hamsá, que tem forma de mão e está por todos os lados nos mercados de Marrocos a Israel. A graciosa palma da mão — que os judeus chamam de mão de Miriam e os muçulmanos conhecem como mão de Fátima — é feita em latão, estanho, esmalte e outros materiais. A peça está presente em colares, tapeçarias, portas, canecas de café e serve como amuleto de proteção.

“Muitas dessas tradições e crenças são mais universais do que apenas marroquinas, muçulmanas ou árabes. Elas seguem os caminhos dos comerciantes — portanto, as pessoas estavam compartilhando cultura”, diz Maryam Montague, colecionadora e empresária irano-americana em Marrakech, no Marrocos. Falando pelo Zoom direto do Peacock Pavilions, o hotel que ela gerencia, me mostra uma variedade de amuletos do Mali, Marrocos, Afeganistão e outros lugares. Alguns são incorporados à decoração boho de sua propriedade, outros são pessoais.

Os talismãs também podem ser abstraídos ou desconstruídos em formas menos reconhecíveis — olhos gregos representados por padrões triangulares em um tapete ou espelhos arredondados em uma tapeçaria. Ou, diz Montague, pode-se ver um hamsá não como uma mão, mas como um grupo que representa os cinco dedos: cinco pontos em uma travessa vitrificada, cinco conchas cravadas em um amuleto de couro. Montague me ajudou a perceber que uma echarpe que comprei no Afeganistão anos atrás, repleta de lantejoulas, poderia ter mais significado do que eu imaginava.

Segundo Montague, se mergulharmos na arte folclórica e nos artefatos de um país, encontraremos “camadas e mais camadas de magia” ao nosso redor.

 

Um omamori, bolsa de seda que contém orações, pendurado perto de um templo em Nagono, Japão.

Foto de Picture Partners, Alamy Stock Photo

 

Criaturas da sorte

As pessoas acreditam em criaturas providenciais em todo o mundo — elefantes da sorte na Tailândia (exportáveis como amuletos, colares ou camisetas) e o protetor  torito de pucará (touros de cerâmica) que enfeita muitos telhados nas áreas rurais do Peru e da Bolívia.

Algum dia, se eu tiver a sorte de visitar o Japão, talvez um daqueles gatinhos que acenam, o maneki-neko, me cumprimente na entrada de um restaurante ou loja. Eles servem para atrair clientes e trazer riqueza e sorte. Para mim, as figuras parecem estar dando tchau, mas na cultura japonesa, é um movimento de aceno. São fáceis de ser encontrados como suvenires, mas os verdadeiros amantes de gatos podem mergulhar de cabeça no universo maneki-neko, com biscoitos, xícaras, sinos dos ventos e chaveiros na forma do felino. Em vez disso, comprarei algumas omamori, bolsinhas de seda de brocado com orações dentro, vendidas nos santuários xintoístas e nos templos budistas do Japão.

Atos de fé

Em muitos países, acredita-se que ações ritualísticas tenham impacto na sorte. Na Inglaterra, algumas pessoas dizem a palavra “coelho” ao acordar na primeira manhã de cada mês. Os sérvios  derramam água atrás de alguém que está indo viajar ou indo a uma entrevista de emprego. Na véspera de Ano Novo, os espanhóis usam roupas íntimas vermelhas e comem uma dúzia de uvas, uma para cada badalada do sino à meia-noite, supostamente para ter 12 meses de boa sorte. Alguns amigos meus da Espanha me deram algumas dicas para engolir as uvas rapidamente: já deixá-las descascadas e retirar as sementes um pouco antes da hora de comer.

Morei anos na Rússia e acabei adquirindo alguns costumes de proteção desse país. Às vezes bato na madeira ou finjo cuspir por cima do ombro.

Qualquer que seja a ação ou amuleto que uma cultura tenha para atrair o bem e afastar o mal, seu poder parece estar na mente de quem crê. “Em uma série de experimentos, os pesquisadores pediram para as pessoas resolverem anagramas, realizarem tacadas de golfe etc., com e sem seus amuletos preferidos”, diz Wiseman. “As pessoas tiveram melhores resultados quando estavam com o amuleto. A ideia é que os amuletos reduzem a ansiedade, que por sua vez, ajuda a melhorar o desempenho.”

E Wiseman tem algum talismã da sorte? Sua resposta parece um pouco supersticiosa: “Infelizmente não tenho”, diz ele. “A desvantagem de se ter um amuleto da sorte é a possibilidade de sentir ansiedade se o objeto for perdido.”

Mas um talismã também pode ser um lembrete tangível de uma cultura visitada, de uma viagem desejada antes, durante e muito depois de acontecer.

No Marrocos, pouco antes do surgimento do coronavírus, Montague foi à cidade litorânea de Essaouira, onde ela comprou um anel berbere antigo para seu filho universitário. Era feito de uma moeda de prata envolta por duas minúsculas mãos de metal. Embora fosse mais interessante do que atraente — esculpido, pesado, cortado e bastante desgastado — o vendedor insistiu que traria boa sorte.

“Acho que o problema é que compramos coisas apenas por sua beleza, e não por seu propósito ou significado”, diz ela. Seu filho, aliás, está usando o anel e saindo-se bem. “Ele só tirou nota 10 nas provas!”

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