Parisienses querem recuperar rio lendário soterrado sob concreto

O rio Bièvre fluía pela Paris de Victor Hugo. Esforços de preservação podem trazer de volta esse rio histórico.

Por Mary Winston Nicklin
Published 6 de fev de 2021 09:30 BRST
Próximo de Paris, no Vale do Marne, o Bièvre ainda corre a céu aberto pela paisagem ...

Próximo de Paris, no Vale do Marne, o Bièvre ainda corre a céu aberto pela paisagem suburbana.

Foto de MICHAEL LUMBROSO, REA/REDUX, REDUX

UM RIO COSTUMAVA passar pelo meu bairro da Margem Esquerda de Paris. Desde o limite sul da cidade onde agora está localizado o Parc Kellermann no 13o arrondissement, o Bièvre abastecia fábricas e curtumes antes de sua confluência com o rio Sena no 5o arrondissement. Mas, no início do século 20, o Bièvre havia se tornado tão fétido e poluído que foi soterrado e sua água desviada para os esgotos.

Embora o Sena desperte sonhos e romance, o Bièvre — único afluente do Sena que passa por Paris — é amplamente desconhecido pelos milhões de turistas que chegam à capital francesa todos os anos. Mas muitos parisienses apaixonados nutrem um sonho antigo de ressuscitar um rio que, para eles, é considerado mítico.

Agora, esse sonho está perto de se tornar realidade. Nos últimos anos, leitos do rio foram reabertos nos subúrbios rio acima, e o gabinete do prefeito de Paris promoveu recentemente um estudo de viabilidade para examinar trechos do rio que podem ser reabertos em Paris. Da mesma forma que os projetos internacionais de restauração de rios em Madrid e Seul, o renascimento do Bièvre reflete uma mudança sustentável no planejamento da cidade e no estilo de vida urbano que prepara a cidade para os Jogos Olímpicos de 2024.

“Existe um novo impulso para este projeto à medida que enfrentamos a crise climática, com o aumento das ondas de calor e a ameaça à biodiversidade”, explica Dan Lert, vice-prefeito que supervisiona a transição ecológica de Paris, o plano climático, a água e a energia. “Não podemos manter o desenvolvimento urbano da maneira como costumávamos... os residentes esperam que adaptemos nossa cidade para enfrentar os desafios ambientais.”

Esta foto, tirada por volta de 1898 pelo famoso fotógrafo Eugène Atget, mostra o Bièvre fluindo pelo 13o arrondissement, onde hoje fica localizada a Rue Edmond Gondinet.

Foto de EUGÈNE ATGET

Mudança de cartografia

A nascente do Bièvre fica localizada em Guyancourt, cerca de 35 quilômetros a sudoeste de Paris. A partir desse riacho repleto de pedras, ele corre por quatro afluentes, desaguando em lagoas cercadas por florestas que alimentam as fontes do Palácio de Versalhes. Por todo o seu curso, o rio hidrata e resfria uma série de cidades suburbanas, antes de desaguar no Sena por um tubo de esgoto discreto perto da Gare d’Austerlitz.

Cerca de 19 quilômetros dessa rota são a céu aberto; os últimos trechos ao ar livre em Paris foram cobertos completamente em 1912, enquanto subúrbios como Gentilly pavimentaram o rio na década de 1950. Um rastro de medalhões na calçada indica o antigo curso do rio em Paris, embora outros vestígios sejam menos óbvios: a curva de uma rua seguindo o leito do rio, nomes de ruas que lembram moinhos demolidos (como o Moulin des Prés), alçapões secretos em porões com acesso ao rio e — da sala de projeção do cinema L'Escurial —  uma vista secreta dos curtumes inalterada desde o desaparecimento do Bièvre.

Conforme explicado no livro Sur les Traces de la Bièvre Parisienne o surgimento do rio remonta a milhares de anos. No período Neolítico (5000 a.C.), o Bièvre fluía no que é hoje o leito do rio Sena em Paris, enquanto o Sena curvava-se sob as colinas de Belleville e Montmartre. Inundações permitiram que o Sena conduzisse o curso do Bièvre — assim como o Sena roubou o lugar do Bièvre no imaginário global.

Posteriormente, o curso do rio foi alterado pelos humanos. Os primeiros monges o canalizaram para irrigação agrícola, seguidos por moleiros medievais, curtidores que construíam tanques para embeber peles de animais e cortadores de gelo que obtinham o suprimento de gelo da cidade nos lagos de Glacière.

A competição pelo acesso à água nessa terra de trabalhadores logo levou a conflitos entre grupos comerciais: tintureiros contra lavadeiras, curtidores contra açougueiros. Em 1376, o Parlamento ordenou que açougueiros despejassem tripas de animais no Bièvre, em vez de poluir o Sena. Porém, decretos governamentais posteriores não conseguiram frear o derramamento de lixo no Bièvre, transformando o rio em uma fossa repugnante repleta de doenças.

Água especial

Ao longo dos anos, fiz um levantamento da tradição do Bièvre — algumas lendas tão turvas quanto as correntes do rio. Existe o conto da ninfa Gentilia, que fora transformada no rio pela deusa Diana para escapar de um soldado troiano durante uma perseguição. Também existe o conto de um dragão que supostamente aterrorizou a terra antes do bispo Marcel bani-lo para o Bièvre no século 4.

Diz-se que uma criatura diferente viveu na île aux Singes; dois braços do rio abrigavam a “Ilha dos Macacos”. Aqui, continua a história, os trabalhadores brincavam em devassidão enquanto os malabaristas deixavam seus macacos vagarem livremente. Ou a palavra “macaco” indicaria uma gíria pejorativa para “chefe”?

Até mesmo as origens do nome do rio são turvas. Alguns historiadores argumentam que “Bièvre” é derivado da palavra celta “beber”, que significa castor. No entanto, nunca houve qualquer evidência científica de castores habitando a região (inspiração do 13o arrondissement para representar o animal em seu brasão). O nome também poderia ter derivado da palavra celta para lama ou do latim “bibere” (beber). Outros argumentam que Bièvre deriva de “bief”, palavra que descreve os canais construídos pelos humanos para transportar água para as rodas de moinhos.

Seja qual for a verdade, o fato é que esse pequeno rio tinha uma grande reputação, inspirando artistas e autores ao longo dos séculos. O indecente poeta renascentista Rabelais escreveu em Gargântua sobre banquetes de rãs e lagostins pescados no Bièvre. Henri Rousseau pintou uma obra bucólica intitulada “The Banks of the Bièvre near Bicêtre” (As Margens do Bièvre próximo de Bicêtre, em tradução livre). Em Os Miseráveis, Victor Hugo descreveu a ponte próxima ao Moulin de Croulebarbe, onde Marius sonhava com Cosette. Ele também escreveu um poema sobre o Vale do Bièvre, descrevendo a “paisagem encantadora” esculpida por um “rio semelhante ao mohair e à seda”.

Com apenas três metros de largura, o Bièvre se tornou a grande força motriz da indústria parisiense. Sua maior reivindicação à fama foi a Manufatura dos Gobelins, que começou como uma tinturaria ribeirinha no século 15. De acordo com a lenda, havia algo especial na água do Bièvre que ajudou a criar a cor vermelha viva que estabeleceu a reputação global dos tintureiros. (Rabelais brincou que esse toque especial era urina de cachorro). Mais tarde, obtendo patrocínio real, a Manufatura dos Gobelins forneceu tapeçarias elegantes para os monarcas franceses.

Foto tirada por volta de 1865 mostra o Bièvre e os curtumes ao longo dele, no final da Rue des Gobelins no 13o arrondissement de Paris.

Foto de CHARLES MARVILLE, ALAMY STOCK PHOTO

Poder do povo

Desde o desaparecimento do Bièvre em Paris, o fascínio atingiu o auge. “É um rio pequeno, com vazão fraca, mas que historicamente atraiu grande interesse”, explica Alain Cadiou, especialista hídrica e chefe da Union Renaissance de la Bièvre, um coletivo de 35 organizações sem fins lucrativos. Cada uma dessas organizações tem um foco diferente — desde a promoção do patrimônio cultural do rio até a proteção do meio ambiente. (Um exemplo: mais de duas mil pessoas participam da Marche de la Bièvre, uma caminhada anual que acontece em Paris no segundo trimestre, a partir da meia-noite, e segue o curso do rio).

Após um extenso estudo em 2001, o prefeito de Paris da época, Bertrand Delanoë, decidiu que era muito caro recuperar o antigo rio. Mas desde então, ao longo das décadas, organizações sem fins lucrativos em conjunto com coalizões governamentais na bacia hidrográfica do Bièvre continuaram a fazer campanha. Os projetos de recuperação resultantes desses projetos nos subúrbios foram bem-sucedidos. “Precisamos dar crédito a esses importantes grupos”, afirma Lert. “São esses amantes do Bièvre que encorajaram o diálogo sobre o renascimento do rio e impulsionaram atitudes.”

“O trabalho para reduzir a poluição do Bièvre levou um bom tempo, mas agora a qualidade da água melhorou muito”, explica Marie Bontemps, gerente do Contrato Bièvre do Syndicat Mixte du Bassin Versant de la Bièvre (Sindicato da Bacia Hidrográfica do Bièvre).

O subúrbio de Fresnes inaugurou um parque em 2003 — hoje uma área florestal exuberante dividida pelo Bièvre e rica em vida selvagem. Em 2016, l'Haÿ-les-Roses fez o mesmo, reabrindo um trecho de 650 metros do rio com uma trilha para caminhada ao longo das novas margens ajardinadas. No segundo semestre de 2021, as cidades de Arcueil e Gentilly — subúrbios ao sul mais próximos de Paris — exibirão um projeto de reabertura conjunta no Parc du Coteau-de-Bièvre, restaurando o rio em seu leito natural.

“O Bièvre retornará às portas de entrada de Paris e mais uma vez encontrará sua confluência com o Sena”, explica Lert. “Geralmente o rio era desviado para coletores de tratamento de esgoto antes de chegar à cidade. Portanto, em 2021, voltará a ser um verdadeiro rio... e também há a [perspectiva] das Olimpíadas de 2024. Estamos fazendo de tudo para garantir a qualidade da água do Sena para receber competições de natação no rio.”

Canalizando o futuro

Com 2,2 milhões de habitantes, Paris é a cidade mais populosa da Europa e enfrenta desafios técnicos significativos para a reabertura do rio. No século 19, Paris passou por uma mudança sísmica no planejamento urbano quando o Barão Haussmann extinguiu bairros medievais para abrir caminho para grandes avenidas. Ele convocou Eugène Belgrand para criar o sistema de esgoto moderno que está em uso até hoje.

Juntos, eles acreditavam que a única solução para a poluição do Bièvre era soterrá-lo. Em 1858, Haussmann declarou: “o riacho sujo que é o Bièvre não mais despejará suas águas lamacentas no Sena”. Na parte sul de Paris, este gasoduto soterrado é profundo porque foram despejados no vale quase 20 metros de entulho quando colinas foram niveladas e a topografia parisiense foi alterada para sempre.

Atualmente, os urbanistas não têm intenção de cavar um desfiladeiro em Paris para expor o rio. Mas o Bièvre está situado a apenas alguns metros subterrâneos em locais como a Praça René Le Gall. Ocupando a antiga horta da Manufatura dos Gobelins, este parque verdejante é um dos três pontos identificados como possível local para reabertura do rio. (O Parc Kellermann e o anexo do Museu de História Natural também são locais viáveis).

O presente estudo está reavaliando esses locais à luz de projetos de obras urbanas recentes, com foco exclusivamente em soluções gravitacionais e dispensando o uso de bombas ou sistemas hidráulicos. A esperança de Lert é reabrir pelo menos um trecho do rio antes do final de seu mandato em 2026.

O renascimento do Bièvre não é apenas um meio de resfriar a cidade, combater o aquecimento global e devolver natureza ao meio urbano. Também cria um ambiente melhor para residentes como eu, que sonham em caminhar em uma via verde em vez de concreto, compartilhando aperitivos de verão com amigos nas margens do rio citado por Rabelais.

“O Bièvre correu por Paris por milhares de anos”, afirma Cadiou. “Seria sensato devolvê-lo.”

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