Turismo de observação de vulcões está em crescimento, mas será muito arriscado?

Erupções deslumbrantes atraem visitantes a locais como a Islândia e o Havaí. Veja como visitá-los em segurança.

Fotos de Chris Burkard
Publicado 11 de abr. de 2021 08:30 BRT
Fluxos de lava criam padrão semelhante a um mapa nas rochas de basalto negro no vulcão ...

Fluxos de lava criam padrão semelhante a um mapa nas rochas de basalto negro no vulcão Fagradalsfjall, na Islândia, que entrou em erupção em março de 2021 após quase 800 anos.

Foto de Chris Burkard, National Geographic

No final de março de 2021, milhares de pessoas na Islândia fizeram uma caminhada até o vale Geldingadalur para observar a crepitação das lavas ardentes derramadas pela cratera do vulcão Fagradalsfjall, que entrou em erupção após ficar adormecido por quase 800 anos. Enquanto as nuvens de cinzas brancas se erguiam sobre trilhas de rocha fundida brilhante que avançam lentamente através de pedras negras irregulares, alguns visitantes tiravam fotos, outros sentavam-se observando em silêncio e alguns assavam marshmallows sobre os fluxos de lava.

Chris Burkard, fotógrafo que registrou a erupção para a National Geographic, também ficou fascinado com a paisagem assustadora, mas magnífica. “Foi hipnotizante”, conta ele. “Nunca pensei que algo tão simples como rocha derretida me deixaria tão maravilhado.”

Milhares de visitantes caminharam até o vulcão Fagradalsfjall para testemunhar os efeitos de sua erupção em março de 2021.

Foto de Chris Burkard, National Geographic

Turista tira foto do vulcão com o celular em março de 2021.

Foto de Chris Burkard, National Geographic

Erupções são famosas por ser um forte atrativo a turistas. Turistas japoneses frequentam onsen ryokans (pousadas de fontes termais) em vilas próximas a vulcões desde o século 8. As ruínas da antiga cidade romana de Pompeia, preservada por um manto de cinzas quando o Monte Vesúvio entrou em erupção em 79 d.C., atraíram numerosos turistas às chamadas viagens de Grand Tour na Europa nos séculos 17 e 18.

Mas o vapor, a crepitação e a explosão de vulcões ativos têm seu fascínio próprio. “São uma das forças da natureza mais primitivas possíveis de observar”, afirma Benjamin Hayes, chefe de interpretação e educação do Parque Nacional dos Vulcões do Havaí, na Ilha Havaí, apelidada de Big Island (“Ilha Grande”, em tradução livre). “É possível sentir o poder da mãe natureza ao se aproximar dessa força vital do planeta.”

Visitar um vulcão ativo não é algo sem riscos e questões éticas. Pode ser arrepiante — ou uma atração fatal. Antes de começar a se empolgar para visitar um, saiba o que é preciso para fazer isso com segurança.

Foto tirada por drone mostra lava de sílica escorrendo do vulcão Fagradalsfjall.

Foto de Chris Burkard, National Geographic

O surgimento dos ‘caçadores de lava’

Na última década, o turismo de observação de vulcões cresceu, estimulado em parte pelas redes sociais e pelos chamados “caçadores de lava”, que buscam locais lendários e fotogênicos em erupção, como o Monte Vesúvio (e dezenas de sítios vulcânicos ativos da Lista de Patrimônios Mundiais da Unesco). Nos Estados Unidos, diversos parques nacionais possuem vulcões ativos, como o Monte Rainier, no estado de Washington, o Pico Lassen, na Califórnia, e a caldeira de Yellowstone, em Wyoming.

No dia seguinte à erupção do Monte Kilauea na Ilha Havaí em 20 de dezembro de 2020, o Parque Nacional dos Vulcões do Havaí registrou um grande aumento no número de visitantes. Muitos dos oito mil visitantes eram moradores da região, mas o parque também teve um aumento constante de visitantes vindos de fora do estado conforme as restrições de viagens devidas à covid-19 diminuíam.

Dependendo do local, os viajantes podem fazer passeios de barco para observar as lavas, passeios de helicóptero sobre as caldeiras, surfar nas encostas de um vulcão ou até mesmo caminhar até a margem de um lago de lava. Mas essas aventuras trazem riscos. As erupções geralmente produzem gases venenosos (por exemplo, dióxido de enxofre, presente em Fagradalsfjall) que podem fazer mal aos pulmões. Entre 2010 e 2020, mais de 1,1 mil pessoas morreram em explosões vulcânicas, mais recentemente perto do vulcão Whakaari/White Island na Nova Zelândia, que explodiu repentinamente em 9 de dezembro de 2019, matando 22 turistas e ferindo outras 25 pessoas.

No entanto essas tragédias parecem ter despertado a curiosidade e não desencorajado o turismo. Em vez de evitar vulcões em erupção, pessoas em busca de aventura são atraídas a áreas de desastres — uma tendência que deve perdurar após a pandemia.

Em busca de erupções

As erupções vulcânicas acontecem quando há um aumento na pressão estática do magma ou uma mudança nas placas tectônicas, o que também pode provocar terremotos. Algumas vezes, a erosão ou o derretimento das geleiras movimentam lentamente a terra e acabam provocando erupções; outras vezes, deslizamentos de terra repentinos as desencadeiam. Como atividades vulcânicas são monitoradas por observatórios científicos em todo o mundo, erupções raramente ocorrem de surpresa (para estudar um pouco de vulcanologia on-line, use o rastreador de erupções ativas do Instituto Smithsoniano).

“Se forem conhecidos alguns dos princípios básicos, é possível observar erupções com bastante segurança”, afirma Rosaly M.C. Lopes, vulcanóloga e geóloga planetária do Laboratório de Propulsão a Jato em Pasadena, Califórnia. “Temos sorte de que as erupções mais bonitas — no Havaí, na Islândia e em Stromboli, na Itália — também não são as mais explosivas.”

Autora do livro Volcano Adventure Guide (“Guias de Aventuras em Vulcões”, em tradução livre), Lopes afirma que é importante saber o tipo de vulcão a ser visitado. A volatilidade de um determinado local depende de sua lava: a lava fina e fluida escorre lentamente do vulcão, ao passo que a lava espessa e viscosa dificulta a saída do gás, resultando em erupções mais explosivas (e possivelmente mortais). Saber o tipo de vulcão a ser visitado pode salvar sua vida.

Veículos de busca e resgate percorrem a área ao redor do vulcão Fagradalsfjall, na Islândia, em busca de turistas perdidos ou feridos.

Foto de Chris Burkard, National Geographic

Membros da equipe de Busca e Resgate da Islândia (Ice-Sar, na sigla em inglês) medem os níveis de gás perto da erupção vulcânica de Fagradalsfjall. Suas atividades ajudam a manter os visitantes em segurança, já que a maioria não utiliza máscaras adequadas para proteção contra gases.

Foto de Chris Burkard, National Geographic

Quando o Monte Etna na Itália entrou em erupção em 1987, dois turistas morreram. No momento da explosão, Lopes estava a apenas 1,6 quilômetro de distância, em uma expedição de pesquisa. “Se for um vulcão como o Etna e houver uma explosão repentina, olhe para cima e veja onde esses fragmentos de rocha vão cair”, alerta ela. “Mas não corra; desvie deles. Depois que os fragmentos caírem, aí então corra.”

No espectro oposto, durante a erupção súbita do vulcão Whakaari/White Island na Nova Zelândia, Lopes explica que aqueles que sobreviveram foram provavelmente os que correram mais rápido. “Alguns ficaram para tirar fotos. Acredito que outros simplesmente foram atingidos e não conseguiram correr rápido o suficiente”, presume ela. “Mas esse é um vulcão perigoso, e os vulcanólogos sabiam que poderia haver uma explosão repentina.”

Vida na sombra de um vulcão

Existem mais de 1,5 mil vulcões ativos em 81 países. Aos milhões de pessoas que moram em suas proximidades, vulcões são apenas parte do cotidiano, como o trânsito congestionado ou chuva frequente em comparação com outras regiões.

O Sakurajima, um dos vulcões mais ativos do Japão, na província de Kagoshima, em Kyushu, entra em erupção a intervalos entre quatro e 24 horas. “A população de Kagoshima nem se preocupa em olhar para cima quando o Sakurajima entra em erupção, pois o fenômeno ocorre com bastante frequência”, conta Alex Bradshaw, diretor de Comunicações Internacionais da província de Kagoshima.

A relação entre o Sakurajima e os moradores é recíproca. O solo fértil próximo ao vulcão ajuda Kagoshima a cultivar seus famosos rabanetes-brancos e as pequenas laranjas komikan.

“Sem o Sakurajima, não existiria Kagoshima. É o símbolo da nossa cidade e os moradores o consideram um deus protetor”, conta Naoto Maesako, dono do restaurante Yogan Yaki na cidade de Kagoshima, onde legumes, porco Berkshire e carne wagyu são cozidos em chapas produzidas com a lava local. “Acreditamos que o Sakurajima nos protege de tufões e outros desastres naturais. É nossa história representada bem diante de nós, podemos ver o mesmo cenário ardente observado por nossos ancestrais.”

Apesar do frio do inverno, milhares de islandeses visitaram o vulcão nos dias seguintes a sua entrada em erupção no fim de março de 2021.

Foto de Chris Burkard, National Geographic

Fluxos de lava fascinam visitantes após o anoitecer.

Foto de Chris Burkard, National Geographic

No Havaí, a conexão entre vulcões e moradores faz parte da história da origem das ilhas. Antigos cantos havaianos fazem referência a Pele, deusa dos vulcões e do fogo, como “aquela que molda a terra sagrada”. “O povo havaiano está presente e vive no local há mais de mil anos”, conta Hayes. “É impossível não ter uma profunda ligação com gerações de histórias queridas, ancestrais e conexões familiares com a ’aina — a terra”.

Tomando um rumo sombrio

Parte do turismo de observação de vulcões se aproxima do turismo sombrio ou de catástrofes. Em 2010, 353 pessoas morreram e mais de 400 mil perderam suas casas quando o Monte Merapi, na Indonésia, entrou em erupção. Logo depois, surgiram empresas de turismo especificamente para oferecer excursões até os vilarejos soterrados por cinzas. É semelhante ao turismo para observação das figuras humanas moldadas em gesso e corpos petrificados de Pompeia, que contam um relato terrível dos últimos dias de seus moradores.

Em 2018, as erupções contínuas do Monte Kilauea destruíram aproximadamente 600 casas, bem como estradas, propriedades rurais e ranchos na Ilha Havaí. Em maio do mesmo ano, ainda em meio a incêndios nas imediações, os gastos dos turistas subiram 3,3%, alcançando US$ 173,9 milhões. As empresas de turismo e hotelaria precisaram equilibrar o atendimento aos viajantes com a sensibilidade para com os moradores afetados.

Ross Birch, diretor executivo do Centro de Visitantes da Ilha Havaí, recomenda que os turistas curiosos sobre vulcões se atenham ao parque nacional. “É um ótimo local para saber mais sobre vulcões”, afirma Birch. “Em qualquer outro local além desse, os visitantes correm o risco de invadir propriedade particular e acabar no quintal de alguém.”

Ao resfriar, a lava perto do vulcão Fagradalsfjall adquiriu um aspecto irregular.

Foto de Chris Burkard, National Geographic

Enquanto o Monte Kilauea continua em erupção, o Mauna Loa, na Ilha Havaí — o maior vulcão ativo do mundo —desperta lentamente. Os sismógrafos do Observatório Havaiano de Vulcões (HVO, na sigla em inglês) registraram aproximadamente 223 terremotos de pequena magnitude ao longo de uma semana em março de 2021. “Os sensores de GPS revelam que o solo está sendo deformado devido à entrada de magma na câmara de armazenamento abaixo da superfície”afirma Frank Trusdell, geólogo do HVO. “Não há uma erupção iminente, mas os moradores precisam começar a se preparar.”

Trusdell lembra que 24 horas após a última erupção do Mauna Loa em 1984, as passagens de avião à Ilha Havaí esgotaram. “Todos queriam ver a erupção”, conta ele.

Cientistas como Trusdell entendem o fascínio por vulcões, o que acreditam que contribua para aumentar a conscientização e o interesse pela vulcanologia. “Sempre que se visita um local para observar um processo geológico — ainda que sejam vulcões relativamente previsíveis como os gêiseres de Yellowstone — o fenômeno desperta a curiosidade”, afirma Lopes. “Essa experiência inspira um respeito muito maior pelo nosso planeta.”

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