O que um surto de covid-19 significa para a vida no acampamento base do Everest?

O alpinista Mark Synnott fala sobre o surto de covid-19 no Nepal e sua busca pela câmera que poderia mudar a história.

Publicado 24 de mai. de 2021 07:00 BRT
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Localizado no sopé da geleira Khumbu, o acampamento base do Monte Everest, no Nepal, é um centro de operações para alpinistas que tentam chegar ao pico mais alto do mundo.

Foto de Alex Tait, Nat Geo Image Collection

O mês de maio tradicionalmente é a reta final da temporada de escalada da primavera no Monte Everest. A esta altura, os alpinistas já se adaptaram à altitude e os xerpas amarraram a maior parte das cordas necessárias para chegar ao cume mais ou menos no fim do mês.

Depois que o governo nepalês cancelou a temporada de escalada no ano passado, este deveria ser um ano que quebraria o recorde — com mais licenças emitidas para escaladas do que nunca. Mas enquanto o país tenta combater uma onda de covid-19 e há relatos de vários casos no acampamento base, maio de 2021 pode terminar em desastre.

O alpinista e escritor Mark Synnott sabe o efeito negativo que isso teria para o Nepal, que depende muito da receita gerada pela peregrinação anual à montanha mais alta do mundo. “A temporada do Everest é crucial para os nepaleses, principalmente na região de Khumbu, de onde vêm os xerpas”, disse ele.

Synnott esteve na região em 2019 — a última temporada completa do Everest — participando de uma expedição em busca de um alpinista perdido há quase um século, durante uma das primeiras expedições ao Everest. Os nomes dos alpinistas britânicos George Mallory e Sandy Irvine ficaram conhecidos por terem desaparecido durante sua jornada para chegar ao cume do Monte Everest, em 1924. O corpo de Mallory foi achado em 1999, mas Irvine e a câmera Kodak de bolso que ele supostamente carregava jamais foram encontrados. Se a dupla conseguiu chegar ao cume — 29 anos antes de Edmund Hilary e Tenzing Norgay realizarem tal façanha em 1953 — continua sendo o mistério mais fascinante do mundo do montanhismo desde então.

O alpinista Andrew “Sandy” Irvine (à esquerda) ao lado do parceiro de escalada George Mallory e da equipe de 1924 que participou da terceira tentativa britânica de escalar o Monte Everest.

Foto de J.B. Noel, Royal Geographical Society/Getty Images

A história de Synnott sobre sua busca, com fotos de seu companheiro de escalada Renan Ozturk, apareceu na edição de julho de 2020 da National Geographic, e seu documentário foi ao ar no canal National Geographic. Em breve poderemos ler uma narrativa mais completa dessa experiência, com um olhar aprofundado da história do Everest no novo livro envolvente de Synnott, The Third Pole: Mystery, Obsession, and Death on Mount Everest (O terceiro polo: mistério, obsessão e morte no Monte Everest, em tradução livre).

Há alguns dias, conversei pela plataforma Zoom com Synnott diretamente de sua casa em White Mountains, no estado de New Hampshire, para discutir sobre a situação atual no Everest, sua pesquisa sobre Mallory e Irvine, o que ele diz aos filhos sobre correr riscos e seus próximos projetos de aventura.

Qual é a sua opinião sobre o retorno dos alpinistas ao Everest em meio à pandemia de covid-19?

É difícil. Esta é a primeira temporada de escalada real em dois anos, mas apenas na região do Nepal. A China determinou o fechamento do Tibete — o outro lado da montanha — para todos os estrangeiros. Então, na verdade é apenas meia temporada. As autoridades nepalesas emitiram mais de 400 licenças para escalar o Everest — o número mais alto em uma única temporada. Se adicionarmos o mesmo número de xerpas e outros carregadores, o resultado é uma grande quantidade de pessoas na montanha. 

Por um lado, é possível entender por que fizeram isso — a economia nepalesa depende muito da receita arrecadada com os alpinistas e operadores. Mas tudo pode ir por água abaixo se houver um surto de covid-19 no acampamento base; o que parece estar acontecendo agora.

Qual é o “terceiro polo” citado no título do seu livro?

No início do século 20, houve uma competição entre os países pelos polos Norte e Sul, duas das últimas grandes explorações não reivindicadas. A chegada ao Polo Norte, em 1909, é atribuída a uma equipe liderada por norte-americanos e, dois anos depois, uma expedição norueguesa chegou ao Polo Sul. Atingir o cume do Monte Everest foi apelidado pelos britânicos de “O Terceiro Polo” e considerado como sendo o último desses feitos grandiosos. Mas em seguida, veio a Primeira Guerra Mundial e paralisou a busca por essa conquista.

Avançando para 1924, a equipe de George Mallory, que incluía seu membro mais jovem, Sandy Irvine, estava determinada a reivindicar o Everest para a Grã-Bretanha. Já que seu compatriota Robert Falcon Scott havia perdido o Polo Sul para os noruegueses de forma trágica — toda a equipe faleceu — Mallory e Irvine, sem dúvida, sentiram muita pressão para realizar a façanha por seu país.

Os historiadores ainda não sabem se Mallory e Irvine chegaram ao topo do Everest. O que você acha? 

Existe uma possibilidade muito baixa. Tudo estava contra eles. Na minha opinião, a história gira mais em torno do que aconteceu. Como acabaram morrendo? Eles caíram ou simplesmente se sentaram e morreram congelados? É o mistério perfeito porque as pistas não se encaixam. Como encontraram Mallory a mais de oito mil metros, deitado de bruços no cascalho, com uma corda amarrada em volta da cintura?

Quais grandes proezas de exploração ainda estão por vir? 

É fácil pensar que as pessoas conquistaram quase tudo o que antes pensávamos ser “impossível”. Mas sempre haverá uma próxima façanha ou aventura incrível. Caving apresenta algumas possibilidades interessantes. Encontrar a caverna mais profunda do mundo — que, para os espeleólogos, equivale ao Everest — é uma atividade constante. Sempre pode haver uma caverna mais profunda em algum local, oculta no subsolo, esperando para ser explorada. E também tem o oceano, é claro. Li em algum lugar que sabemos mais sobre a superfície de Marte do que sobre o que existe no fundo do mar.

O autor e alpinista Mark Synnott estava entre os sete membros da expedição da primavera de 2019 que percorreu a rota norte do Everest em busca de sinais de Irvine, que desapareceu há quase um século.

Foto de Matthew Irving, Nat Geo Image Collection

A National Geographic acaba de enviá-lo junto com  o alpinista Renan Ozturk para outra expedição épica. Fale um pouco sobre o que vocês fizeram enquanto estavam lá. 

Fomos para a bacia do alto rio Paikwa, perto da fronteira noroeste da Guiana, à procura de novas espécies de rãs. O local é um dos maiores pontos de biodiversidade, mas também um dos menos explorados. A expedição foi liderada por Bruce Means, biólogo evolucionista de 79 anos que fez dessa região o trabalho de sua vida, em particular o estudo de rãs no local. A região é famosa por seus tepuis — montanhas com inclinações abruptas que se erguem diretamente da selva, como arranha-céus. Para ter certeza de que poderíamos chegar ao topo de uma montanha chamada Weiassipu, que nunca havia sido escalada antes, levamos Alex Honnold como nossa arma secreta. Não se preocupe, logo enviarei minha história. 

Você tem quatro filhos de 4 a 22 anos. Como você conversa com eles sobre aventuras e correr riscos?

Meu filho de 22 anos mora no estado do Colorado agora e gosta tanto de esquiar quanto eu gostava de escalar quando tinha a idade dele. Então, ele sai todos os dias para praticar esqui estilo livre, fora das pistas e quer fazer esqui alpinismo e todo esse tipo de coisa. E, sinceramente, eu não consigo dormir à noite porque posso administrar meu próprio risco, mas não posso fazer o mesmo por ele. Com certeza ele está naquela fase em que se acha bom o suficiente, mas acaba se metendo em muitos problemas. E eu sempre converso com ele sobre esse assunto — pergunto sobre a neve acumulada, o ângulo das encostas em que ele esquia, me asseguro de que ele está atento às previsões de avalanche. Mas há momentos em que o telefone toca e é simplesmente impossível não me preocupar.

Você tem outro livro em mente? 

Tenho uma ideia. Mas ainda não vou contar a ninguém sobre ele. Pelo menos não por enquanto. Vocês saberão quando chegar a hora.

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