Conheça o homem que viveu sozinho em uma ilha por 32 anos

Mauro Morandi encontrou serenidade em décadas de solidão na ilha Budelli, na Itália. E agora ele precisa deixar a ilha.

Fotos de Michele Ardu
Publicado 8 de mai. de 2021 07:00 BRT
Mauro Morandi viveu sozinho na ilha Budelli, na Itália, por 32 anos. “O que eu mais ...

Mauro Morandi viveu sozinho na ilha Budelli, na Itália, por 32 anos. “O que eu mais amo é o silêncio”, conta ele. “O silêncio no inverno, quando não há tempestades e ninguém por perto, mas também o silêncio do pôr do sol no verão.”

Foto de Michele Ardu

Há mais de um ano, quando o mundo passou por restrições de isolamento social para conter a propagação do novo coronavírus, Mauro Morandi permaneceu na ilha. Ele não tinha motivos para sair do local, pois já tinha passado as últimas três décadas isolado por escolha própria.

Em 1989, o catamarã de Morandi — à deriva com o motor quebrado — foi levado à costa da ilha Budelli, localizada em um trecho de mar entre Sardenha e Córsega. Por sorte, Morandi soube que o funcionário responsável por cuidar da ilha estava se aposentando de seu cargo, então ele vendeu seu barco e assumiu essa nova função.

Trinta e dois anos depois, Morandi, conhecido como o Robinson Crusoé italiano, era o único morador e responsável pela ilha. Agora, após décadas protegendo uma das mais belas ilhas da Itália, Mauro Morandi cedeu a anos de pressão das autoridades que solicitavam sua saída do local.

A luz do sol preenche a área externa do abrigo de Morandi, onde ele gosta de jantar e ler durante o verão.

Foto de Michele Ardu

O Parque Nacional do Arquipélago de Madalena é composto por sete ilhas; Budelli é considerada a mais bela de todas graças à Spiaggia Rosa — ou praia rosa em português. A tonalidade incomum das areias cor-de-rosa se deve a fragmentos microscópicos de corais e conchas que foram lentamente reduzidos a pó pela força implacável das ondas.

No início da década de 1990, a Spiaggia Rosa recebeu do governo italiano a classificação de “alto valor natural”. A praia foi fechada para proteger seu frágil ecossistema — apenas algumas áreas permanecem acessíveis a visitantes — e a ilha, que outrora recebia milhares de turistas por dia, passou a ter um único habitante.

Em 2016, após um processo judicial de três anos entre um empresário da Nova Zelândia e o governo italiano pela propriedade da ilha, deliberou-se que Budelli pertence ao Parque Nacional de Madalena. Naquele mesmo ano, o parque contestou o direito de Morandi viver na ilha — e a população reagiu com a criação de uma petição em protesto ao despejo de Morandi, que reuniu mais de 18 mil assinaturas, pressionando os políticos locais a adiar sua expulsão por tempo indeterminado.

Mas em 25 de abril de 2021, Morandi contou aos seus seguidores no Facebook que decidira deixar a ilha no fim do mesmo mês, após diversas ameaças de expulsão pelas autoridades do parque.

Morandi coleta troncos de zimbro e os molda em esculturas. Ele as vende para turistas e doa o dinheiro para ONGs na África e no Tibete. Embora ele habite uma pequena ilha, está perfeitamente a par dos acontecimentos no mundo.

Foto de Michele Ardu

“Esperava morrer aqui, ser cremado e ter minhas cinzas jogadas ao vento”, conta Morandi, que agora está com 81 anos. Ele acredita que toda vida volta para a Terra — que todos somos parte da mesma energia, o que estimula Morandi a permanecer na ilha sem receber nenhum pagamento. Os estoicos da Grécia antiga chamavam isso de sympatheia, o sentimento de que o universo é um organismo vivo indivisível e unificado, em um fluxo eterno.

Apesar de não gostar de se relacionar com as pessoas, Morandi se dedica a proteger a natureza de Budelli e a ensinar aos turistas que chegam no verão sobre o ecossistema e como protegê-lo.

“Não sou botânico nem biólogo”, afirma Morandi. “Eu sei nomes de plantas e animais, mas meu trabalho é muito diferente. Cuidar de uma planta é uma tarefa técnica — tento fazer as pessoas entenderem [por que] a planta precisa viver.”

Morandi acredita que ensinar as pessoas a enxergar essa beleza salvará o mundo da exploração ambiental. “Gostaria que as pessoas entendessem que, para enxergar a beleza, não devemos olhar, mas senti-la com os olhos fechados”, salienta ele.

Os invernos em Budelli são bonitos e solitários. Morandi passa longos períodos — mais de 20 dias — sem qualquer contato humano. Ele encontra consolo na introspecção que lhe é proporcionada e muitas vezes se senta na praia apenas com os sons do vento e das ondas marcando o silêncio.

“É como se fosse uma prisão”, ele compara. “Mas uma prisão que eu mesmo escolhi.”

Morandi passava seu tempo realizando atividades criativas. Ele usava madeira de zimbro para fazer esculturas, encontrando rostos escondidos em suas formas nebulosas. Lia atentamente e meditava sobre a sabedoria dos filósofos gregos e dos prodígios literários. Tirava fotos da ilha, maravilhando-se com as mudanças de uma hora para a outra, ou de uma estação para a outra.

Durante seus anos na ilha, Morandi diz que nunca ficou doente, qualidade que ele atribui a uma “boa genética”.

Foto de Michele Ardu

Isso é comum em pessoas que passam longos períodos sozinhas. Cientistas sempre acreditaram que a solidão alimenta a criatividade. E os inúmeros artistas, poetas e filósofos que produziram suas maiores obras em reclusão da sociedade são evidências disso.

Mas os benefícios da solidão talvez não sejam universais. “A solidão pode ser estressante para membros de sociedades com tecnologia avançada que foram ensinados a acreditar que a solidão deve ser evitada”, explica Pete Suedfeld em Loneliness: A Sourcebook of Current Theory, Research and Therapy (Solidão: um livro de referências de teoria, pesquisa e terapia atuais, em tradução livre). No entanto existem muitas culturas seculares e devocionais em todo o mundo que veneram e preservam a solidão.

Silhueta de Morandi ao pôr do sol — seu momento preferido do dia, quando o mundo parece se aquietar. “Achamos que somos super-humanos e criaturas divinas, mas, a meu ver, não somos nada”, ele ressalta. “Devemos nos adaptar à natureza.”

Foto de Michele Ardu

Quando a conexão Wi-Fi inevitavelmente chegou à ilha quase inabitada, Morandi passou a utilizá-la para compartilhar seu amado paraíso com o mundo através das redes sociais. Aceitar essa nova forma de comunicação é seu esforço para alcançar um objetivo maior — facilitar o vínculo entre as pessoas e a natureza, expondo-as às suas belezas. Um vínculo que Morandi acredita que possa motivar as pessoas a cuidar do planeta de qualquer lugar em que estiverem.

“O amor é consequência absoluta da beleza e vice-versa”, conclui Morandi. “Ao amar uma pessoa profundamente, vemos beleza nela, mas não beleza física... nos identificamos com ela, nos tornamos parte dela e ela se torna parte de nós. É da mesma forma com a natureza.”

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