Animais

Imagens inéditas mostram chimpanzés tentando quebrar tartarugas para comê-las

Pela primeira vez, chimpanzés são flagrados batendo as tartarugas contra superfícies resistentes.Friday, May 31

O espesso casco das tartarugas as protege da maioria dos predadores. Mas os nossos parentes mais próximos encontraram uma forma de contornar essa defesa: batendo as tartarugas contra árvores com bastante força.

Em um artigo publicado esta semana na revista científica Scientific Reports, pesquisadores relatam sete chimpanzés quebrando e abrindo tartarugas terrestres do gênero Kinixys na floresta aberta do Parque Nacional de Loango, no Gabão. O comportamento ocorreu em diversas ocasiões ao longo de 5 mil horas de observação, e os primatas normalmente compartilhavam a carne com os demais membros de seus grupos.

Essa é a primeira vez que um chimpanzé é documentado se alimentando de qualquer tipo de réptil. Também é interessante a forma como os primatas se alimentam das tartarugas – batendo-as contra galhos e troncos de árvores. É um tipo de tecnologia "percussiva", semelhante ao uso de ferramentas, afirma uma das autoras do estudo, Simone Pika, que estuda chimpanzés na Universidade de Osnabrück, na Alemanha.

Já se sabe que os chimpanzés realizam outras atividades percussivas, como quebrar cupinzeiros e usar pedras para abrir nozes. Mas essa atividade incrementa de forma significativa a lista de habilidades da espécie, pois o "comportamento percussivo é bastante raro", afirma Lydia Luncz, primatóloga da Universidade de Oxford que não participou do estudo.

A descoberta pode ajudar pesquisadores a compreender melhor como os chimpanzés evoluíram a ponto de usarem ferramentas tão bem, explica ela. Por exemplo, o comportamento de bater tartarugas contra uma superfície resulta em partes físicas na forma de cascos quebrados, que podem ser estudadas por arqueólogos primatas, como Luncz.

Gia, uma chimpanzé fêmea, tentou abrir uma tartaruga duas vezes e não conseguiu. Mas um chimpanzé macho conseguiu abrir o réptil e compartilhou a carne.

Uma forma inteligente de abrir cascos

Os sete chimpanzés que caçaram e se alimentaram de tartarugas eram todos machos adultos. Provavelmente porque quebrar o casco de uma tartaruga requer certa força física – o réptil pode pesar mais de 1,3 kg e sua carapaça é muito resistente. A única verdadeira defesa de uma tartaruga é ficar parada ou se esconder dentro do casco.

Em todos os casos, os macacos tiveram acesso à carne pela parte inferior do corpo, quebrando uma parte cujo nome técnico é plastrão.

Três outros chimpanzés, duas fêmeas e um macho adolescente, tentaram abrir as tartarugas, mas não conseguiram. Contudo, em cada caso, um de seus colegas concluiu a tarefa e compartilhou a carne.

Um indivíduo adulto macho chamado Pandi parecia gostar bastante de tartarugas, tendo sido responsável por 20 das 34 tentativas bem-sucedidas. Ele já estava bem acostumado com os pesquisadores, então, foi mais fácil observá-lo. Isso pode ter ajudado a contabilizar o alto número de tentativas e não se acredita que ele tenha um talento especial para quebrar tartarugas.

Os pesquisadores observaram Pandi, um macho adulto, quebrar 20 tartarugas para se alimentar, um recorde entre os chimpanzés do grupo.

Outro indivíduo foi visto se alimentando de metade de uma tartaruga antes de guardá-la em uma árvore à noite para continuar sua refeição no dia seguinte. Isso sugere que o animal estava conscientemente planejando o futuro, um comportamento que se pensava ser exclusivo dos humanos, sendo incrivelmente difícil de estudar ou comprovar em animais selvagens.

De forma estranha, os chimpanzés somente se alimentam de tartarugas durante a estação seca, e o motivo não parece ser a falta de outras presas, afirma Tobias Deschner, primatólogo do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionária e um dos autores do estudo. A razão pode estar no fato de as tartarugas serem menos ativas durante as estações chuvosas, mas isso é apenas um palpite, conta ele.

A cultura dos chimpanzés

Estudar chimpanzés não é uma tarefa fácil – os cientistas tiveram que lidar com a presença de elefantes e atuar em áreas pantanosas, entre outros desafios.

"Não podemos ficar na floresta depois do anoitecer, pois o risco de encontrar um elefante é muito alto", afirma Deschner, que lidera o Projeto Chimpanzé em Loango em conjunto com Pika. (Os dois são casados.)

No geral, são necessários cerca de cinco anos ou mais para que uma população se acostume com a presença de pesquisadores. Há apenas cerca de 10 dessas populações selvagens sendo estudadas, afirma Luncz.

[ Veja também: 50 anos depois, chimpanzés estudados por Jane Goodall ainda revelam descobertas ]

"Sempre que uma nova comunidade de chimpanzés se acostuma conosco e conseguimos coletar novos dados. Encontramos algo novo", explica ela. A pesquisa revela que o comportamento dos chimpanzés é diverso e ainda pouco conhecido, complementa.

Um artigo publicado na revista científica Science em março sugere que diferentes grupos de chimpanzés geralmente possuem características únicas, como comportamentos, e se essas populações desaparecerem, esses aspectos da "cultura chimpanzé" serão perdidos para sempre. Cada um desses aspectos já é importante por si só, além das semelhanças entre chimpanzés e humanos.

Os chimpanzés são considerados em perigo de extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza. Os chimpanzés da África Ocidental, uma das quatro subespécies de chimpanzé, são os que usam ferramentas da forma mais eficaz e estão em perigo crítico de extinção (embora esse estudo tenha observado chimpanzés da África Central).

"Ao deixarmos esses animais serem extintos, cujos comportamentos ainda não conhecemos, damos as costas a tudo aquilo que poderíamos descobrir sobre nossa própria história evolutiva", afirma ela.