História

A busca pelos parentes modernos dos antigos “Hobbits”

Um grupo de pigmeus ainda vive próximo à caverna onde os pequenos Homo florisiensis foram descobertos. Seriam eles parentes?Tuesday, August 7

Por Maya Wei-Haas
O arqueólogo Douglas Hobbs examina a caverna em Liang Bua, onde os restos mortais do 'hobbit' foram descobertos.

À primeira vista, parecia o esqueleto de uma criança. Descoberto na caverna Liang Bua na ilha de Flores, na Indonésia, o hominídeo do sexo feminino teria 1,06m de altura. Mas ela não era uma jovem, e logo ficou claro que o hominídeo de baixa estatura era algo especial: uma espécie totalmente nova que os pesquisadores chamaram de Homo floresiensis.

A descoberta anunciada em 2004 iniciou um caloroso debate sobre como essa curiosa espécie, conhecida como “hobbits”, se encaixa na nossa árvore genealógica. Um novo estudo publicado  na  Science é o último capítulo do que o autor Richard E. Green chama de “o grande mistério do hobbit”.

Green, bioinformata da Universidade da Califórnia – Santa Cruz, junto com uma equipe internacional, examinou o material genético dos pigmeus Rampasasa, que vivem próximos a caverna onde o hobbit foi encontrado. Eles queriam saber se essas pessoas possuem o DNA dos antigos hobbits.

“Resumindo, a resposta é: não”, diz Green. “Examinando muito bem, não temos nenhuma evidência disso”. Parece que os grupos residentes em Flores desenvolveram a baixa estatura ao menos duas vezes, mas as adaptações evolutivas são separadas por dezenas de milhares de anos.

Muito interessante”

Nos últimos anos, os pesquisadores foram pouco a pouco desvendando a história do H.florensiensis. Esses hominídeos de baixa estatura provavelmente são descendentes do Homo erectus, que habitou a região cerca de um milhão de anos atrás. Não se sabe ao certo quando os hobbits chegaram a Flores, mas baseado na descoberta de uma mandíbula e dente de hobbit próximo à caverna, acredita-se que os habitantes da ilha atingiram sua baixa estatura há cerca de 700 mil anos. Os vestígios dos hobbits datam entre 100 mil e 60 mil anos atrás, embora as análises de suas ferramentas sejam de 190 mil a 50 mil anos atrás.

Ainda assim, alguns argumentaram que o hobbit não era uma nova espécie, sugerindo que se tratava de nanismo ou até mesmo Síndrome de Down.  Este último trabalho surge de um estudo controverso publicado em 2011, quando pesquisadores sugeriram que o H.florisiensis sofria de microcefalia, o que teria prejudicado seu crescimento. Green é contrário a essa ideia, mas diz que os pesquisadores “apontaram algo muito interessante”.

Eles encontraram semelhanças surpreendentes nas proporções faciais entre os antigos H.florisiensis e os atuais pigmeus Rampasasa. “Parecia mais que uma coincidência para mim”, ele diz.

Na época, Green tinha acabado de decodificar uma sequência do genoma Neandertal. Como parte da pesquisa, sua equipe identificou traços dos genes desses antigos hominídeos nos humanos atuais. Era o que a ciência acreditava na época, ele diz: “De que talvez tudo se misturasse caso houvesse oportunidade”. E que o mesmo aconteceria com os hobbits.

Green e seus colegas, incluindo pesquisadores da Europa, Austrália e Indonésia decidiram analisar o genoma dos pigmeus atuais e determinar se seus ancestrais eram ou se misturaram aos H.florisiensis.

32 amostras de saliva

Desde a descoberta do H.florisiensis – e talvez até mesmo antes –, o povo Rampasasa acreditava que sua ascendência estava ligada à imponente caverna Liang Bua, diz Serena Tucci, autora de novo estudo e pesquisadora na Universidade de Princeton. Eles acreditam que o hobbit é um dos seus ancestrais – e frequentemente trazem comida ou flores para a caverna em forma de oferendas, ela conta.

Antes de coletar as amostras, a equipe trabalhou duro para explicar quais eram seus objetivos e o processo de coletagem, Tucci explica, e dependiam de dois tradutores para comunicarem-se com os Rampasasa: um para traduzir do inglês para o indonésio, e outro para traduzir do indonésio para a língua local Manggarai. De um modo geral, os Rampasasa ficaram animados em participar do projeto. “Eles queriam saber sobre a sua história”, ela conta.

Para a coleta, os pesquisadores selecionaram aleatoriamente 32 adultos de um grupo de voluntários, e pediam para cada um cuspir num tubo de análises genéticas. Desses indivíduos, foram analisados 10 genomas completos. Eles então compararam às análises genéticas ao DNA de mais de 250 mil pessoas de 225 populações diferentes pelo Sudeste Asiático, Malásia, Indonésia, Papua Nova-Guiné, entre outros.

Como ainda ninguém conseguiu extrair DNA dos vestígios do H.florisiensis, os pesquisadores não poderiam comparar diretamente o DNA antigo ao moderno. Em vez disso, eles procuraram por traços hobbit usando uma tática um pouco diferente. Eles se perguntavam “O que encontramos que não conseguimos explicar?”, explica Green. “E a resposta era: nada que se pareça com o que esperamos de um hobbit”.

A análise sugere que os Rampasasa têm a maior parte de sua ascendência na Oceania Próxima, denominação dada à região ocupada por Papua Nova-Guiné, Ilhas Salomão e Arquipélago de Bismarck. Outra parte significante de sua genética parece vir de uma migração mais recente do Sudeste Asiático.

Há algumas evidências de hominídeos primitivos, como o Neanderthal, e 0,8% de genes de Denisovanos. Mas os pesquisadores não conseguiram encontrar nenhuma outra mistura antiga o suficiente para ter vindo de uma espécie como os hobbits.

“Adoraria que a resposta fosse sim,” disse Green. “Mas não foi isso que aconteceu”.

O que está acontecendo?

“Onde quer que olhemos encontramos mistura genética, até mesmo em populações que acreditávamos serem de espécies diferentes”, diz Amy Goldberg, geneticista de populações na Universidade de Duke, que não estava envolvida na pesquisa. Este último estudo, ela diz, é uma das primeiras vezes na era do estudo do genoma em que pesquisadores não encontraram esse tipo de cruzamento.

Ela elogia a minúcia da nova pesquisa, observando que é possível que os traços hobbit ainda estejam lá – apenas não foram detectados pelos métodos existentes. Mas também é totalmente possível, ela diz, que a baixa estatura tenha se desenvolvido duas vezes ao longo da História.

“Muitas coisas estranhas acontecem em ilhas”, Tucci explica. Exposto a diferentes disponibilidades de alimentos e, muitas vezes, grupos incomuns - ou uma falta geral - de predadores, a vida na ilha se desenvolve de forma muito diferente do que nos continentes. Muitas espécies se tornam pequenas, um processo conhecido como nanismo insular. É provavelmente o que aconteceu aos mini hipopótamos de Madagascar e aos pequenos primos dos elefantes que vagavam por Flores juntos dos hobbits.  Algumas criaturas, entretanto, tornam-se grandes, como os ratos gigantes de Flores, que ainda podem ser encontrados hoje em dia pela ilha. “Eles são do tamanho do meu gato”, Tucci diz.

Mas Gerrit Van den Bergh, da Universidade de Wollongong, adverte sobre tomar conclusões precipitadas sobre as causas do encolhimento. Não está claro ainda se o nanismo insular foi o que realmente aconteceu aos Rampasasa. Eles são agricultores eficientes, então escassez de alimentos – uma causa comum para o nanismo insular – pode não ter desempenhado um papel nesse caso.

“O nanismo insular é um mistério,” Green concorda. “É uma daquelas coisas que a ciência já deveria saber mais.”

“Este estudo, para mim, mostra que altura tem uma arquitetura complexa, acrescenta Sohini Ramachandran, geneticista de populações na Universidade de Brown, que não estava envolvida no trabalho. Não sabemos ao certo como essas estaturas se desenvolvem, ela disse. “Há mais trabalhos a serem feitos no futuro que podem contribuir para o entendimento de como funciona a genética nesses casos”.

A equipe está atualmente trabalhando para comunicar aos Rampasasa os resultados. “Levar o resultado até eles é uma parte importante do estudo”, diz Tucci, que está trabalhando com um ilustrador indonésio para elaborar um gráfico compreensível. Mas ainda há mais a ser feito. A pesquisa parece ter levantado mais perguntas do que respostas, mas tem dado pistas fascinantes sobre a vida e a morte do H.floresiensis.

“O mistério continua”, diz Green.