Animais

A vida secreta dos orangotangos

Os cientistas já vislumbram aspectos cruciais da intimidade dos orangotangos. Ainda assim, são precárias as perspectivas desses esquivos primatas de pelo ruivo. Quarta-feira, 8 Novembro

Por Mel White

“Por vezes, acho que escolhi o objeto de estudo mais difícil que existe”, confessa Cheryl Knott quando nos acomodamos sob o dossel da floresta tropical na sua estação de pesquisa de orangotangos, na região oeste de Bornéu, na Indonésia. O ruído agudo das cigarras toma conta do ar e, vez por outra, até nos obriga a ficar calados. Enquanto conversamos, os colegas de Cheryl estão palmilhando a mata circundante do Parque Nacional Gunung Palung com aparelhos de GPS e iPads, seguindo os primatas de pelo ruivo nas suas perambulações diárias, registrando tudo o que fazem, o que comem e como interagem com outros membros da própria espécie.

Diferentemente dos gorilas e dos chimpanzés – outros primatas de grande porte que vivem em grupos e podem ser seguidos e observados com relativa facilidade −, os orangotangos quase sempre levam uma existência solitária. Passam a maior parte do tempo no alto das árvores, circulam por imensas áreas e costumam habitar florestas e áreas pantanosas inóspitas demais para os seres humanos. Por isso, estão entre os animais terrestres de grande porte menos conhecidos. Apenas nos últimos 20 anos, mais ou menos, o acúmulo de indícios científicos começou a superar as especulações, graças a uma nova geração de pesquisadores empenhada em rastrear esses esquivos macacos nas ilhas de Bornéu e de Sumatra, os únicos locais em que são vistos.

Por mais de duas décadas, a bioantropóloga Cheryl Knott supervisiona as pesquisas em Gunung Palung, voltadas para aspectos diversos da história de vida dos orangotangos, mas enfocando sobretudo o modo como a disponibilidade de alimentos afeta os hormônios femininos e a reprodução. “Na época em que viemos para cá, quase ninguém havia pesquisado os hormônios nos primatas que vivem em condições naturais”, conta. “Todos diziam que eu era louca.”

Os estudos de Cheryl são relevantes porque as fêmeas de orangotango dão à luz poucas vezes, com intervalos de seis a nove anos. Em nenhum outro caso de mamífero, há intervalo tão longo entre os partos. Ainda não temos como dizer qual poderia ser a contribuição dessa investigação para o nosso entendimento da fertilidade humana, mas nós e os orangotangos somos tão parecidos que Cheryl pode usar testes comuns, desses vendidos em farmácia, para verificar pela urina se as fêmeas de orangotango estão grávidas.

Típicas de muitas matas no Sudeste Asiático, as árvores em Gunung Palung produzem pouco ou nada de frutos na maioria das estações. Mas aí, a cada quatro anos mais ou menos, árvores de várias espécies dão simultaneamente uma quantidade imensa de frutos, em um processo conhecido como masting (“embolotamento”). Esse fenômeno levou Cheryl a se perguntar se havia relação entre tal abundância de comida e a reprodução dos orangotangos.

Os seus estudos revelaram que os hormônios reprodutivos alcançam o seu pico nas fêmeas justamente quando os frutos são mais abundantes na floresta – uma adaptação a um ambiente no qual se alternam períodos de fartura e de escassez de alimentos. “Isso faz muito sentido”, diz Cheryl. “Eles ganham peso nas épocas de muitos frutos, o que os ajuda a superar os períodos de escassez. E, nas épocas de abundância, aumenta a probabilidade de as fêmeas ficarem grávidas.

Esta é uma época animadora para Cheryl e outros estudiosos, pois os avanços tecnológicos (entre os quais o uso de drones para localizar e seguir orangotangos em áreas agrestes) fazem com que o ritmo das descobertas, já bem mais acelerado que há duas décadas, fique ainda mais intenso. Mas isso, claro, tem como pressuposto o fato de que ainda restem orangotangos a serem estudados nas matas de Bornéu e Sumatra.

Nas décadas de 1980 e 90, alguns conservacionistas estimavam que os orangotangos iriam se extinguir na natureza no prazo de 20 ou 30 anos. Ainda bem que isso não se confirmou. Hoje sabemos que há muitos milhares de espécimes a mais do que se supunha na virada do milênio.

Isso não significa que tudo esteja bem no mundo dos orangotangos. Os números mais robustos resultam de métodos de levantamento melhorados, e também da descoberta de populações antes desconhecidas – não se devem a um aumento efetivo dos espécimes. Na realidade, a população total de orangotangos sofreu uma redução de, pelo menos, 80% nos últimos 75 anos. Um indício das dificuldades nas pesquisas é o fato de que o cientista Erik Meijaard, que há muito estuda as tendências demográficas da espécie, pode afirmar apenas que, em Bornéu, existem de 40 mil a 100 mil orangotangos. Para Sumatra, os conservacionistas estimam que restem somente 10 mil espécimes. Grande parte dessa queda na população foi acentuada pela destruição do hábitat, por causa da rápida difusão de imensas plantações de palmeira, cujo fruto é usado na produção de óleo culinário e outros itens alimentícios.

Há ainda outro fator em jogo. Segundo o relatório de 2013, divulgado por vários pesquisadores importantes, talvez até 65 mil desses primatas tenham sido abatidos apenas em Bornéu nas últimas décadas. Alguns foram mortos para serem consumidos por pessoas que não tinham como sobreviver de outro modo. Outros, porque estavam destruindo plantações – ou protegendo os seus filhotes. O rosto expressivo e tocante dos bebês orangotangos faz com que sejam valiosos no mercado ilegal de animais de estimação, tanto na própria Indonésia como em outros países, para onde são contrabandeados de Bornéu e Sumatra. Tal é a ferocidade com que as fêmeas defendem os filhotes que o modo mais fácil de agarrar um orangotango bebê é matar a mãe – uma tragédia ampliada, pois não só elimina dois animais da natureza como também inviabiliza a prole adicional que a fêmea teria durante a sua vida.

Em lugares como a organização International Animal Rescue, perto de Gunung Palung, a chegada constante de orangotangos órfãos comprova que a matança continua a ser um problema grave. Mais de mil orangotangos vivem atualmente nesses locais de recuperação, e, embora o objetivo seja devolver à floresta tantos quanto possível, a tentativa de ensinar a capacidade de sobrevivência aos jovens orangotangos é algo complexo e de eficácia ainda não comprovada.

Ao mesmo tempo que tais ameaças se acumulam, avanços nas pesquisas revelam uma surpreendente amplitude na constituição genética, na estrutura física e no comportamento – incluindo os primórdios de um desenvolvimento cultural que pode nos ajudar a entender a transição pela qual passamos − do macaco ao homem.

Durante séculos, os cientistas consideraram que todos os orangotangos pertenciam a uma única espécie, mas novas investigações nas duas últimas décadas fizeram com que os animais de Bornéu e Sumatra passassem a ser vistos como espécies distintas, ambas em perigo crítico. Surpreendentemente, os investigadores constataram que uma população recém-encontrada na localidade de Batang Toru, no oeste de Sumatra, na verdade é mais próxima, em termos genéticos, dos orangotangos-de-bornéu que outras populações de Sumatra – possivelmente, como resultado de diferentes ondas de migração.

De acordo com alguns pesquisadores, os orangotangos de Batang Toru devem ter divergido dos outros o suficiente para caracterizar uma terceira espécie. Contando com apenas 400 indivíduos, hoje eles estão ameaçados por um projeto de usina hidrelétrica que irá fragmentar o seu hábitat e tornar a área mais acessível às ameaças humanas, como a caça. Além disso, várias populações em Bornéu são agora tidas como subespécies distintas, com base em fatores como tipos corporais, vocalizações e adaptações ao meio ambiente. A diversidade dos orangotangos estende-se ainda mais, chegando a diferenças cujas origens continuam a resistir ao entendimento científico.

Do seu poleiro no alto do dossel da floresta em Sumatra, um grande orangotango macho, conhecido como Sitogos, salta para o tronco de uma árvore morta e, usando todos os seus 90 quilos, o sacode de um lado para outro até que se rompa da base. No último instante, Sitogos pula para um galho próximo, enquanto o tronco tomba na minha direção com um estrondo.

Os orangotangos costumam agir assim quando ficam irritados, e eles são muito bons nisso. Abrindo os braços ao máximo, numa extensão total de 2 metros, Sitogos – que significa, na língua batak, do noroeste de Sumatra, “o mais forte”, – movimenta-se pelo dossel graças às mãos com dedos longos e aos pés ágeis, os quais lhe permitem saltar de um galho a outro. Uma fêmea jovem, apelidada de Tiur (“otimista”), o acompanha para todos os lados, aproximando-se bem dele sempre que faz uma pausa. Bem menor e de constituição mais delicada, ela insiste na perseguição mesmo com o macho aparentando indiferença. Juntos, eles se acomodam num dos galhos, mastigando flores e rompendo as frondes côncavas das samambaias para beber a água ali acumulada. Quando ele se apóia contra o galho, Tiur faz a limpeza do pelo nas costas de Sitogos.

Em algum momento no passado recente, o macho sofreu uma transformação assombrosa. Havia passado anos com um corpo só um pouco maior que o de Tiur. Mas aí, com a testosterona jorrando, adquiriu músculos poderosos, o pelo cresceu, surgiram bochechas carnudas conhecidas como flanges e uma enorme bolsa na garganta, a gular, para amplificar os seus gritos.

A atenção dedicada de Tiur e a disponibilidade dela e de outras fêmeas para o acasalamento são as recompensas da nova condição de Sitogos, mas a mudança física tem um preço. De um ponto distante na mata ouve-se o chamado de outro orangotango macho. Sem hesitar, Sitogos se ergue atento e começa a se mover na direção do rival.

Em muitas espécies, os machos passam por notórias alterações físicas à medida que amadurecem, mas, no caso dos orangotangos, esse processo é intrigante. Nem todos os machos exibem, como Sitogos, corpo massudo, flanges faciais e bolsa gular. Muitos preservam o corpo menor por um longo período mesmo após terem alcançado a maturidade sexual, transformando-se anos depois que outros indivíduos. Outros permanecem mirrados até o fim da vida. O mecanismo por trás dessa variação, conhecido como “bimaturismo”, está entre os grandes enigmas da zoologia.

Nas florestas do norte de Sumatra, um único macho dominante, com flanges faciais, mantém o controle sobre um grupo de fêmeas. Na mesma área, os outros machos preservam o corpo menor e não exibem flanges, e com isso evitam os confrontos que ocorrem quando vários machos tentam afirmar a sua superioridade (até que reúnam condições para assumir o papel dominante). Para os machos menores, a única chance de transmitir os próprios genes é se manter à margem, fora do alcance do chefe, e, sempre que possível, tentar o acasalamento de maneira furtiva.

Em Bornéu, por outro lado, quase todos os machos desenvolvem as flanges faciais. Eles perambulam por áreas enormes, e não há machos individuais associados a grupos de fêmeas. No caso dos machos, a possibilidade de se acasalar está aberta a todos que sejam fortes e participem da competição, o que resulta em mais confrontos.

Em uma trilha não muito distante da estação de Cheryl Knott, eu pude constatar os sinais desses embates. Sentado no alto de uma figueira, um orangotango macho conhecido como Prabu exibia um corte recente na sua testa, assim como lhe faltava um pedaço do lábio. Prabu havia se ferido numa luta, mas era o vencedor ou o perdedor?

Enquanto observo, ele se ergue e emite uma sequência de sons altos que os cientistas denominam “chamado longo”: uma complexa e arrepiante série de roncos profundos e gritos gorgolejantes que pode ser ouvida a mais de mil metros na mata. Normalmente, os chamados longos dos machos duram menos de um minuto, mas o de Prabu continuou por mais de cinco. Ensanguentado mas desafiador, Prabu vangloria-se da sua força tanto diante dos machos rivais como das fêmeas com quem pode se acasalar.

Para alguns cientistas, a dicotomia entre os orangotangos machos deve-se em parte às diferenças nas histórias geológicas de Sumatra e Bornéu. Sumatra é uma ilha mais fértil, na qual os primatas não precisam se deslocar muito para achar comida, e a densidade de fêmeas é maior. Isso permite que os machos passem mais tempo em certo lugar e desenvolvam relacionamentos. Já o ambiente mais pobre de Bornéu gerou uma competição, na qual os indivíduos perambulam por áreas imensas, encontrando pelo caminho alimento e oportunidades de acasalamento.

Talvez isso explique por que o desenvolvimento de características nos machos dominantes difere de uma ilha para a outra. “Como um macho de Sumatra sabe que, se lhe crescerem as flanges mas não for o chefe, ele não vai ter sucesso no acasalamento?”, indaga Carel van Schaik, ao conversarmos no seu gabinete na Universidade de Zurique, na Suíça, pela qual ele e os colegas publicaram dúzias de artigos científicos com base nas pesquisas sobre os orangotangos.

A resposta à questão é, claro, que o macho não “sabe”, num sentido humano. “Não é algo que possam aprender”, explica Van Schaik. “É preciso haver uma mudança, um limiar, e a sensibilidade a esse limiar deve variar segundo a população, e de algum modo tem a ver com a genética.”

A questão de como se desencadeia o desenvolvimento físico do macho permanece sem resposta, em parte devido ao mesmo desafio que enfrentam em várias frentes os estudiosos dos orangotangos: a dificuldade de observar os animais.

 

Além da diversidade fisiológica, os orangotangos exibem diferenças comportamentais que se transmitem de indivíduo para indivíduo, e de uma geração a outra, de maneiras que podem legitimamente ser consideradas culturais.

“Em um dos nossos locais de pesquisa, ouvimos um chamado usado pelas mães quando precisam tranquilizar os filhotes”, diz Maria van Noordwijk, que faz parte da equipe de Zurique. “Nós o chamamos de ‘estalos guturais’. Havia uma fêmea que sabíamos com certeza que tinha dado à luz pela primeira vez. E, no dia seguinte depois de ter dado à luz, ela já fazia esse chamado. Ninguém antes tinha ouvido ela fazer aquilo. Obviamente, é algo que aprendeu com a mãe.”

“Não se supõe que os primatas exibam um aprendizado local”, diz Van Schaik. “Mas, a menos que você ache que é genético, o que nos parece difícil é bem provável que seja cultural. As vocalizações dos orangotangos não se assemelham à voz humana, mas a compreensão, o aprendizado e o arremedo dos sons, tudo isso é inegável.”

Para os pesquisadores que observam os orangotangos, há nesses sinais mais que comportamento animal. Por trás das anotações de campo está uma questão crucial: o que esses primatas podem dizer sobre nós, seres humanos? Todavia, desvendar os segredos contidos no cérebro e no corpo desses parentes primatas implica na preservação de todo o espectro de adaptações. A perda de qualquer população destrói qualquer possibilidade de aprender algo de um ambiente específico, assim como as respectivas soluções culturais.

Passei um tempo pesquisando no campo com Marc Ancrenaz, que, desde 1996, dirige o projeto de estudo e conservação de orangotangos no Rio Kinabatangan, na região de Sabah, noroeste de Bornéu. Ali várias centenas de orangotangos vivem em um estreito corredor de hábitat deteriorado à margem do rio, entre aldeias que também estão rodeadas por um mar de palmeiras oleaginosas. “Preferíamos um trecho de mata primária, mas é isso o que temos”, diz Ancrenaz, enquanto tentamos nos abrigar de uma tempestade em um barraco na estação. Fora, o terreno lamacento está todo marcado com as pegadas circulares dos elefantes-pigmeus. “Vinte anos atrás, os cientistas achavam que os orangotangos não conseguiriam sobreviver fora da floresta. Foi grande a nossa surpresa de encontrá-los por aqui.”

Ancrenaz é um dos vários pesquisadores para quem a paisagem modificada pelo homem é vital para a sobrevivência dos orangotangos. “Acho que esse é o futuro da biodiversidade”, diz ele.

No oeste de Bornéu, Cheryl Knott montou uma organização com os objetivos de desenvolver, em conjunto com as comunidades locais, meios de sobrevivência alternativos e sustentáveis; de reduzir o desmatamento e a caça ilegais; e de proporcionar educação ambiental às áreas ao redor do Parque Nacional Gunung Palung. No mesmo espírito, Ancrenaz criou programas educacionais de conservação nas escolas da região de Sabah. Com isso, os ribeirinhos do Kinabatangan podem ter uma renda financeira por meio do ecoturismo e de atividades similares. A sua esperança é que essas pessoas se convençam de que é do interesse delas a sobrevivência dos animais. “Se não incorporamos os moradores nos nossos planos, não seremos bem-sucedidos”, diz ele.

Para que os orangotangos sobrevivam na sua atual diversidade, as autoridades e os conservacionistas precisam tomar decisões acertadas sobre o local de estabelecimento das reservas e a forma de usar recursos limitados. E precisam encontrar maneiras de assegurar a coexistência da espécie com os seres humanos nas duas ilhas em que o seu hábitat vem diminuindo sem parar.

“Vejo muita gente dedicada agindo com o coração, com os sentimentos, e é bom que seja assim”, diz Ancrenaz. “Mas a conservação tem de estar baseada em sólidos motivos científicos. O objetivo das pesquisas é produzir uma compreensão maior da ecologia e da genética dos orangotangos. A consequência é, na verdade, o uso desse conhecimento de modo a ter impacto no aproveitamento da terra e nas próprias comunidades. É aí que a conservação tem lugar.”

Nas matas de Bornéu e de Sumatra, o comportamento dos orangotangos perdura, tal como foi definido por milhões de anos de evolução: os machos lançam desafios uns aos outros com gritos, os jovens esperam pela oportunidade de conquistar uma posição de domínio, e as fêmeas ensinam os filhotes a sobreviver na copa das árvores. Alguns dos mistérios da existência deles foram desvendados. E o que mais vamos aprender depende do êxito da colaboração de cientistas e conservacionistas, buscando as respostas sobre os elos entre os seres humanos e esses primatas.

“Como cientista, devo ser objetiva”, diz Cheryl Knott. “Mas também sou um ser humano, e essa conexão com eles é o que me trouxe para cá.”

Confira a reportagem completa: De galho em galho. na edição de fevereiro de 2017 da revista National Geographic Brasil.

Publicada por ContentStuff.

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