Animais

Morcegos estão sendo mortos por pessoas que bebem seu sangue

Milhares de morcegos são vendidos todo mês na Bolívia por causa de seu sangue, que supostamente ajuda a tratar epilepsia e outras doenças. Terça-feira, 11 Dezembro

Por Dina Fine Maron

NÃO É DIFÍCIL encontrar morcegos à venda nos mercados da Bolívia. Eles normalmente são escondidos em caixas de sapato, algumas superlotadas com até 20 morcegos. Os que sobrevivem rastejam sobre os que já sucumbiram a doenças ou ao estresse.

As pessoas compram esses animais para beberem seu sangue fresco devido às supostas propriedades de cura—especialmente, conforme acreditam, para ajudar a controlar a epilepsia. "A crença é bem forte na nossa sociedade, especialmente nos Andes", explica o especialista em morcegos Luis F. Aguirre, diretor do Centro de Biodiversidade e Genética da Universidade de San Simon, em Cochabamba. "Recebo ligações de pessoas solicitando morcegos pelo menos umas cinco vezes ao ano", ele conta.

A atividade de Aguirre não inclui fornecer morcegos em troca de dinheiro. Há 20 anos, ele trabalha para proteger os animais como chefe do Programa Boliviano de Preservação de Morcegos, uma rede de voluntários e profissionais que realiza pesquisas e educa pessoas a respeito dos equívocos envolvendo esses mamíferos. Porém, como Aguirre trabalha com morcegos e as pessoas querem morcegos vivos—elas normalmente o procuram na esperança de que ele consiga ajudar a fornecer alguns deles.

"Uma vez recebi uma ligação da França de um boliviano que estava querendo comprar morcegos", conta ele. Ele queria tratar a epilepsia de um filho dando a ele sangue de morcego para beber. Em ocasiões como essa, e em todas as demais ocorrências do tipo, Aguirre repete a mesma coisa: Que não há nenhuma comprovação de que beber sangue de morcego traga algum benefício médico e que ele se opõe fortemente à prática.

Contudo a crença—e as mortes—continuam. Oficialmente, caçar morcegos é ilegal. A legislação boliviana proíbe a caça e a comercialização de qualquer animal selvagem sem a devida autorização, podendo aplicar até seis anos de prisão como punição. Ainda, a pesquisa que Aguirre e colegas publicaram em 2010 relata que mais de 3 mil morcegos foram vendidos por mês somente nas quatro principais cidades do país. Esse número inclui diferentes espécies, como morcegos frugívoros, insetívoros e hematófagos.

Aguirre diz que, de acordo com o atual monitoramento realizado regularmente, as vendas continuam em níveis semelhantes—podendo até mesmo ter aumentado—apesar da maior atenção voltada a crimes contra a vida selvagem e pressão pública para combater o problema. A única diferença real é que os morcegos não são mais exibidos tão abertamente quanto no passado, escreveu ele por e-mail. "Mas não é difícil encontrá-los".

Ao passo que caçar morcegos seja ilegal, o direito à prática da medicina tradicional é respaldado pela lei. Quando práticas culturais antigas e proteção à vida selvagem estão em jogo, este último normalmente fica em segundo plano, diz a antropóloga Kate McGurn Centellas, da Universidade de Mississippi, que estuda medicina tradicional no país.

Até o momento, não houve registro de nenhuma prisão relacionada à morte ou à comercialização de morcegos, de acordo com Rodrigo Herrera, assessor jurídico da Diretoria Geral de Biodiversidade e Áreas Protegidas do Ministério do Meio Ambiente e Recursos Hídricos. O governo boliviano diz que não possui registros oficiais do número de morcegos mortos e que o único relatório associado a esses animais é de um incidente de 2015 ocorrido na capital La Paz, no qual 22 morcegos de diversas espécies estavam sendo vendidos para uso medicinal e foram apreendidos. Todos os animais morreram após algum tempo.

O "PODER" DO SANGUE DE MORCEGO

A crença de que o sangue de morcego ajuda a curar pessoas com epilepsia é difícil de ser comprovada ou refutada. De acordo com Aguirre, se uma pessoa com epilepsia que tenha bebido sangue de morcego não tiver mais ataques por um tempo e, então, apresentar um episódio, os crentes simplesmente diriam que a potência do sangue está diminuindo—indicando que um outro animal seria necessário.

A prática está embebida em rituais, e a origem dos possíveis poderes do sangue de morcego continua incerta. Os bolivianos têm um grande compromisso cultural com a medicina tradicional, que pode incluir oferendas de animais e remédios à base de ervas. Para trazer sorte a uma residência ou laboratório científico, por exemplo, o feto seco de uma lhama pode ser incinerado e suas cinzas enterradas sob a construção, diz Centellas. Ela observa que o sangue também é visto como uma força poderosa de vida que, se consumido, pode transferir algumas de suas propriedades.

Quanto aos morcegos, o valor desses animais provavelmente provém do fato de eles serem vistos como criaturas poderosas com características únicas, explica Centellas. "Eles voam, mas são mamíferos—não pássaros. As pessoas acham que eles não se encaixam claramente em nenhuma categoria, então essa pode ser a fonte dos supostos poderes curativos". Em especial, complementa ela, "é possível que o consumo de sangue de morcego possa equilibrar ou corrigir algo que seria visto como um distúrbio ou desequilíbrio no corpo humano—manifestado na forma de ataques ou, conforme conhecemos no sistema biomédico, como epilepsia".

Normalmente, o morcego é capturado vivo, sua cabeça é decepada e o sangue é consumido fresco, diz Aguirre. Mas, como alternativa, se o morcego já estiver morto, ele é frito com sua pele e envolto em uma sacola de pano que é então embebida em álcool para posterior consumo.

Centellas, que não testemunhou nenhum dos rituais, diz que ambas as práticas parecem ser consistentes com a lógica geral e a abordagem das demais que já presenciou na Bolívia. Cobras, por exemplo, são normalmente mergulhadas em álcool e o líquido é consumido posteriormente, conta ela, na esperança de que a mistura aumente a virilidade, a resistência ou a fertilidade, entre outras coisas.

OS MAIORES INIMIGOS DOS MORCEGOS

Os morcegos que são vendidos para consumo do sangue—que, de acordo com a pesquisa de Aguirre, podem incluir diversas espécies de morcegos, como os frugívoros, insetívoros (os de-orelhas-de-rato) e hematófagos—não são raros o suficiente para serem considerados em ameaça de extinção.

As pessoas que vendem morcegos nos mercados também não são as mesmas que caçam esses animais. Intermediários procuram pelos locais onde os morcegos se abrigam, como casas abandonadas, cavernas e áreas florestais, explica Aguirre. Eles normalmente capturam os morcegos com redes parecidas com aquelas utilizadas para caçar borboletas. Os animais são colocados em sacolas de pano ou caixas para serem transportados aos mercados da cidade.

Por mais horrível que isso possa parecer para os morcegos da Bolívia, ser caçado pelo sangue está longe de ser a maior ameaça que atinge esses animais, diz Rodrigo A. Medellín, copresidente do grupo de especialistas em morcegos da União Internacional para a Conservação da Natureza, que monitora a condição da espécie.

"A maior ameaça continua sendo a destruição e a perturbação dos locais onde eles se abrigam e a destruição do habitat", contou Medellín por e-mail, que também é explorador da National Geographic. "Três mil morcegos por mês infelizmente não são nada comparado à mortalidade causada pelas alterações no habitat e pela destruição dos locais onde eles se abrigam".

Qualquer redução no número de morcegos pode ser prejudicial ao ecossistema, pois elimina, por exemplo, polinizadores importantes e exterminadores de insetos. Uma caçada oportunista aos morcegos também coloca as pessoas em risco.

"Morcegos insetívoros são bons controladores de vetores—eles se alimentam de mosquitos e outros artrópodes que transmitem doenças ou parasitas, como a malária que infecta pessoas", explica Jonathan Towner, ecologista patológico dos Centros Norte-Americanos de Controle e Prevenção de Doenças, em Atlanta, Georgia, que se especializou em patógenos altamente perigosos. Com menos morcegos, haverá mais desses insetos, observa ele, e isso pode aumentar as chances de exposição a doenças como febre amarela, zika ou malária.

Capturar morcegos também traz riscos diretos à saúde. De acordo com Brian Bird, virologista, veterinário e especialista em morcegos do Instituto de Saúde Davis One da Universidade da Califórnia, a principal preocupação é a raiva. E um morcego infectado e submetido a uma situação de estresse, como ser mantido em uma caixa superlotada com outros morcegos, pode morder mais do que o usual, transmitindo a raiva.

Morcegos hematófagos, que são encontrados apenas na América Latina, "são, de várias formas, o vetor perfeito da raiva", diz Gerald Carter, explorador da National Geographic e especialista em morcegos hematófagos da Universidade do Estado de Ohio, em Columbus. Eles se alimentam de sangue e a raiva é transmitida pela mordida—permitindo que o vírus se desloque do morcego infectado ao animal mordido.

O risco de pegar raiva é baixo para as pessoas que consomem sangue de morcego porque o vírus é mais prevalente na saliva e em tecidos como o cérebro, não em outros fluidos corporais. Ainda, outros patógenos—talvez patógenos novos—podem estar presentes no sangue dos morcegos, afirma Towner. E, se o morcego morreu sozinho, ele complementa, isso por si só deve ser preocupante—um morcego morto ou doente tem muito mais chances de ter alguma doença.

Nenhum registro oficial relacionou a prática de beber sangue de morcego com pacientes bolivianos que vieram a contrair doenças. Mas isso pode ser apenas uma questão de vigilância ineficaz, afirmam Bird e outros especialistas em saúde pública. "Ao matar e beber o sangue desses animais, a pessoa está se expondo a uma variedade de patógenos conhecidos e desconhecidos", adverte ele.

Os morcegos, em especial, possuem um histórico recente de relação com novos vírus, com sérias consequências aos humanos—como o EbolaSARS, e um primo do Ebola chamado Marburg. Em cada caso, um patógeno saiu de seu reservatório natural (outra espécie) e atingiu um grupo de pessoas com pouca exposição prévia e, consequentemente, fraca proteção imunológica—permitindo que um surto se transformasse em uma grande crise.

"Na verdade, são esses raros eventos de mudança que causam as epidemias", diz Bird. "Ao passo que sabemos que eventos de mudança são raros, trata-se de pessoas participando de atividades de alto risco, como consumir carne de animais selvagens, fazendo um evento incomum de mudança se tornar comum".