Animais

Pensamos que o urso estaria adormecido, mas estávamos enganados

Trocar o rastreador de um urso de cerca de 159 quilos durante a hibernação deveria ser uma tarefa de rotina — se ele estivesse dormindo profundamente.terça-feira, 5 de novembro de 2019

"Tínhamos outra tarefa desafiadora: levar um urso de cerca de 159 quilos, com o corpo totalmente mole, até a parte de cima do terreno nevado e de volta à toca em segurança, antes que ele acordasse", detalha o fotógrafo Corey Arnold.
"Tínhamos outra tarefa desafiadora: levar um urso de cerca de 159 quilos, com o corpo totalmente mole, até a parte de cima do terreno nevado e de volta à toca em segurança, antes que ele acordasse", detalha o fotógrafo Corey Arnold.

A NOSSA TAREFA ERA só trocar algumas baterias.

Mas as baterias estavam em um rastreador usado por um urso-negro macho no Parque Nacional de Bryce Canyon, no estado de Utah, Estados Unidos. Wes Larson, biólogo de vida selvagem da Brigham Young University que tentava descobrir formas de reduzir os conflitos entre humanos e ursos-negros em acampamentos no interior, havia me convidado para uma “pequena aventura”: sedar o urso enquanto ele estivesse hibernando.

Em um dia frio e ensolarado de fevereiro, Wes, seu irmão Jeff, seu assistente Jordan e eu seguíamos as coordenadas do GPS do rastreador do urso. Subimos por um desfiladeiro de terra vermelha coberto de vegetação alta do deserto e neve fresca. O sinal nos levou até o paredão de uma encosta íngreme. A temperatura caiu para um dígito enquanto vasculhávamos a neve, tentando localizar a entrada do esconderijo.

O sinal de rádio fraco nos levou a várias tocas vazias e, conforme a noite se aproximava, consideramos voltar. Então, houve o desabamento de uma cortina de neve, revelando uma caverna de arenito. Ela se estreitava, formando um túnel escuro, e já podíamos sentir na entrada o odor almiscarado de um animal selvagem.

O túnel era tão estreito que uma pessoa mal conseguia virar-se lá dentro, e ele fazia uma curva à esquerda, ocultando o que havia em seu interior. Wes não hesitou. Armado com um bastão expansível de um metro e oitenta com uma seringa com sedativo na ponta, ele entrou com tudo. Seu irmão foi engatinhando atrás dele.

Trinta segundos depois, os dois saíram correndo do túnel. O urso no qual eles instalaram o rastreador há um ano e meio agora pesava cerca de 159 quilos — e estava acordado. Wes conseguira aplicar o sedativo, então esperamos a substância fazer efeito. Quando os ursos-negros hibernam, sua respiração diminui e a temperatura corporal cai cerca de 6 graus Celsius — ficando baixa o suficiente para reduzir sua taxa metabólica pela metade, mas alta o suficiente para permitir que reajam ao perigo. Então, utilizando meus antebraços e joelhos para me locomover, segui Wes, me sentindo um pouco mais seguro sabendo que ele seria devorado antes de mim se o urso atacasse.

Quando fizemos a curva do túnel, nos deparamos com dois olhos arregalados. Ele ainda estava acordado. Eu rapidamente tirei a foto acima. Wes me disse para ficar parado enquanto ele recuava e preparava outra dose do sedativo; se o urso escapasse parcialmente sedado, ele poderia cair no desfiladeiro abaixo.

O urso começou a rastejar em nossa direção até eu ser forçado a sair da toca. Bloqueamos rapidamente a saída com mochilas e paus quando Wes injetou o sedativo novamente — mas ele atravessou a barricada com passos grogues e começou a rastejar pela encosta coberta de neve. Jeff e Jordan saltaram para segurar as patas traseiras, esforçando-se para não soltá-lo; Wes pulou sobre as costas do animal e agarrou seu rastreador.

O urso os puxou encosta abaixo e foi freado por alguns galhos de um pinheiro. O sedativo havia surtido efeito — ele estava dormindo. Wes e seu irmão trocaram o rastreador e verificaram seu estado de saúde, mas, a partir dali, tínhamos outra tarefa desafiadora: levar um urso de cerca de 159 quilos, com o corpo totalmente mole, até a parte de cima do terreno nevado e de volta à toca em segurança, antes que ele acordasse. Utilizamos cada músculo de nossos corpos para empurrar e puxar o animal. E conseguimos antes que o efeito do sedativo passasse.

Quando a primavera chegou, os sinais do novo rastreador indicaram que o urso havia retomado sua vida cotidiana — evitando novos contatos com humanos, assim esperamos.

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