Safári de sapos: turistas podem ajudar a proteger os anfíbios da Costa Rica

Programas de turismo ecológico estão se empenhado na conservação desses animais cada vez mais vulneráveis.

Monday, January 6, 2020,
Por Lisa M. Krieger
A pele translúcida da perereca-de-vidro revela seus órgãos em ação, incluindo o coração bombeando sangue.
A pele translúcida da perereca-de-vidro revela seus órgãos em ação, incluindo o coração bombeando sangue.
Foto de Piotr Naskrecki, Naturepl.com

A Costa Rica recebeu o prêmio Campeões da Terra em 2019, a maior honra ambiental das Nações Unidas, pelo seu papel na proteção da natureza e no combate às mudanças climáticas. O país conta com várias opções de turismo ecológico que oferecem tirolesa, mountain biking, caiaque e observação de pássaros.

Mas agora a nação está descobrindo o valor de um ativo natural de menor tamanho — mas bastante ameaçado. Hotéis estão construindo lagos para receber sapos e parques estão organizando passeios para encontrar os anfíbios. Até mesmo o agitado e urbano aeroporto de San José tem um novo carpete com estampa de sapos.

Como o mundo fica cada vez mais quente e seco, o futuro dos sapos corre risco. Os anfíbios sobreviveram às últimas quatro grandes extinções, desde a era do gelo até a colisão de um meteoro. Mas agora, alguns fatores estão causando o desaparecimento dos anfíbios a taxas alarmantes.

A rã Agalychnis annae repousa em uma helicônia.
Foto de Greg Basco, Minden Pictures

Estima-se que 200 espécies de sapos já foram extintas, e outras centenas podem seguir o mesmo rumo. Isso acontece por diversos motivos. As espécies estão sucumbindo a uma combinação letal de fatores que incluem poluição, mudanças climáticas e perda e degradação de seu habitat. Todos esses fatores podem enfraquecer o sistema imune dos anfíbios, e agora um fungo está dando o golpe final.

A Costa Rica já perdeu seu lendário sapo-dourado — e os especialistas temem por outras espécies. Quando já não houver mais sapos para se alimentarem dos insetos, os ecossistemas perdem seu delicado equilíbrio.

Lamentar as perdas não é o suficiente, diz Kerry Kriger, fundador da organização sem fins lucrativos Save the Frogs. Viagens focadas em sapos podem intensificar a conexão entre anfíbios e humanos e incentivar esforços de conservação envolvendo algumas das criaturas mais lindas e carismáticas do mundo, ele argumenta.

Onde encontrar os sapos

Em um mundo que está perdendo anfíbios rapidamente, demos início à nossa jornada para encontrá-los. Nosso grupo de passeio, que incluiu um psiquiatra, um pediatra e um piloto instrutor do caça F-35 da Lockheed Martin, foi organizado pela Save the Frogs, um empenho para apoiar o número crescente de parques e ecolodges que protegem os habitats vitais dessas vulneráveis criaturas. “As nossas metas são: encontrar sapos, ir a lugares que têm muitos sapos e doar recursos a esses lugares para que continuem salvando os habitats e preservando os sapos”, diz o naturalista Michael Starkey.

Estávamos em uma densa floresta da Costa Rica. A água da chuva escorria pelo meu rosto e a água lamacenta dançava ao redor de minhas botas. Lancei minha lanterna contra a escuridão. Era aqui que encontraríamos nossos sapos.

Eles nos atraíram com uma estranha orquestra noturna: notas de baixo e flautim, sons semelhantes a latidos e assovios, coaxes e soluços. Viajamos milhares de quilômetros para avistá-los e agora estavam ao nosso redor. Ainda assim, por incrível que pareça, era impossível vê-los. Então, através da densa vegetação, ouvi vozes animadas e vi uma confusão de feixes de luz provenientes das lanternas.

A rã-de-olhos-vermelhos assusta os predadores quando abre seus olhos, dando a ela tempo para fugir rapidamente.
Foto de Christian Ziegler, Minden Pictures

 

“Bem ali. Embaixo dessa folha”, sussurrou Starkey. Agachamos em volta de um pequeno arbusto, semicerrando os olhos para conseguir ver algo. Uma pequena perereca-de-vidro nos encarava de volta.

Translúcida e parecendo uma pedra preciosa, essa perereca logo foi acompanhada por dezenas de outras espécies avistadas nos dias úmidos que se seguiram: a rã-morango, a rã Leptodactylus pentadactylus, o anuro Smilisca phaeota, o anuro Dendropsophus ebraccatus, a rã-de-olhos-vermelhos, a perereca Scinax e outros.

É um jogo viciante, caçar olhos que brilham como joias no escuro. Temos listas, como os observadores de pássaros. Temos nosso próprio jargão. Nossos horários são estranhos, damos tapas em mosquitos e usamos sapatos fechados para evitar mordidas de cobras.

Assim como a observação de pássaros, o avistamento de anfíbios exige paciência e perseverança. É uma visão íntima da natureza, repleta de frustrações e também de descobertas.

As chances são melhores sob condições ruins. Escolhemos o mês de julho, no meio da estação chuvosa, quando as nuvens engolem montanhas inteiras. Após vários dias, as malas adquiriram um odor apelidado de “fedor da selva”.

Não é totalmente necessário ter um guia, mas recomendamos ter um, principalmente se suas habilidades para encontrar anfíbios estiverem enferrujadas. Starkey, que é nativo de Sacramento e tem uma salamandra-gigante tatuada em seu braço, possui vasta experiência em analisar folhas, caules e margens de lagos.

A pele da rã-morango produz toxinas, o que a ajuda a se proteger de predadores famintos. Essa espécie também é conhecida como “blue jeans” por causa de suas pernas no tom azul.
Foto de Piotr Naskrecki, Minden Pictures

 

“Bem ali. Embaixo dessa folha”, sussurrou Starkey. Agachamos em volta de um pequeno arbusto, semicerrando os olhos para conseguir ver algo. Uma pequena perereca-de-vidro nos encarava de volta.

Translúcida e parecendo uma pedra preciosa, essa perereca logo foi acompanhada por dezenas de outras espécies avistadas nos dias úmidos que se seguiram: a rã-morango, a rã Leptodactylus pentadactylus, o anuro Smilisca phaeota, o anuro Dendropsophus ebraccatus, a rã-de-olhos-vermelhos, a perereca Scinax e outros.

É um jogo viciante, caçar olhos que brilham como joias no escuro. Temos listas, como os observadores de pássaros. Temos nosso próprio jargão. Nossos horários são estranhos, damos tapas em mosquitos e usamos sapatos fechados para evitar mordidas de cobras.

Assim como a observação de pássaros, o avistamento de anfíbios exige paciência e perseverança. É uma visão íntima da natureza, repleta de frustrações e também de descobertas.

As chances são melhores sob condições ruins. Escolhemos o mês de julho, no meio da estação chuvosa, quando as nuvens engolem montanhas inteiras. Após vários dias, as malas adquiriram um odor apelidado de “fedor da selva”.

Não é totalmente necessário ter um guia, mas recomendamos ter um, principalmente se suas habilidades para encontrar anfíbios estiverem enferrujadas. Starkey, que é nativo de Sacramento e tem uma salamandra-gigante tatuada em seu braço, possui vasta experiência em analisar folhas, caules e margens de lagos.

O anuro Smilisca phaeota, com um nome em inglês que faz referência à faixa escura em sua face (masked tree frog), pode mudar de cor, indo do marrom claro para o verde conforme o dia se transforma em noite.
Foto de Rolf Nussbaumer, NPL/Minden Pictures

Nossa viagem havia começado nos arredores de San José, no Bougainvillea Hotel. Em uma área de 4,5 hectares, diversos pequenos lagos em seus jardins foram construídos especificamente para servirem como local de reprodução de espécies ameaçadas, como a rã Rana forreri e a rã Rana warszewitschii.

Então vasculhamos o chão das florestas ao redor da hospedagem La Quinta Sarapiquí Lodge, duas horas ao norte de San José, encontrando as rãs Leptodactylus pentadactylus. Instalada em uma fazenda de gado, essa hospedagem familiar está construindo jardins selvagens para servirem de habitat e atraírem sapos, borboletas, pequenos mamíferos e pássaros.

No lento e lamacento Rio Sarapiquí, passamos de barco por crocodilos que nos observavam com ar de irritação, apenas olhos e narinas sobre a superfície. Iguanas observavam de cima dos topos das árvores.

A semana se tornou um jogo do tipo ‘onde está o Wally’ da vida selvagem. Na hospedagem Arenal Oasis Eco Lodge, na cidade montanhosa de La Fortuna, nosso passeio noturno nos rendeu 13 espécies diferentes de anfíbios. Guias, como aqueles dos impressionantes safáris de Serengeti, se comunicam por telefone, e quando encontram uma criatura interessante todos correm para tentar avistá-la.

Descobertas da vida selvagem

Rainmaker, uma reserva perto da costa do Pacífico, é apreciada pelo seu papel na redescoberta de uma espécie de rã-arlequim que se acreditava estar extinta. Antes propriedade de um agricultor de arroz, essa terra correu risco de ter todas as suas árvores cortadas. Hoje, é um santuário privado, localizado ao final de uma longa e acidentada estrada de terra, e hospeda pequenos grupos para passeios em busca dos primeiros pássaros da manhã e de sapos de hábitos noturnos. Mas o que gostamos mais foi de sua incongruente microcervejaria, a Perro Vida, que produz cervejas artesanais feitas com água de nascentes da montanha.

No escuro, fizemos caminhada entre as pontes suspensas da reserva e subimos por trilhas feitas de velhos pneus, parando para espiar dentro de pequenos buracos, onde encontramos os estranhos e misteriosos lagartos Lepidophyma flavimaculatum.

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