Animais selvagens também praticam distanciamento social para evitar adoecer

Algumas espécies, como chimpanzés e abelhas, tomam medidas rigorosas para impedir a propagação de doenças.

terça-feira, 14 de abril de 2020,
Por Sydney Combs
Chimpanzés atacam e expulsam outros membros do grupo que visivelmente apresentam doenças.

Chimpanzés atacam e expulsam outros membros do grupo que visivelmente apresentam doenças.

Foto de Michael Nichols, Nat Geo Image Collection

Muitas pessoas nos países mais afetados pela pandemia do novo coronavírus estão lutando para evitar o contato social e ficar em casa, incluindo milhões de norte-americanos que foram obrigados pelas autoridades a praticarem o isolamento a fim de impedir a propagação da covid-19.

Mas o distanciamento social não é um conceito novo na natureza, onde as doenças infecciosas são comuns. Na verdade, várias espécies sociáveis expulsam membros de sua própria comunidade quando estão infectados por um patógeno.

É desafiador, porque nem sempre os indivíduos infectados podem ser “facilmente identificados”, explica Joseph Kiesecker, cientista líder da The Nature Conservancy.

No entanto, por meio de sentidos especializados, os animais conseguem detectar certas doenças — algumas vezes antes que apareçam sintomas visíveis — e mudar seu comportamento para evitar adoecer.

Abelhas e chimpanzés, por exemplo, podem ser cruéis quando se trata de expulsar os doentes.

As doenças bacterianas que atingem as colônias de abelhas, como a cria pútrida americana, são especialmente devastadoras, atacando as larvas de abelha de dentro para fora. “É daí que o nome vem, a doença tem um aspecto pegajoso e marrom. Cheira muito mal”, explica Alison McAfee, pós-doutoranda do departamento de Entomologia e Patologia Vegetal da Universidade Estadual da Carolina do Norte.

As larvas infectadas liberam certas substâncias químicas que as abelhas mais velhas conseguem detectar, como ácido oleico e β-ocimeno, um feromônio da abelha, de acordo com a pesquisa de McAfee. Uma vez identificados, as abelhas fisicamente removem esses membros doentes da colmeia, explica ela.

Como essa adaptação evolutiva protege a saúde da colônia, há décadas os apicultores e pesquisadores empregam técnicas de reprodução seletiva para esse comportamento. Essas abelhas mais “higiênicas” agora estão por toda a parte nos Estados Unidos.

‘De fato não é tão diferente’

Em 1966, enquanto estudava chimpanzés no Parque Nacional Gombe Stream, na Tanzânia, Jane Goodall observou um chimpanzé chamado McGregor que havia contraído poliomielite, uma doença causada por um vírus muito contagioso.

Os demais chimpanzés do grupo o atacaram e o expulsaram. Em uma das cenas, o chimpanzé parcialmente paralisado se aproximou de chimpanzés que estavam procurando parasitas nos pelos uns dos outros, em uma árvore. Carente de contato social, ele estendeu a mão em saudação, mas os outros se afastaram sem olhar para trás.

“Por dois minutos, [McGregor] ficou imóvel, olhando para eles”, observa Goodall em seu livro de 1971, In the Shadow of Man (Na sombra do homem, em tradução livre).

“De fato, não é tão diferente de como algumas sociedades reagem hoje a situações como essa”, disse ela ao jornal Sun Sentinel em 1985.

Durante sua pesquisa, Goodall registrou outros casos de chimpanzés com poliomielite que foram excluídos, embora tenha notado que, em alguns casos, indivíduos infectados foram, em algum momento, recebidos de volta ao grupo.

Como os humanos, os chimpanzés são criaturas visuais, e algumas pesquisas sugerem que o estigma inicial em relação aos chimpanzés com poliomielite pode ser causado pelo medo e nojo de sua desfiguração — que faz parte da estratégia de evitar a doença que causa tais deformações.

‘Mais inteligente que o acaso’

Nem todos os animais são tão agressivos com seus companheiros doentes; às vezes, pode ser tão simples quanto evitar aqueles que podem infectar você.

Antes de Kiesecker começar a estudar girinos de rã-touro-americana no fim da década de 1990, modelos que previam a disseminação de doenças em grupos de animais silvestres supunham que o contato com indivíduos infectados fosse aleatório.

Eles acreditavam que todos os membros da população tinham a mesma chance de adoecer.

“Mas ficou claro que os animais são mais inteligentes”, diz Kiesecker.

Em seus experimentos, Kiesecker descobriu que os girinos não somente conseguiam detectar uma infecção fúngica mortal em outros girinos, como também os membros saudáveis evitavam ativamente aqueles que estavam doentes. Assim como as abelhas, os girinos se baseiam em sinais químicos para saber quem está doente ou não.

As lagostas espinhosas do Caribe também evitam os membros doentes de sua comunidade, muito antes de se tornarem contagiosos.

Normalmente, leva cerca de oito semanas para que as lagostas infectadas com o vírus mortal Panulirus argus se tornem contagiosas. Geralmente animais sociáveis, as lagostas começaram a evitar os doentes já após quatro semanas do início da infecção — uma vez que as lagostas conseguem detectar substâncias químicas liberadas pelos indivíduos infectados.

Escolhendo o parceiro ideal

Quando se trata de acasalamento, muitas espécies são exigentes quanto à escolha de um parceiro saudável.

Camundongos fêmeas, por exemplo, dão uma boa farejada para determinar se possíveis parceiros estão infectados. Se a fêmea farejar uma infecção parasitária na urina do macho, ela provavelmente buscará outros companheiros mais saudáveis, de acordo com pesquisadores da Universidade de Western Ontario.

Lebistes machos enfrentam um escrutínio semelhante por parte de suas possíveis parceiras. Peixes fêmeas preferem parceiros livres de parasitas: uma combinação de pistas visuais da infecção, como barbatanas presas e palidez, e certas substâncias químicas liberadas da pele infectada denunciam os machos doentes.

No geral, é importante observar que, diferentemente de nós, os animais não sabem que “se ficarem em casa, poderão realmente reduzir a taxa de transmissão”, explica Kiesecker. “Como humanos, temos essa capacidade. É uma grande diferença.”

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