Macacos ainda são forçados a colher cocos na Tailândia, apesar de polêmicas

Meses após os relatos de que os produtores de coco da Tailândia dependem da mão de obra de macacos, uma nova investigação revela que pouco foi feito a respeito.

Published 23 de fev de 2021 17:00 BRT
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Macacos da espécie Macaca nemestrina são treinados para subir em palmeiras e colher cocos em plantações em todo o sul da Tailândia. Quando não estão trabalhando, geralmente são mantidos acorrentados.

Proprietários rurais da Tailândia ainda exploram mão de obra de macacos para abastecer o mercado internacional com cocos, segundo novas informações da filial asiática da organização não governamental (ONG) People for the Ethical Treatment of Animals (“Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais”, em tradução livre, “Peta”).

A exploração segue ocorrendo mesmo após seis meses da divulgação das conclusões de uma investigação secreta conduzida pela organização de direitos dos animais em 2019. O relatório fez com que empresas produtoras de coco, redes de supermercados e o governo tailandês fornecessem garantias de que os macacos não seriam mais forçados a colher cocos.

A Tailândia é o terceiro maior exportador mundial de cocos, depois da Indonésia e das Filipinas, tendo exportado mais de 500 mil toneladas em 2019. A popularidade do leite de coco como alternativa ao leite de vaca tem crescido de forma  constante nos últimos cinco anos, afirma Avinash Desamangalam, gerente de pesquisas da Mordor Intelligence, empresa com sede na Índia que estuda o mercado de alternativas a laticínios. Ele afirma que a taxa de crescimento do setor deve praticamente dobrar nos próximos cinco anos.

Mas desde a primeira investigação da Peta, alguns varejistas de derivados de coco informaram uma queda de até 30% nas vendas, segundo Desamangalam. Simultaneamente, varejistas como a Target e a Costco anunciaram que não estocarão mais produtos de empresas em que for constatada a exploração de mão de obra de macacos.

“É um paradoxo”, afirma Desamangalam. Os consumidores esperam que o leite de coco seja livre de crueldade por não ser proveniente de animais, mas, na realidade, “há muita crueldade nos trabalhos forçados feitos pelos macacos”.

A Peta documentou de que maneira macacos da espécie Macaca nemestrina são treinados, às vezes em “escolas de macacos”, para subir em árvores e colher cocos. Quando os macacos não estão trabalhando, geralmente são mantidos acorrentados e transportados em gaiolas apertadas demais para conseguirem se virar, segundo as imagens da Peta. É provável que diversos deles tenham sido capturados ilegalmente na natureza quando ainda eram bebês, de acordo com a organização. Os investigadores encontraram macacos sozinhos e aflitos — gritando e andando de um lado para o outro sem parar, em sinal de ansiedade. Alguns não possuíam os dentes caninos, extraídos para evitar que machucassem seus tratadores, declararam os produtores à Peta.

A PetaONG está “certa em afirmar que nada mudou” desde sua primeira investigação, afirma Edwin Wiek, consultor de bem-estar animal do parlamento tailandês. Wiek, que também é diretor e fundador do Wildlife Friends Foundation, santuário de animais silvestres, estima que até três mil macacos sejam explorados em plantações de coco ao sul da Tailândia, a principal região de abastecimento da indústria do leite de coco.

Macacos da espécie Macaca nemestrina são protegidos por lei na Tailândia, onde sua posse é proibida, a menos que sejam criados em cativeiro. Os infratores estão sujeitos a multa ou dois anos de prisão, embora uma sentença desse teor nunca tenha sido proferida, conta Wiek. Ele afirma acreditar que cerca de metade dos macacos explorados pelos produtores de coco tenham sido capturados na natureza e, portanto, sejam mantidos ilegalmente.

Alguns produtores de coco disseram aos investigadores que os inspetores anunciavam as visitas de fiscalização com antecedência ou que os macacos eram mantidos fora da propriedade.

Após a divulgação da investigação da Peta na metade do ano passado, o site de turismo do governo tailandês tirou do ar páginas que promoviam escolas de macacos, porém “não tomou nenhuma outra medida significativa” para erradicar a exploração dos macacos, segundo Jason Baker, vice-presidente sênior da Peta da Ásia, que lidera ambas as investigações. Alguns órgãos do governo alegam que os macacos não são empregados na colheita do coco, outros dizem que estão em um processo gradual de eliminação da mão de obra de macacos e ainda outros dizem que a exploração de macacos na colheita do coco faz parte da cultura local, segundo Baker.

Representantes do Departamento de Parques Nacionais, Fauna Selvagem e Conservação da Flora da Tailândia e do Ministério do Comércio não responderam aos pedidos de comentários sobre as alegações da Peta no que concerne a exploração de mão de obra de macacos na indústria do coco e a resposta do governo a essas alegações.

Leis de bem-estar animal não são aplicáveis

Após as alegações da Peta na metade do ano passado, a Chaokoh — fabricante de destaque de leite de coco que abastece supermercados dos Estados Unidos, como o Albertsons e o Kroger — e outras empresas de derivados de coco enviaram voluntariamente inspetores às propriedades de seus fornecedores.

Durante sua auditoria independente, a Chaokoh alegou que não encontrou nenhuma evidência de uso de mão de obra de macacos, mas, segundo a avaliação dos auditores, os inspetores visitaram 64 propriedades — menos de 8% de suas 817 fornecedoras de coco. Uma “lástima”, afirma Baker.

Ainda que houvesse sido testemunhado o uso de mão de obra de macacos, as leis de bem-estar animal da Tailândia são aplicáveis apenas a animais domésticos, explica Wiek. “Há pouca ou nenhuma fundamentação legal para ajuizar processos judiciais contra pessoas que maltratam animais silvestres.”

Durante a investigação secreta de acompanhamento da Peta, que envolveu visitas de fiscalização a 14 propriedades de coco, duas escolas de macacos e uma competição de colheita de coco, alguns proprietários disseram aos investigadores que os inspetores da Chaokoh anunciavam suas visitas com antecedência para que os macacos pudessem ser escondidos. Outros produtores disseram aos investigadores que mantêm seus macacos fora da propriedade até precisarem deles, o que torna menos provável a presença de macacos durante a fiscalização dos inspetores.

A Chaokoh não respondeu a um pedido de comentários sobre as inspeções de seus fornecedores de coco, mas em declaração publicada nas redes sociais em 10 de julho de 2020, alegou: “nossa empresa e nossos associados não apoiam o uso de mão de obra de macacos na colheita de cocos.” Afirmou ainda que, a partir de agora, as inspeções serão obrigatórias para todos os seus fornecedores.

Se os produtores de coco e fabricantes de derivados de coco não abandonarem o uso da mão de obra de macacos, mais consumidores e grandes varejistas podem exigir essa mudança, afirma Desamangalam, que acredita que os clientes ocidentais em especial buscarão alternativas não lácteas ao leite de coco, como leite de soja ou de amêndoa.

‘Absurdo’

“Praticamente todo o artigo original da Peta é um absurdo”, escreveu Arjen Schroevers, cuja esposa, Somjai Saekhow, é dona da escola de macacos ‘First Monkey School’, ao sul da Tailândia, por e-mail.

Schroevers, que chama a Peta de “organização vegana militante”, reitera que os macacos estão felizes com o treinamento. “Apreciam a atenção e gostam de trabalhar. Não há absolutamente nenhuma violência ou coação. Os diversos proprietários de macacos que conhecemos trabalham em silêncio com seus macacos. Sem gritar, sem bater neles.”

Schroevers negou que os dentes dos macacos sejam extraídos e explicou que os animais são transportados em gaiolas apertadas pela sua segurança. Em referência às filmagens da Peta, comentou que, quando estranhos com câmeras se aproximam dos macacos, os animais ficam ansiosos, o que torna “muito fácil tirar fotos de macacos parecendo assustados”.

Quando a Peta visitou a First Monkey School, que treina macacos para colher cocos e é aberta ao público por um ingresso de 150 baht, ou cerca de US$ 5, os investigadores documentaram macacos acorrentados se apresentando a turistas, macacos subindo em árvores para colher cocos diante de multidões e um macaco passeando com turistas em uma lambreta.

Obrigar macacos a colher cocos é errado, afirma Baker, mas ainda pior é “a solidão e o isolamento enfrentados em período integral por esses animais”. Ele considera “tortura mental” a retirada dos animais de suas famílias selvagens, sua manutenção ao ar livre em condições climáticas extremas e seu isolamento sem possibilidade de socialização. Estudos mostram que os macacos — assim como os demais primatas, incluindo a raça humana — são animais sociais que precisam da companhia de seus iguais.

“Gostaria que refletissem sobre a vida desses macacos, não apenas sobre seu trabalho na colheita do coco”, afirma ele.

Resgates de macacos

Diante das revelações sobre a exploração da mão de obra de macacos e das dificuldades financeiras devidas à pandemia de covid-19, alguns produtores de coco entregaram seus macacos a centros administrados pelo governo ou ao santuário Wildlife Friends Foundation, de Wiek.

Nos últimos meses, o santuário — que já contava com aproximadamente 300 macacos, mais de 40 resgatados de propriedades de coco — acolheu mais quatro e espera uma nova leva de animais em breve. Mais animais aguardam na lista de espera, mas a escassez de recursos devido à pandemia em curso impediu o santuário de aceitá-los neste momento, observa Wiek.

Embora, há 15 anos, cerca de 15 mil macacos trabalhassem em propriedades de coco, atualmente restam apenas cerca de três mil animais nessa atividade.

Foto de Henry Ausloos, Alamy Stock Photo

Wiek teme que alguns produtores de coco nervosos estejam soltando macacos na natureza, onde perderam a capacidade de sobreviver após uma vida inteira em cativeiro.

Ele explica que os quatro últimos resgates foram de animais explorados na colheita do coco para consumo pessoal humano. Dois eram jovens e provavelmente ainda não haviam sido treinados para colher cocos, mas os outros dois — chamados Saen e Mhuen — eram mais velhos e estavam “em péssimas condições”, de acordo com Wiek.

Quando foi buscá-los, encontrou os animais acorrentados a um poste, sem proteção contra a chuva ou o sol e sem água potável. Também estavam sem os dentes caninos, lamenta Weik, e Saen tinha uma hérnia enorme, que precisava de tratamento imediato.

Mas agora estão se adaptando bem à sua nova vida, desfrutando de uma dieta saudável — frutas e vegetais em vez de sobras de frango e arroz — e interagindo com os demais macacos. Depois de uma vida toda acorrentados e sozinhos, é um “choque cultural”, explica Wiek, mas Saen é “extremamente simpático”.

A prática na Tailândia de explorar a mão de obra de macacos na colheita de cocos está desaparecendo gradualmente, destaca Wiek. Assim como ocorre com os passeios de elefantes e touradas, as pessoas estão começando a repensar as velhas práticas culturais que envolvem o sofrimento animal. Ele estima que, há 15 anos, cerca de 15 mil macacos trabalhassem em propriedades de coco. Hoje, são três mil animais.

Para reduzir ainda mais esse número, Kent Stein, diretor de responsabilidade corporativa da Peta, sugere ao governo tailandês subsídios à compra de equipamentos para a colheita de coco, para que produtores e trabalhadores contratados, em vez de macacos, possam fazer esse serviço.

Desamangalam afirma que, se os produtores e exportadores de coco da Tailândia esperam sobreviver, o governo deve implantar um sistema confiável de auditoria independente de propriedades de coco para garantir que a mão de obra de macacos não seja explorada — assim como são aplicados procedimentos de controle de qualidade e regulamentações à agricultura orgânica. Os custos de colheita aumentarão, admite ele, mas os consumidores estão dispostos a pagar mais por produtos sem crueldade.

“Sob todas as perspectivas, faz sentido que todas as partes envolvidas abandonem completamente o uso da mão de obra de macacos”, alerta Desamangalam.

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