Comunidades quenianas podem coexistir com a seca e a vida selvagem?

Com o clima cada vez mais árido no Chifre da África, algumas pessoas enxergam os animais como uma ameaça aos escassos recursos, enquanto outras comunidades se reúnem para protegê-los. 

Um veículo arrasta a girafa morta encontrada no reservatório seco no condado de Wajir. Guardas-florestais acreditam que a girafa morreu algumas semanas antes, já fraca de fome e desidratação, antes de ficar presa na lama. A movimentação do corpo da girafa evita que a lama seja contaminada.

Foto de Ed Ram
Por Neha Wadekar
fotografias de Ed Ram
Publicado 10 de mai. de 2022 18:20 BRT

Condado de Wajir, Quênia | Os homens dentro de um caminhão de safári estavam em silêncio e tensos enquanto paravam ao lado de seu alvo. Uma jovem girafa macho descansava sob a sombra de uma árvore alta, buscando alívio do sol intenso de março. Ao ouvir o caminhão se aproximar, o animal esticou o pescoço comprido e ergueu as orelhas. 

O homem no banco do passageiro apontou a arma e puxou o gatilho, acertando a girafa na lateral. De dentro do carro, o grupo soltou um grito abafado quando o animal encolheu. 

Um homem no banco de trás ajustou o cronômetro em seu relógio. "Sete minutos até ele cair", sussurrou. 

A girafa cambaleou, mas saiu galopando pela pradaria. Ela arrastava um tronco de 1,80m, preso por um fio elétrico na pata traseira. Os homens – uma equipe de veterinários do governo e de uma organização sem fins lucrativos de conservação – estavam lá para sedá-la e remover a armadilha armada por caçadores. Se não o fizessem, predadores humanos ou animais provavelmente matariam a girafa naquela noite.

Os marabus são necrófagos e frequentemente seguem abutres para encontrar alimentos. O número de carnívoros na área despencou como resultado indireto da seca. A sede e a fome têm empurrado os predadores para mais perto das cidades, e as pessoas têm reagido colocando veneno que mata não apenas as espécies visadas, mas também as aves e outras espécies.

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A equipe correu atrás da girafa e laçou as pernas do animal, que caiu de lado. Um veterinário se agachou ao lado da cabeça da girafa e a segurou, cobrindo os grandes olhos castanhos e os longos cílios do mamífero com uma toalha. Um outro veterinário usou alicate para cortar o fio elétrico. Enquanto trabalhavam, homens de uma vila próxima os cercaram, derramando água no corpo da girafa para protegê-la do calor.

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A ação acabou em minutos. Os veterinários administraram remédio e tranquilizante, e gritaram para que a multidão se afastasse. Eles empurraram a cabeça da girafa para cima e a ajudaram a ficar de pé. Ela olhou ao redor, como se estivesse surpresa ao ver tantas pessoas próximas. Então, se arrastou até uma árvore próxima, levantou a cabeça e começou a comer. 

As girafas no Quênia: uma espécie ameaçada

Nos últimos 35 anos, o número de girafas reticuladas (também conhecidas como somalis), que hoje vivem quase exclusivamente no norte do Quênia, caiu de 36 mil para menos de 16 mil – um declínio de 56%. A subespécie foi classificada como ameaçada pela União Internacional para a Conservação da Natureza, em 2018. As causas pelo grande número de girafas mortas incluem décadas de conflitos tribais por terra e recursos, violência do grupo terrorista al-Shabaab, com sede na Somália, e, talvez mais urgente, por causa das mudanças climáticas, que aceleraram a perda de habitat e aumentaram a caça furtiva na região. 

O Chifre da África sofreu três temporadas consecutivas de chuvas escassas, que foram associadas às mudanças climáticas. Outra estação chuvosa fraca fará com que esta seja a seca mais longa que a região experimentou em quatro décadas. Cerca de 20 milhões de pessoas precisam de ajuda alimentar urgente, à medida que as colheitas falham e o gado morre. Especialistas em clima dizem que mesmo uma estação chuvosa média não seria suficiente para desfazer os danos dos últimos anos.

À medida que a competição entre pessoas e animais selvagens por recursos escassos na área se tornava cada vez mais mortal, Sharmake Yussuf tornou-se determinado a encontrar uma maneira de ajudar as pessoas a prosperar ao lado da vida selvagem, em vez de vê-la como uma ameaça. Desde 2011, ele tem trabalhado diretamente com os habitantes locais nos esforços de conservação da comunidade.

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Yussuf e o cientista conservacionista Abdullahi Ali participam  de uma reunião comunitária nos arredores de Garissa, cidade natal de Ali. Aqui, homens e mulheres se reuniram sob uma acácia para discutir a importância da vida selvagem, conservação e proteção dos animais da caça furtiva.

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“A seca é um desastre de início lento, que se arrasta vagarosamente, mas tem um impacto sério”, diz Jully Ouma, climatologista do Centro de Previsão e Aplicação do Clima Igad, em Nairóbi. “Leva tempo para se recuperar.”

Hoje, os condados do nordeste de Garissa, Wajir e Mandera estão cobertos de poeira vermelha. Os arbustos e as árvores estão mortos. E o ar cheira a carne podre das carcaças de cabras, camelos e burros que morreram de fome e sede ao longo das estradas. 

A seca não diferencia os animais de criação da vida selvagem. Mas, de várias formas, os animais selvagens são muito mais vulneráveis ​​aos efeitos da estiagem do que os parentes domesticados. “Para as criações, os humanos podem movê-las e direcioná-las para onde acham que estão o pasto e a água, mas a vida selvagem precisa sobreviver por conta própria”, diz Ouma.

As mudanças climáticas estão atingindo os animais selvagens da região em várias frentes. Está exacerbando o conflito entre humanos e a vida selvagem e a destruição do habitat, já que os pastores, tradicionalmente nômades, perdem suas criações e se estabelecem no que antes era o habitat da vida selvagem. Há aumento da caça ilegal à medida que moradores e refugiados matam animais para eliminar a competição por recursos escassos, alimentar a si mesmos e suas famílias ou vender a carne por um pouco de dinheiro. A vida selvagem também é afetada diretamente, pois os animais simplesmente caem mortos pelo calor extremo e pela falta de comida e água. 

Ativistas da vida selvagem local estão criando áreas de conservação comunitárias em todo o nordeste do Quênia para proteger espécies únicas, incluindo a girafa reticulada, o antílope hirola, criticamente ameaçado, a zebra-de-grevy, ameaçada de extinção e o avestruz-somali. Mas, sem intervenções em larga escala para conter a destruição das mudanças climáticas, as gerações futuras podem nunca ter a oportunidade de viver entre esses animais raros.

Uma foto aérea mostra girafas ao entardecer perto de Garissa enquanto viajam em busca de água.

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Em um santuário de girafas em Garissa, um bebedouro artificial acaba de ser enchido. Girafas sedentas vêm das redondezas para beber quando não conseguem encontrar água em outro lugar. Para preencher o buraco, voluntários carregam água do rio Tana, nas proximidades.

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Comunidade e vida selvagem

Em 2011, Sharmake Yussuf, de 48 anos, estava dirigindo pela rodovia M1 de Londres para Sheffield quando recebeu uma ligação de sua madrasta, que vive no condado de Wajir, no Quênia. 

Yussuf, um queniano-somali que trabalhava como engenheiro de sistemas no Reino Unido há 20 anos, havia comprado alguns camelos, muito valorizados na cultura somali, vários meses antes. A madrasta de Yussuf o informou que um leão havia matado e comido um de seus animais premiados. Azar, pensou Yussuf antes de esquecer o incidente. 

Em sua viagem de volta a Londres, no dia seguinte, a madrasta de Yussuf ligou novamente. Ela havia envenenado a carcaça do camelo, contou-lhe com orgulho, e o leão teve uma morte agonizante quando voltou para terminar sua refeição. Yussuf ficou furioso. Para ele, o leão era muito mais precioso do que o camelo. Mas a morte de animais por vingança sempre fez parte da cultura pastoril somali – uma forma de garantir que predadores como leões, hienas e guepardos continuem comendo animais selvagens e não desenvolvam o gosto pelo gado. 

“Percebi como minha comunidade vê a vida selvagem e tomei a decisão de tentar fazer algo para mudar a forma como eles veem a conservação”, diz Yussuf. Ele retornou ao Quênia alguns meses depois e percebeu quão poucas unidades de conservação e reservas existiam no nordeste do país. Até os veterinários que vieram resgatar a jovem girafa macho foram trazidos de Nairóbi, a mais de 320 km de distância, e Meru, a cerca de 220 km de distância.

Um veículo arrasta a girafa morta encontrada no reservatório seco no condado de Wajir. Guardas-florestais acreditam que a girafa morreu algumas semanas antes, já fraca de fome e desidratação, antes de ficar presa na lama. A movimentação do corpo da girafa evita que a lama seja contaminada.

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O nordeste do Quênia, há muito visto por Nairóbi (a capital) como uma região problemática, tem recebido relativamente pouco investimento do governo em infraestrutura e desenvolvimento desde sua independência do domínio colonial britânico, em 1963. Isso tornou as comunidades locais especialmente vulneráveis ​​aos efeitos da seca e ao aumento da competição por recursos escassos, prejudicando a relação outrora pacífica entre humanos e vida selvagem. 

A instabilidade regional também significava que o nordeste era amplamente considerado como tendo pouca vida selvagem. Mas, em 2021, durante o primeiro censo nacional da vida selvagem do Quênia, pilotos aéreos que pesquisavam os condados de Garissa, Wajir e Mandera descobriram 6 mil girafas reticuladas, mais de um terço da população restante do mundo, 302 zebras-de-grevy e 141 leões.

Yussuf estava determinado a encontrar uma maneira de ajudar as pessoas a prosperar ao lado dessa vida selvagem, em vez de vê-las como uma ameaça. Ele se voltou para a conservação baseada na comunidade, considerada uma das formas mais sólidas de proteção. A terra que os guardas-florestais profissionais são responsáveis ​​por patrulhar é vasta demais. Assim, quando a comunidade se une em torno da proteção da vida selvagem, pode ser particularmente mais eficaz. As comunidades reservam terras para animais selvagens e, em troca, áreas de pastagem específicas são designadas para o gado. A presença de vida selvagem abundante também atrai o dinheiro de turistas estrangeiros.

Dificuldades para proteger a vida selvagem

Persuadir as comunidades a compartilhar suas terras com a vida selvagem, no entanto, não é fácil. Os pastores, muitas vezes, temem que a conservação signifique um número maior de predadores que ameaçam o gado, e que cercar certas áreas os impedirá de pastar vacas, cabras e camelos. O acesso a pastagens, historicamente, tem sido um ponto de debate acalorado entre pastores e conservacionistas.

Camelos bebem em um bebedouro perto da Sabuli Conservancy, uma faixa de terra de 510 mil acres fundada em 2018 e que agora é administrada por 30 guardas-florestais. Como em outras conservas comunitárias da região, a terra para pastagem de gado foi reservada para reduzir a competição por recursos entre animais selvagens e animais domésticos.

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Yussuf, de ombros largos e bem vestido, mesmo no calor mais fulminante, tem um sorriso brilhante e uma energia inesgotável para defender a proteção da vida selvagem na comunidade somali. Por sete anos, ele envolveu anciãos e imãs da comunidade, funcionários do governo local e moradores em torno da responsabilidade de cuidar desses animais. Não teria sentido avançar sem a bênção deles.

“Eu fui a uma aldeia de cada vez, a uma tribo de cada vez, a um subclã de cada vez”, diz ele.  

Sua persistência valeu a pena e, em 2018, ele formou a Conservação Sabuli, uma área de 206 mil hectares agora protegidos por 30 guardas-florestais. No ano passado, Yussuf fundou a Associação de Conservação do Nordeste (Neca, na sigla em inglês), uma organização guarda-chuva que une Sabuli e sete outras unidades de conservação, abrangendo quase 1 mi he. Outras 18 unidades de conservação foram propostas, o que elevaria a área total de terras protegidas para 2 mi he. 

Desafios para os animais e para um modo de vida

Nos arredores da cidade de Garissa, casas estão surgindo em ambos os lados da estrada principal. A população do Quênia cresceu quase sete vezes desde a década de 1960 e, à medida que as secas surgem com frequência e intensidade cada vez maiores, os pastores nômades estão abandonando seu modo de vida tradicional e se estabelecendo em aldeias.

Guardas-florestais do Serviço de Vida Selvagem do Quênia e moradores da vila Kursi inspecionam o reservatório artificial da comunidade em Sabuli Conservancy. O reservatório levou 20 anos para ser concluído, mas agora está diminuindo porque as girafas vêm cada vez mais à noite para matar a sede, irritando os moradores locais.

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Todas as noites, quando o sol se põe sobre o rio Tana, as girafas viajam de suas pastagens no leste pela estrada principal para beber. O que antes era um corredor de migração tradicional agora está bloqueado por altos muros de concreto, e as girafas andam de lote em lote em busca de uma abertura. Quando encontram um, correm pela estrada em grupos, cautelosas com os carros e as motocicletas em alta velocidade. 

[Você pode se interessar: ‘Agora ou nunca’: quatro conclusões alarmantes do relatório da ONU sobre o clima]

“Durante o dia, elas dão uma chance aos humanos de usar o rio e se afastam”, diz o Explorador da National Geographic Abdullahi Ali, um cientista conservacionista nascido em Garissa, especializado em girafas reticuladas e hirolas. “À noite, elas têm que voltar.” (Ali ganhou o National Geographic/Buffett Awards por Liderança em Conservação, em 2021.)

Ali se preocupa que um dia toda essa área seja cercada e as girafas sejam expulsas do habitat delas. “Isso seria uma grande catástrofe. Você consegue imaginar um mundo sem girafas?”

Pastores de caprinos e ovinos cuidam do gado enquanto bebem de um bebedouro no Sabuli Conservancy. Homens tinham acabado de expulsar um javali sedento do local. A seca matou gado, cabras, camelos e burros, levando muitos pastores a desistir do cultivo.

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Mulheres rolam barris de água de volta para a cidade depois de os recolher de um reservatório em Sabuli Conservancy. Mais uma estação chuvosa ruim fará com que esta seja a seca mais longa que a região experimentou em quatro décadas.

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O rio Tana fornece irrigação para algumas fazendas que cultivam feijão, manga e outras culturas perto de Garissa – elas são a salvação da população local. À medida que a seca se intensificou, as girafas começaram a se aventurar nessas fazendas à noite, enfrentando a possibilidade de interação humana para encontrar água. Elas pisoteiam as plantações, o que levou os agricultores a começar a patrulhar seus campos carregando facões e garrafas quebradas. Quando eles encontram uma girafa sedenta e desavisada, cortam suas pernas. 

“Ou você cuida das girafas, ou nós cuidaremos”, diz Habiba Bilow, 45, alertando os conservacionistas. Ela está pensando em desistir de sua fazenda por causa da destruição causada pelas girafas.

O Serviço de Vida Selvagem do Quênia compensa os pastores quando perdem seus animais para predadores, mas algumas pessoas esperam anos para ver o dinheiro. Enquanto isso, eles encontram outras maneiras de buscar retribuição. No ano passado, em Sabul, um leão matou duas vacas de leite, levando moradores locais furiosos a envenenar uma das carcaças. Quando o leão voltou para terminar sua refeição no dia seguinte, ficou cego, e a cidade o apedrejou até a morte. 

Explorador da National Geographic, Ali fundou o Programa de Conservação de Hirola, que visa trabalhar com as comunidades para deter a extinção silenciosa do raro e criticamente ameaçado antílope hirola em áreas ao longo da fronteira entre o Quênia e a Somália. Entre 300 e 500 hirolas permanecem na natureza, ameaçados pela perda de habitat, caça ilegal  e seca.

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Incidentes como esses também são responsáveis ​​pela morte de urubus e aves necrófagas, que limpam os restos de outros animais mortos. Hoje, a maioria dessas aves já foram mortas por envenenamentos. Os céus ficam vazios.

Caça ilegal de girafas

Yussuf estava em Garissa, em março, quando recebeu a notícia de que caçadores furtivos apareceram na Conservação Sabuli – a cerca de uma hora de carro do campo de refugiados de Dadaab, que abriga mais de 218 mil pessoas, a maioria somalis, que fugiram de conflitos, secas e fome em seu país. Os jovens refugiados têm poucas maneiras para se sustentar e a suas famílias, além de caçar e coletar lenha.

Yussuf estima que 63 girafas foram mortas por caçadores em todo o nordeste em 2021. Durante um período de cinco dias em março de 2022, os refugiados mataram três girafas em torno de Sabuli, provavelmente para vender a carne em barracas de açougue no campo e na fronteira com a Somália.

Alguns refugiados também trazem caravanas de burros para as áreas protegidas para buscar lenha para vender. A viagem a pé leva quase uma semana, e eles costumam caçar dik-dik (antílopes do gênero Madoqua) e outros pequenos animais para comer durante a jornada.

Guardas-florestais do Serviço de Vida Selvagem do Quênia pegam e sedam uma girafa nos arredores de Garissa, em março. A girafa tinha sido capturada em uma armadilha montada por caçadores e, sem ajuda, provavelmente teria sido morta na sequência por humanos ou predadores. Caçadores armam armadilhas para eliminar a competição por recursos escassos e vender a carne da girafa por uma renda extra.

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Um guarda-florestal joga água no corpo da girafa enquanto outro a ajuda a se levantar. Para ajudar o animal, a equipe o sedou com um dardo tranquilizante e removeu o arame de sua perna com um alicate.

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Yussuf organizou uma patrulha de caça com guardas-florestais do Serviço de Vida Selvagem do Quênia em Wajir, a polícia local e guardas-florestais da comunidade de Sabul. Armada e pronta, a caravana de veículos percorreu estradas empoeiradas e tortuosas que se transformavam em caminhos estreitos e sinuosos. Eventualmente, eles encontram um grupo de sete jovens relaxando debaixo de uma árvore, buscando descanso do calor de 37,7°C. Cada um tem uma carroça de burro empilhada com lenha de 3 m de altura. 

Os guardas saltam do carro e cercam os jovens, gritando palavras de ameaça. Eles revistam cada homem e descobrem várias facas de caça afiadas e serrilhadas, além de um saco de comida coberto de sangue. No final da estrada, eles encontram as pernas finas e frágeis de um dik-dik, quase todo comido. 

Os guardas consideram queimar toda a lenha para ensinar uma lição aos jovens, mas decidem não fazê-lo. As condições secas podem causar incêndios florestais incontroláveis. Em vez disso, eles derrubam as carroças, derramando no chão o conteúdo de cinco dias de trabalho. Quando os guardas forem embora, os refugiados pegarão as toras e as colocarão de volta nas carroças. Eles alugaram os carrinhos de empresários em Dadaab e não podem arriscar aparecer de mãos vazias. 

Devastação por causa das mudanças climáticas

Ali Gedi, um pastor de cabras de 50 anos e pai de 10 filhos, lembra-se dos dias antes das mudanças climáticas devastarem a região.

Homens de Garissa seguram um laço que foi preso ao pé de uma girafa — um cordão de metal grosso amarrado em um laço em uma extremidade e a um grande ramo na outra. Alguns membros da comunidade haviam encontrado a girafa e ficavam com ela durante a noite e no dia seguinte para protegê-las dos caçadores ilegais enquanto esperavam a chegada de uma equipe de resgate da cidade de Nanyuki, várias centenas de quilômetros a oeste de Garissa.

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“Eu costumava ver elefantes quando criança”, lembra. 

Mas os elefantes deixaram o nordeste do Quênia há muito tempo, expulsos pela caça ilegal e pela destruição do habitat, e os moradores locais sofreram com a perda. Os elefantes costumavam pisotear o mato com suas enormes patas achatadas, criando pastagens onde cabras e antílopes podiam pastar lado a lado. 

“Perdemos muitos benefícios quando os elefantes foram embora”, diz Gedi. “Não vamos permitir que o mesmo aconteça com as girafas.”

Gedi é de Eyrib, uma cidade nos arredores de Wajir que depende de vários grandes reservatórios construídos pelo governo na década de 1980. Mas nos meses finais de 2021, a maioria secou. Desde então, as girafas, incapazes de encontrar outra água, viajam para beber das pequenas poças de lama que ainda restam no centro dos enormes reservatórios.

Lenha cortada das árvores é empilhada em carroças puxadas por burros na Sabuli Conservancy. Refugiados do campo próximo a Dadaab frequentemente trazem caravanas de burros para as áreas de  corte  de lenha para que possam vendê-las. A viagem a pé leva quase uma semana, e eles frequentemente caçam dik-dik e outras pequenas espécies  para comer durante a jornada. Dadaab abriga mais de 218 mil refugiados, na maioria somalis, que fugiram de conflitos, da seca e da fome em seu país.

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Guardas-florestais do Serviço de Vida Selvagem do Quênia receberam a ligação em novembro do ano passado. Sete girafas ficaram presas na lama do reservatório. Algumas já estavam mortas, outras estavam fracas demais para sair. Os guardas correram para o local, mas os animais restantes, assustados e com dor, morreram antes de chegarem.  

Os guardas-florestais amarraram as girafas mortas em caminhões e arrastaram seus corpos para fora da lama para evitar a contaminação da água. Também colocaram seus corpos em um círculo, uma declaração pública sobre o que as mudanças climáticas farão com a vida selvagem do mundo, a menos que os humanos tomem medidas rápidas.

No total, mais de 215 girafas em toda a região morreram devido à seca entre agosto de 2021 e janeiro deste ano, estima Yussuf.

Ali Gedi, um pastor de cabras, posa para uma foto na cidade de Eyrib, na Sabuli Conservancy. A maior parte dos reservatórios de água da cidade secou por causa da seca. Os elefantes costumavam viver na região, mas saíram há muito tempo, expulsos pela caça ilegal  e pela destruição do habitat. "Não vamos permitir que o mesmo aconteça com as girafas", diz Gedi.

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Cerca de 30 hirolas também morreram durante essa seca. Apenas cerca de 500 dessas criaturas tímidas e sensíveis permanecem no mundo, então as mortes representaram quase 6% da população total. 

“Ninguém sabe sobre a situação do hirola”, diz Ali, o maior especialista do antílope no mundo. “Se eles não são carismáticos, não estão trazendo dinheiro para o governo através do turismo, então ninguém vai se importar.” 

Houve alguns esforços bem-sucedidos de conservacionistas e do governo para mitigar os danos causados ​​pelas mudanças climáticas. Em setembro passado, três caçadores foram presos com dois carros cheios de carne de girafa enquanto se dirigiam para a fronteira somali. Eles receberam um julgamento acelerado em Wajir, e dois deles foram condenados a seis anos de prisão, três anos a mais do que a sentença exigida. Para Yussuf, o veredicto foi bem-vindo, pois ele continua lutando em nome dos animais selvagens que não podem lutar por si mesmos. 

Em defesa das girafas e dos hirolas

Um dia antes de voar de volta para Nairóbi, Yussuf se encontrou com três homens de outras partes do condado de Wajir que querem iniciar novas unidades de conservação. A Conservação Jima foi estabelecida como uma organização comunitária na parte leste do condado, e os homens estão trabalhando para incluí-la sob o guarda-chuva da Neca. Yussuf sentou-se com eles por quase duas horas, falou sobre cada passo que eles devem dar para proteger com sucesso suas terras e os animais dentro deles. 

“Se você está fazendo isso por dinheiro, não há dinheiro”, Yussuf diz a eles. “Estamos fazendo isso para as gerações futuras.”

Duas girafas esperam para cruzar a estrada principal na periferia de Garissa, em busca de água do outro lado. Este já foi um corredor de migração muito utilizado, mas agora as casas estão surgindo em ambos os lados da estrada principal, pois a seca força as pessoas a saírem das áreas rurais e a se aproximarem da cidade. Muros altos de concreto cercam a estrada por longos trechos, forçando as girafas a se desviarem de seus longos caminhos para encontrar travessias.

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