Pequeno morcego voa mais de 2,4 mil quilômetros e quebra recorde

Pesando menos de 30 g, um morcego-de-nathusius voou da Rússia aos Alpes franceses em uma super jornada, algo que pode ser mais comum do que se imagina.

Por Christine Peterson
Publicado 16 de mai. de 2022 16:54 BRT
Os morcegos-de-nathusius (na foto, um animal na Alemanha) hibernam acima do solo.

Os morcegos-de-nathusius (na foto, um animal na Alemanha) hibernam acima do solo; eles precisam de lugares mais quentes para passar o inverno. 

Foto de Franz Christoph Robiller AP (272016)

Uma jovem fêmea de morcego-de-nathusius pesando menos de 30 g voou mais de 2,4 mil km, da Rússia até os Alpes franceses, o mais longo voo de morcego já registrado.

O morcego superou a distância anterior estabelecida por outro indivíduo da mesma espécie, que voou 2,2 mil km, da Letônia à Espanha, em 2017.

Os morcegos-de-nathusius são originários da Europa, têm pelo marrom-avermelhado e medem, em média, 22,86 cm. Os cientistas já sabiam que eles podem migrar várias centenas de quilômetros, mas o novo registro sugere que essas viagens longas fazem parte do ciclo de vida da espécie, diz Juan Tomás Alcalde, presidente da Associação Espanhola para a Conservação e Pesquisa de Morcegos em Madri, que registrou o voo de 2017.

“Duas migrações de mais de 2,2 mil km, na mesma direção, não são coincidência”, esclarece Alcade. “Há uma população dessa espécie migrando por longas distâncias pela Europa.”

Foto de Franz Christoph Robiller AP (272016), AP

A façanha do novo recordista passou completamente fora do radar, até que Jean-François Desmet, um ecologista animal do independente Grupo de Pesquisa e Informação sobre a Fauna nos Ecossistemas de Montanha, em Grifem, na França, descobriu a façanha.

Desmet ficou curioso quando soube de um morcego morto encontrado em um tanque de água perto de uma vila nos Alpes franceses, no outono de 2009. Os moradores tiraram fotos do animal, que carregava um pequeno anel de alumínio na pata, estampado com a palavra Rússia e um número. A partir dessas imagens, Desmet passou anos rastreando o cientista responsável, até chega em Denis Vasenkov, um pesquisador da Academia Russa de Ciências que havia identificado o animal na Reserva Natural da Biosfera Darwin, no noroeste da Rússia. 

“Foi apenas em março de 2021 que pude entrar em contato com Vasenkov”, conta Desmet, cuja descoberta foi publicada recentemente na revista científica Mammalia. “Isso possibilitou revelar a importância do deslocamento desse morcego”, esclarece.

Desmet e Alcade acreditam que esses morcegos estão viajando por distâncias ainda maiores do que as registradas até agora. Como as braçadeiras não estão equipadas com localizadores GPS, os pesquisadores só sabem onde e quando um morcego é encontrado.

E como o cálculo de 2.414 km é a distância em linha reta entre os dois pontos, é quase certo que o recordista voou muito mais longe em sua jornada – talvez até mais de 3 mil km, dizem os especialistas.

Morcegos além das fronteiras 

Dos cerca de 1,5 mil morcegos que Vasenkov capturou e identificou nos últimos 20 anos, essa fêmea notável é a única que foi encontrada fora do país e devolvida.

“Foi uma notícia muito empolgante”, diz Vasenkov, que estuda a migração de morcegos na Rússia. “Verificamos isso em mapas várias vezes porque era difícil de acreditar, apesar de sabermos que longas migrações são comuns para essa espécie.”

Os morcegos-de-nathusius geralmente passam os verões se reproduzindo e criando os filhotes no nordeste da Europa, antes de migrar para o sudoeste para hibernar nos meses mais frios. A espécie prefere hibernar acima do solo, em edifícios ou árvores, o que significa que eles precisam de mais calor do que os morcegos que hibernam em cavernas ou outros ambientes fechados. 

A fêmea de um ano provavelmente voou pela costa do Mar Báltico durante a noite, parando para caçar moscas e outros insetos e encontrar lugares para descansar, como buracos e rachaduras em árvores ou ninhos, diz Desmet.

Vasenkov suspeita que a fêmea continuou voando em busca de temperaturas mais quentes, e foi assim que ela acabou nos Alpes franceses no outono – e encontrou sua morte prematura e inexplicável. Ela também pode ter simplesmente se perdido.

Futuro incerto

Embora os morcegos representem quase um quinto da biodiversidade do planeta, mais da metade das espécies têm populações (em números) desconhecidas ou em declínio, de acordo com um artigo de 2020 publicado no periódic Annals of the New York Academy of Sciences. Aprender mais sobre a migração de morcegos, bem como os obstáculos ao seu movimento, pode ajudar a conservá-los, dizem os especialistas.

Na Europa, as populações de morcego-de-nathusius são consideradas estáveis ​​e, possivelmente, estão em crescimento em algumas partes do norte do continente, Porém, são frequentemente encontradas mortas perto de parques eólicos, diz Alcalde. Os mamíferos morrem por colidir com as pás ou por um fenômeno chamado barotrauma, quando a pressão do ar muda repentinamente perto das pás das turbinas eólicas, causando hemorragia nos morcegos.

“Os parques eólicos são relativamente novos e a energia eólica está crescendo muito rapidamente na maior parte da Europa”, diz Alcade. O uso dessa fonte de energia limpa no continente aumentou 18%, entre 2020 e 2021 – e isso ainda está longe da meta desejada pela Europa.  

“Esperamos uma diminuição das populações de morcegos migratórios em um futuro próximo”, continua Alcade. Isso ocorre especialmente porque os morcegos-de-nathusius são reprodutores lentos – criam apenas um filhote por ano durante uma vida média de 13 anos. Outros morcegos migratórios enfrentam desafios semelhantes.

Mas o futuro para esses pequenos viajantes não é de todo ruim. Alcalde aponta para experimentos que mostram que as turbinas eólicas podem mudar os horários de operação quando os morcegos estão migrando, uma intervenção que pode reduzir as fatalidades.

Esses tipos de medidas, diz ele, “devem ser implementadas em todos os parques eólicos que tenham mortalidade de morcegos – antes que seja tarde demais”.

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