Morcegos são os verdadeiros super-heróis do mundo animal

Os mamíferos voadores possuem um conjunto de habilidades incríveis, como enxergar através da audição ou resistir aos vírus.

Publicado 17 de nov. de 2021 07:00 BRT
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Um morcego da espécie Pteropus personatus pendurado de cabeça para baixo em um cativeiro na cidade de Jacarta, na Indonésia.

Foto de JOEL SARTORE, NATIONAL GEOGRAPHIC PHOTO ARK

O Batman pode não ter nenhum superpoder, mas o animal no qual é inspirado certamente tem.

Existem mais de 1,4 mil espécies de morcegos em todo o mundo, exceto na Antártica e em algumas ilhas remotas. O que torna esses mamíferos voadores tão bem-sucedidos?

Ao longo de seus 50 milhões de anos de evolução, os morcegos desenvolveram soluções engenhosas para os desafios da vida. Entre essas soluções estão um sistema sonar interno para encontrar presas e asas ágeis, através das quais os morcegos mantêm o voo horizontal mais rápido do reino animal.

“Ainda há muito a ser estudado, mas é evidente que os morcegos realmente têm superpoderes”, afirma Rodrigo Medellín, ecologista do Instituto de Ecologia da Universidade Nacional Autônoma do México e Explorador da National Geographic.

“Os morcegos estão nos ensinando a como ter uma vida melhor”, por exemplo, servindo como modelos de vida saudável e longevidade.

Superpoder 1: ecolocalização

Apesar do mito popular, os morcegos não são cegos. Mas muitos deles não confiam na visão como seu sentido primário; em vez disso, usam a ecolocalização para se locomover e encontrar alimento na completa escuridão.

A ecolocalização é uma maneira de identificar a posição de corpos e objetos no ambiente emitindo sons de alta frequência e escutando os ecos que produzem. A partir desses ecos, os morcegos conseguem calcular a distância, o tamanho e a forma desses objetos, como de um mosquito apetitoso. Esse sonar natural é tão sofisticado que alguns morcegos podem detectar um objeto com a densidade igual a de um cabelo humano ou reconhecer diferenças em atrasos de menos de um microssegundo nos ecos.

“A ecolocalização é uma maneira flexível e versátil de compreender o mundo”, observa Medellín.

Pesquisas recentes também sugerem que os morcegos tenham menor dependência da ecolocalização do que se supunha anteriormente.

O Explorador da National Geographic e biólogo da Universidade de Colorado, Aaron Corcoran, descobriu que os morcegos voam por longos períodos de tempo em silêncio, provavelmente para evitar serem interceptados por outros morcegos. Quando não estão utilizando a ecolocalização, os morcegos podem recorrer à visão e à memória espacial para se localizarem.

Superpoder 2: voo veloz

Os morcegos são os únicos mamíferos que usam seus músculos para voar por meio do chamado voo de autopropulsão. Isso torna suas técnicas de voo únicas no reino animal.

As asas do morcego são como mãos humanas modificadas, com “dedos” alongados interligados por uma membrana flexível de pele. As asas flexíveis, repletas de vasos sanguíneos, nervos e tendões, são sustentadas por músculos especiais que tornam os morcegos eficientes e ágeis voadores. Ao contrário das asas de aves ou dos insetos, as asas dos morcegos podem se dobrar de várias maneiras durante o voo, assim como uma mão humana pode se fechar de formas diferentes.

Algumas pessoas podem se surpreender ao saber que “o voo de autopropulsão mais rápido da Terra é do humilde morceguinho-das-casas”, diz Medellín. Em 2016, pesquisadores no sudoeste do Texas registraram um morceguinhos-das-casas atingindo velocidades de até aproximadamente 160 quilômetros por hora, facilmente tornando esse morcego de apenas 10 gramas o mamífero mais rápido da Terra.

Essa marca supera a do falcão-peregrino, que pode atingir velocidades de cerca de 320 quilômetros por hora durante o voo de mergulho, apesar de em voos horizontais atingir velocidades de apenas 64 a 96 quilômetros por hora.

“O falcão-peregrino é um trapaceiro”, brinca Medellín. “Ele usa a gravidade para acelerar.”

Superpoder 3: longevidade

Como regra geral na biologia, animais menores têm expectativa de vida mais curta do que animais maiores. Mas os morcegos são uma exceção às regras: eles são os mamíferos que possuem a maior longevidade em relação ao tamanho de seu corpo. O morcego reconhecido como o mais longevo foi um minúsculo morcego de Brandt, na Rússia, que pesava pouco mais de 28 gramas, mas viveu por pelo menos 41 anos.

Recentemente, os cientistas examinaram as células de morcegos em busca de compreender os segredos de suas vidas excepcionalmente longas. Eles se concentraram nos telômeros, estruturas protetoras encontradas nas extremidades dos cromossomos. Na maioria dos animais, os telômeros tendem a ficar mais curtos com a idade, um processo que pode estar associado à degradação celular relacionada à idade e à morte. Mas os telômeros do grupo de morcegos que possuem maior longevidade, um gênero chamado Myotis, parecem não diminuir com o passar dos anos.

Entender por que os morcegos têm tanta longevidade e como permanecem saudáveis até a velhice pode ajudar a estender a longevidade humana um dia.

Morcegos da espécie Pteropus scapulatus empoleiram-se nas árvores no planalto de Atherton no estado de Queensland, na Austrália.

Foto de Juergen Freund, Nature Picture Library

Superpoder 4: resistência aos vírus

Além de viver mais, os morcegos permanecem saudáveis por toda a vida, com incidência muito baixa de câncer.

Além disso, os morcegos podem ser infectados com vírus mortais, como raiva e ebola, sem adoecer. Para descobrir como isso é possível, os cientistas estão estudando a genética dos morcegos; e os estudos já revelaram algumas evidências. Uma análise recente dos genomas de seis espécies de morcegos revelou um embate evolucionário de longa data entre morcegos e vírus. Por exemplo, os genes dos morcegos envolvidos na imunidade e na inflamação mudavam periodicamente ao longo do tempo, provavelmente em resposta à infecção por vírus, que desenvolveram maneiras mais eficazes de infectar os morcegos.

Os morcegos são o reservatório suspeito de diversos vírus que podem infectar humanos, como o vírus nipah, que em muitos casos é letal. Embora alguns especialistas suspeitem que o Sars-CoV-2, o novo coronavírus responsável pela pandemia de covid-19, tenha se originado em morcegos, outros questionam se esses animais são de fato os culpados diretos pela infecção de humanos.

Em todo caso, morcegos selvagens que portam coronavírus não representam uma ameaça para os humanos se não forem perturbados, defendem os conservacionistas. Além do mais, a pesquisa sobre o sistema imune excepcional dos morcegos pode revelar como as pessoas podem viver com vírus e não adoecer.

Superpoder 5: manutenção dos ecossistemas

Além de suas próprias habilidades, a presença dos morcegos auxilia na manutenção de muitos outros aspectos de seus ecossistemas.

Três em cada quatro espécies de morcegos comem insetos. Qualquer uma dessas espécies pode comer o equivalente ao seu peso corporal ou mais em insetos por noite. Muitos desses insetos são pragas que causam danos a importantes safras, como a de algodão. Os cientistas estimam que os morcegos que se alimentam de insetos podem ajudar na economia de cerca de US$ 23 bilhões por ano aos agricultores dos Estados Unidos, reduzindo os danos às plantações e limitando a necessidade de pesticidas.

Muitas espécies de morcegos beneficiam a saúde e a diversidade das plantas: pelo menos 549 espécies de plantas são polinizadas ou dispersas por morcegos. Incluindo muitas culturas populares de alimentos, como banana, manga, goiaba e cacau (o principal ingrediente do chocolate).

Também podemos agradecer aos morcegos por nossos coquetéis. A atividade polinizadora da espécie Leptonycteris yerbabuenae, que habita regiões da América Central ao sudoeste dos Estados Unidos, é fundamental para a polinização do agave-azul, ingrediente principal da tequila. Esses mesmos morcegos também polinizam o cacto saguaro, um símbolo conhecido do deserto de Sonora.

“Os morcegos são heróis anônimos da biodiversidade”, afirma Medellín. “Eles realizam funções essenciais para garantirmos alimento, roupas e bebidas. Está na hora de apreciarmos o que fazem.”

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