A coloração da pelagem do guanaco ajuda a que ele se misture com a paisagem da ...

Um parente do camelo em plena América do Sul: os 4 dados sobre o guanaco, um animal ancestral da Patagônia

Este camelídeo silvestre que é primo distante dos camelos e dromedários suporta os ventos gelados da América do Sul e é um dos animais mais importantes do delicado ecossistema patagônico.

A coloração da pelagem do guanaco ajuda a que ele se misture com a paisagem da região patagônica onde é endêmico. Este animal já existiu em milhões neste habitat, mas hoje ele enfrenta desafios para se manter como a caça ilega e a perda de território para os humanos. 

Foto de otomops (CC BY 4.0)
Por Redação National Geographic Brasil*
Publicado 13 de mar. de 2026, 08:01 BRT

Talvez você nunca tenha ouvido falar que a América do Sul tem seus próprios camelideos – espécies de uma família que abrange camelos e dromedários. Mas povoando uma longa parte da Patagônia chilena e argentina, e se misturando com a paisagem de vegetação ocre, está o guanaco (Lama guanicoe guanicoe), o maior animal ungulado sul-americano, diz a Wildlife Conservation Society (WCS), uma organização internacional sem fins lucrativos fundada em 1895 e baseada no Zoológico do Bronx, que se dedica a salvar a vida selvagem e habitats naturais em todo o mundo.

Os outros camelídeos desta parte sul do continente americano são a vicunha (Vicugna vicugna), a lhama (Lama glama) e a alpaca (V. paca) – como informa o Animal Diversity Web (ADW), banco de dados online com informações da biodiversidade do planeta. Mas acredita-se que o guanaco seja o mais ancestral, e que as llamas possam ter sido criadas a partir dele “como animais de carga há cerca de 6.500 anos”, como informa a Encyclopedia Britannica (plataforma de conhecimentos gerais online baseada no Reino Unido).

“Ainda que a maioria das taxonomias separa guanacos e lhamas em espécies distintas, enquanto outras autoridades classificam ambos os animais como subespécies de L. glama”, diz a plataforma online.

Atualmente, a Britannica informa que “as populações de guanaco somam mais de um milhão de adultos" – o que faz deles animais essenciais para o bioma local e um símbolo da biodiversidade sul-americana. A seguir, saiba mais sobre os guanacos.

Os simpáticos guanacos são os maiores e mais antigos camelideos da América do Sul.

Os simpáticos guanacos são os maiores e mais antigos camelideos da América do Sul.

Foto de Santiago Cicotti Wildlife Conservation Society

1. Os guanacos vivem espalhados pelas planícies amareladas da Patagônia

Os guanacos costumam viver cerca de 28 anos e são encontrados em pequenos grupos de fêmeas geralmente liderados por um macho, como explica a Encyclopedia Britannica..

“Os guanacos são encontrados na América do Sul desde o norte do Peru até o sul do continente. Sua distribuição inclui também oeste da Bolívia, a Argentina, o Chile, incluindo a Ilha Navarino, além da região da Terra do Fogo”, como explica o ADW. 

Ainda segundo a ADW, as populações de guanaco na parte norte de sua distribuição, “entre o norte do Peru e o norte do Chile”, são atribuídas à subespécie Lama guanicoe cacsilensis; enquanto o restante da população pertence à subespécie Lama guanicoe guanicoecompleta a fonte. Também é preciso notar que esses animais foram introduzidos até mesmo em uma das Ilhas Malvinas, a Ilha Staats, na Argentina, na década de 1930, e segundo a ADW eles ainda permanecem vivendo lá até hoje. 

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      O guanaco é um dois animais mais essenciais ao funcionamento do ecossistema patagônico. Além de servir de presa para o puma andino – que deixa restos de sua carcaça para condores e raposas, outras espécies endêmicas da região – sua migração durante o inverno e o verão atuam na regeneração das pastagens e ajudam os solos a armazenar carbono. A foto mostra esses herbívoros correndo soltos pela região chinela da Patagônia.

      Foto de Reprodução/Encyclopedia Britannica

      2. Os pumas são os principais predadores dos guanacos, de quem escapam usando o grito

      Um guanaco adulto mede cerca de 110 centímetros de alturapesa em torno de 90 quilos, continua a informar a Britannica. Ou seja, são um banquete e tanto para os pumas patagônicosfelinos que vivem na região, entre as montanhas andinas, e que costumam predar os guanacos mais jovens ou que se desgarram do bando. 

      Parque Nacional da Patagônia, no Chile, é um dos lugares onde o camelídeo é predominante. O local fica no Valle Chacabuco, região mais remota e preservada da província de Aysén, e abriga cerca de 3 mil guanacos, que vivem com predação controlada pelos pumas, detalha a Rewilding Chile (uma fundação sem fins lucrativos dedicada à conservação da biodiversidade da Patagônia chilena). “Os guanacos também fornecem carniça para várias espécies necrófagas, incluindo condores andinoscaranchos (ou caracaras, uma espécie de aves de rapina), além de raposas e tatus”, complementa a fonte.

      Uma curiosidade sobre estes animais está na maneira como eles tentam escapar dos ataques dos pumas. De acordo com o ADW, “os guanacos geralmente exibem uma resposta de ‘ver e fugir’ quando encontram predadores em potencial”.

      A fonte detalha que um indivíduo do bando mantém contato visual com o predador até que ele se aproxime demais” e, então, o animal que vigiadá um grito de alarme para alertar o resto do grupo” – fugindo na sequência. “Essa estratégia tende a ser eficaz contra os pumas, que não perseguem suas presas por longas distâncias", enfatiza o ADW

      Os filhotes de guanaco, conhecidos como “guanaquitos”, possuem uma pelagem macia e felpuda que tem cerca ...

      Os filhotes de guanaco, conhecidos como “guanaquitos”, possuem uma pelagem macia e felpuda que tem cerca de 10 a 20% da lã na composição e serve para proteger do frio.

      Foto de Reprodução/Guia do Parque Nacional da Patagônia do Rewilding Chile

      3. Os guanacos enfrentam muito bem as temperaturas baixas da Patagônia e seus ventos fortíssimos

      Dotados de uma coloração marrom-clara na parte superior do corpo e branca na inferior, como detalha a Britannica, os guanacos possuem nessa pelagem uma proteção bastante eficiente contra as temperaturas frias do bioma patagônico, incluindo em regiões de ventos fortes, que podem passar dos 60km/h. 

      O guanaco é coberto por uma pelagem densa de duas camadas que o protege de altas e baixas temperaturas, bem como do vento e da precipitação”, explica um artigo do Wildlife Conservation Society. Nos invernos patagônicos, as temperaturas podem chegar a graus negativos, como foi ocorreu em julho de 2024, quando uma onda de frio polar extremamente forte deixou regiões com os termômetros marcando -20ºC, como registrou uma notícia da CNN brasileira.

      Nos filhotes, por exemplo, também chamados de “guanaquitos”,  essa cobertura macia e felpudaconstitui cerca de 10 a 20 por cento da lã” – material que, no mercado têxtil, é considerado um artigo de luxo, diz a fonte do Reino Unido. 

      Vale ressaltar ainda que os guanacos são uma espécie migratória, mudando de lugar no inverno e no verão (e caminhando algo em torno de 150 quilômetros). Por isso, “dependem de habitats extensos e conectados para se alimentar, reproduzir e evitar predadores”, diz a Rewilding Chile

      “Seus movimentos promovem a integridade do ecossistema, enquanto sua anatomia e hábitos alimentares contribuem para a regeneração das pastagens ajudam os solos a armazenar carbono, desempenhando um papel fundamental na mitigação e adaptação às mudanças climáticas", completa a fonte.  

      Acidentes envolvendo guanacos e carros ou motos, pelas estradas que cruzam o vasto território patagônico, não ...

      Acidentes envolvendo guanacos e carros ou motos, pelas estradas que cruzam o vasto território patagônico, não são raros. Eles também configuram um perigo para a espécie.

      Foto de patanat/iNaturalist (CC BY-NC 4.0)

      4. O guanaco já foi considerado extinto e hoje segue ameaçado, inclusive pela caça

      Apesar de contar com milhões de indivíduos vivendo de forma selvagem na natureza, o guanaco foi considerado perto da extinção. 

      Nos últimos 200 anos, a população de guanacos diminuiu de cerca de 20 milhões de indivíduos para aproximadamente 2,5 milhões”, diz o WCS. “Atualmente, seu status de conservação varia de país para país e entre regiões dentro da Argentina. Ao mesmo tempo, sua área de distribuição encolheu para 40% da área que a espécie ocupava no passado”, completa a fonte.

      “Perseguidos por competirem com o gadoos guanacos são em grande parte relegados a terras mais secas e confinados por cercas e caça ilegal”, informa, por sua vez, a instituição de conservação do Chile.

      "Embora o guanaco seja classificado como espécie de menor preocupação pela União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN), as populações na parte norte da área de distribuição do animal diminuíram substancialmente como resultado da perda de habitat e da competição com outros animais herbívoros”, alerta a Britannica

      Por isso mesmo, os governos do Peru, Paraguai e Bolívia consideram este camelídeo uma espécie ameaçada de extinção; mas já em Chile e Argentina, a caça do guanaco é liberada – ainda que seguindo regras estritas – inclusive para fins comerciais, já que sua carne pode ser vendida, informa um artigo do Conicet (Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas), principal órgão de promoção da promoção da ciência e tecnologia na Argentina.

      Os guanacos também acabam morrendo vítimas de acidentes com carros e motos nas estradas que cortam a Patagônia. Esses encontros mortais são um verdadeiro risco para motoristas e para os próprios animais, já que em muitas partes da região costumam se alimentar justamente do pasto que fica à beira das rodovias. 

       

      Por Luciana Borges, editora sênior de National Geographic Brasil e Latam.

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