
Um parente do camelo em plena América do Sul: os 4 dados sobre o guanaco, um animal ancestral da Patagônia
A coloração da pelagem do guanaco ajuda a que ele se misture com a paisagem da região patagônica onde é endêmico. Este animal já existiu em milhões neste habitat, mas hoje ele enfrenta desafios para se manter como a caça ilega e a perda de território para os humanos.
Talvez você nunca tenha ouvido falar que a América do Sul tem seus próprios camelideos – espécies de uma família que abrange camelos e dromedários. Mas povoando uma longa parte da Patagônia chilena e argentina, e se misturando com a paisagem de vegetação ocre, está o guanaco (Lama guanicoe guanicoe), o maior animal ungulado sul-americano, diz a Wildlife Conservation Society (WCS), uma organização internacional sem fins lucrativos fundada em 1895 e baseada no Zoológico do Bronx, que se dedica a salvar a vida selvagem e habitats naturais em todo o mundo.
Os outros camelídeos desta parte sul do continente americano são a vicunha (Vicugna vicugna), a lhama (Lama glama) e a alpaca (V. paca) – como informa o Animal Diversity Web (ADW), banco de dados online com informações da biodiversidade do planeta. Mas acredita-se que o guanaco seja o mais ancestral, e que as llamas possam ter sido criadas a partir dele “como animais de carga há cerca de 6.500 anos”, como informa a Encyclopedia Britannica (plataforma de conhecimentos gerais online baseada no Reino Unido).
“Ainda que a maioria das taxonomias separa guanacos e lhamas em espécies distintas, enquanto outras autoridades classificam ambos os animais como subespécies de L. glama”, diz a plataforma online.
Atualmente, a Britannica informa que “as populações de guanaco somam mais de um milhão de adultos" – o que faz deles animais essenciais para o bioma local e um símbolo da biodiversidade sul-americana. A seguir, saiba mais sobre os guanacos.
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Os simpáticos guanacos são os maiores e mais antigos camelideos da América do Sul.
1. Os guanacos vivem espalhados pelas planícies amareladas da Patagônia
Os guanacos costumam viver cerca de 28 anos e são encontrados em pequenos grupos de fêmeas geralmente liderados por um macho, como explica a Encyclopedia Britannica..
“Os guanacos são encontrados na América do Sul desde o norte do Peru até o sul do continente. Sua distribuição inclui também o oeste da Bolívia, a Argentina, o Chile, incluindo a Ilha Navarino, além da região da Terra do Fogo”, como explica o ADW.
Ainda segundo a ADW, as populações de guanaco na parte norte de sua distribuição, “entre o norte do Peru e o norte do Chile”, são atribuídas à subespécie Lama guanicoe cacsilensis; enquanto o restante da população pertence à subespécie Lama guanicoe guanicoe, completa a fonte. Também é preciso notar que esses animais foram introduzidos até mesmo em uma das Ilhas Malvinas, a Ilha Staats, na Argentina, na década de 1930, e segundo a ADW eles ainda permanecem vivendo lá até hoje.

O guanaco é um dois animais mais essenciais ao funcionamento do ecossistema patagônico. Além de servir de presa para o puma andino – que deixa restos de sua carcaça para condores e raposas, outras espécies endêmicas da região – sua migração durante o inverno e o verão atuam na regeneração das pastagens e ajudam os solos a armazenar carbono. A foto mostra esses herbívoros correndo soltos pela região chinela da Patagônia.
2. Os pumas são os principais predadores dos guanacos, de quem escapam usando o grito
Um guanaco adulto mede cerca de 110 centímetros de altura e pesa em torno de 90 quilos, continua a informar a Britannica. Ou seja, são um banquete e tanto para os pumas patagônicos, felinos que vivem na região, entre as montanhas andinas, e que costumam predar os guanacos mais jovens ou que se desgarram do bando.
O Parque Nacional da Patagônia, no Chile, é um dos lugares onde o camelídeo é predominante. O local fica no Valle Chacabuco, região mais remota e preservada da província de Aysén, e abriga cerca de 3 mil guanacos, que vivem com predação controlada pelos pumas, detalha a Rewilding Chile (uma fundação sem fins lucrativos dedicada à conservação da biodiversidade da Patagônia chilena). “Os guanacos também fornecem carniça para várias espécies necrófagas, incluindo condores andinos, caranchos (ou caracaras, uma espécie de aves de rapina), além de raposas e tatus”, complementa a fonte.
Uma curiosidade sobre estes animais está na maneira como eles tentam escapar dos ataques dos pumas. De acordo com o ADW, “os guanacos geralmente exibem uma resposta de ‘ver e fugir’ quando encontram predadores em potencial”.
A fonte detalha que um indivíduo do bando mantém contato visual com o predador “até que ele se aproxime demais” e, então, o animal que vigia “dá um grito de alarme para alertar o resto do grupo” – fugindo na sequência. “Essa estratégia tende a ser eficaz contra os pumas, que não perseguem suas presas por longas distâncias", enfatiza o ADW.
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Os filhotes de guanaco, conhecidos como “guanaquitos”, possuem uma pelagem macia e felpuda que tem cerca de 10 a 20% da lã na composição e serve para proteger do frio.
3. Os guanacos enfrentam muito bem as temperaturas baixas da Patagônia e seus ventos fortíssimos
Dotados de uma coloração marrom-clara na parte superior do corpo e branca na inferior, como detalha a Britannica, os guanacos possuem nessa pelagem uma proteção bastante eficiente contra as temperaturas frias do bioma patagônico, incluindo em regiões de ventos fortes, que podem passar dos 60km/h.
“O guanaco é coberto por uma pelagem densa de duas camadas que o protege de altas e baixas temperaturas, bem como do vento e da precipitação”, explica um artigo do Wildlife Conservation Society. Nos invernos patagônicos, as temperaturas podem chegar a graus negativos, como foi ocorreu em julho de 2024, quando uma onda de frio polar extremamente forte deixou regiões com os termômetros marcando -20ºC, como registrou uma notícia da CNN brasileira.
Nos filhotes, por exemplo, também chamados de “guanaquitos”, essa cobertura macia e felpuda “constitui cerca de 10 a 20 por cento da lã” – material que, no mercado têxtil, é considerado um artigo de luxo, diz a fonte do Reino Unido.
Vale ressaltar ainda que os guanacos são uma espécie migratória, mudando de lugar no inverno e no verão (e caminhando algo em torno de 150 quilômetros). Por isso, “dependem de habitats extensos e conectados para se alimentar, reproduzir e evitar predadores”, diz a Rewilding Chile.
“Seus movimentos promovem a integridade do ecossistema, enquanto sua anatomia e hábitos alimentares contribuem para a regeneração das pastagens e ajudam os solos a armazenar carbono, desempenhando um papel fundamental na mitigação e adaptação às mudanças climáticas", completa a fonte.

Acidentes envolvendo guanacos e carros ou motos, pelas estradas que cruzam o vasto território patagônico, não são raros. Eles também configuram um perigo para a espécie.
4. O guanaco já foi considerado extinto e hoje segue ameaçado, inclusive pela caça
Apesar de contar com milhões de indivíduos vivendo de forma selvagem na natureza, o guanaco foi considerado perto da extinção.
“Nos últimos 200 anos, a população de guanacos diminuiu de cerca de 20 milhões de indivíduos para aproximadamente 2,5 milhões”, diz o WCS. “Atualmente, seu status de conservação varia de país para país e entre regiões dentro da Argentina. Ao mesmo tempo, sua área de distribuição encolheu para 40% da área que a espécie ocupava no passado”, completa a fonte.
“Perseguidos por competirem com o gado, os guanacos são em grande parte relegados a terras mais secas e confinados por cercas e caça ilegal”, informa, por sua vez, a instituição de conservação do Chile.
"Embora o guanaco seja classificado como espécie de menor preocupação pela União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN), as populações na parte norte da área de distribuição do animal diminuíram substancialmente como resultado da perda de habitat e da competição com outros animais herbívoros”, alerta a Britannica.
Por isso mesmo, os governos do Peru, Paraguai e Bolívia consideram este camelídeo uma espécie ameaçada de extinção; mas já em Chile e Argentina, a caça do guanaco é liberada – ainda que seguindo regras estritas – inclusive para fins comerciais, já que sua carne pode ser vendida, informa um artigo do Conicet (Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas), principal órgão de promoção da promoção da ciência e tecnologia na Argentina.
Os guanacos também acabam morrendo vítimas de acidentes com carros e motos nas estradas que cortam a Patagônia. Esses encontros mortais são um verdadeiro risco para motoristas e para os próprios animais, já que em muitas partes da região costumam se alimentar justamente do pasto que fica à beira das rodovias.
Por Luciana Borges, editora sênior de National Geographic Brasil e Latam.