O incêndio de janeiro de 2026 em Puerto Patriada, Chubut, afetou 12 mil hectares de floresta ...

A Patagônia depois do fogo: os cinco desafios para ressuscitar a floresta afetada por incêndios na Argentina

Enquanto os incêndios destroem hectares da floresta patagônica em minutos, sua recuperação pode levar séculos. Mas como salvar a fauna e a flora da Patagônia? National Geographic conversou com um especialista nesse tipo de reflorestamento.

O incêndio de janeiro de 2026 em Puerto Patriada, Chubut, afetou 12 mil hectares de floresta nativa, floresta implantada, arbustos e matagais, além de residências e infraestrutura, informaram as autoridades.

Foto de Governo de Chubut/Domínio Público
Por Redação National Geographic Brasil
Publicado 15 de jan. de 2026, 15:17 BRT

Embora os incêndios florestais possam ocorrer devido a causas naturais, desencadeados por quedas de raios, por exemplo, 95% dos incêndios são causados por ação humana, segundo dados da Agência Federal de Emergências (AFE), órgão do Ministério da Segurança da Argentina responsável pela resposta a emergências e desastres. O país vem passando nas últimas semanas por um incêndio florestal de grandes proporções na região da Patagônia que fica dentro de seu território.  

Segundo autoridades locais, os incêndios na Patagônia argentina devastaram mais de 15 mil hectares, com a área mais crítica ficando na província de Chubut, localizada no extremo sul do país. Os incêndios florestais na região já são considerados um desastre ambiental e afetam um bioma único no planeta.

No caso das queimadas na Argentina, especula-se que tenham sido originadas por ação humana. De acordo com a Agência Federal de Emergências (AFE), neste cenário as principais causas são fogueiras e bitucas de cigarro mal apagadas, abandono de terras e preparação de áreas de pastagem com fogo. Ela também reconhece que fatores climáticos como seca, falta de chuva, vento e altas temperaturas afetam a propagação das chamas

Diante desta nova temporada de incêndios florestais na Patagônia argentina, National Geographic consultou Tobías Merlo, licenciado em Ciências Ambientais e fundador e diretor da ReforestArg, uma organização argentina dedicada à restauração ecológica de florestas e à conscientização ambiental, para saber como é o trabalho de restauração após um incêndio.

A conversa de Merlo com a NatGeo ocorre enquanto vários focos continuam ativos no sul da Argentina. O foco que começou há aproximadamente uma semana já foi contido em 85%, informou o governador de Chubut, Ignacio Torres, em suas redes sociais. Enquanto isso, outras localidades da Patagônia também estão combatendo incêndios. A seguir, veja os cinco pontos-chave que devem ser feitos para recuperar o bioma patagônico afetado. 

De acordo com o governador de Chubut, Ignacio Torres, a operação contra o incêndio em Puerto ...

De acordo com o governador de Chubut, Ignacio Torres, a operação contra o incêndio em Puerto Patriada envolveu o trabalho de mais de 660 pessoas, incluindo brigadistas provinciais e nacionais, bombeiros voluntários, forças de segurança e equipes de apoio. Também foram disponibilizados oito meios aéreos, maquinário pesado, embarcações e unidades móveis.

Foto de Governo de Chubut/Domínio Público

Passo 1: Diagnóstico da área queimada para a restauração após o incêndio

restauração de um ecossistema danificado envolve um árduo processo de planejamento, pois, em muitos casos, a área afetada é imensa e pode ultrapassar milhares de hectares. O primeiro passo é escolher os pontos estratégicos para reflorestamento, de modo que, quando as árvores crescerem, elas se tornem “viveiros”, ou seja, dispersem sementes que continuem naturalmente o processo de restauração, explica Merlo.

Normalmente, essas florestas estão localizadas em zonas altas, levando em consideração a direção do vento, as inclinações e a luz natural, para que a planta tenha maior chance de sobrevivência em um determinado local, continua o diretor da ReforestArg. 

Outro fator a ser levado em consideração é “verificar se o espaço a ser restaurado é protegido por quem administra essa terra, seja o Estado nacional, a província ou um particular”.

Uma vez superado o processo de diagnóstico, são montados “bosques”, grupos de árvores entre 10 e 20 exemplares, considerando que algumas delas prosperarão e dispersarão sementes, enquanto outras não conseguirão sobreviver.

mais populares

    veja mais

    mais populares

      veja mais
      Um incêndio florestal pode destruir uma região em horas ou dias, mas sua restauração leva anos ...

      Um incêndio florestal pode destruir uma região em horas ou dias, mas sua restauração leva anos – e até séculos. De acordo com a Agência Federal de Emergências, 95% dessas queimadas são causadas por ação humana. 

      Foto de Divulgação/ReforestArg
      O fogo afeta a flora nativa, bem como os animais que vivem nesses ecossistemas na região. ...

      O fogo afeta a flora nativa, bem como os animais que vivem nesses ecossistemas na região. Para restaurar estes espaços é preciso de ajuda humana, já que o tamanho e a quantidade de incêndios vêm aumentando e a natureza não consegue lidar com eles sozinha.  

      Foto de Divulgação/ReforestArg

      Passo 2: Escolher as espécies de árvores nativas para restaurar a floresta

      Uma vez definidos os locais mais adequados para trabalhar, escolhem-se as espécies. Esta decisão aponta sempre para a vegetação nativa, que costumam ser as mais prejudicadas pelo fogo.

      No caso da Patagônia argentina, por exemplo, quando o incêndio é extinto, é muito comum que as plantas nativas e as espécies maiores da floresta primária – como o coihue, a lenga e o cipreste, por exemplo – não voltem a brotar. Em vez disso, acabam prosperando espécies exóticas (não nativas), como os pinheiros.

      (Conteúdo relacionado: Incêndios florestais estão cada vez mais intensos – até mesmo para animais adaptados ao fogo)

      Passo 3: Identificar quanto tempo leva para a floresta se recuperar

      Não existe uma resposta única e global para essa pergunta, mas, em geral, a recuperação de uma floresta “leva muito tempo”, afirma Tobías Merlo à NatGeo.

      Podem levar décadas para que uma floresta entre em estado de equilíbrio (conhecido como estado de clímax, caracterizado pela estabilidade do ecossistema, que se desenvolve como uma entidade), continua o especialista. E isso depende de vários fatores, como o local em questão, as espécies, os danos causados, entre outros.

      No caso da Patagôniauma floresta de ciprestes em encostas áridas pode levar até 200 anos para ser restaurada, “mas depende”, insiste Merlo, “não colocaria um número porque a natureza não entende as regras mentais do ser humano”.

      O fogo afeta a flora nativa, bem como os animais que vivem nesses ecossistemas na região. ...
      Tobías Merlo, cofundador e diretor da ReforestArg, dá uma palestra informativa durante um trabalho de reflorestamento ...
      À esquerda: No alto:

      O fogo afeta a flora nativa, bem como os animais que vivem nesses ecossistemas na região. Para restaurar estes espaços é preciso de ajuda humana, já que o tamanho e a quantidade de incêndios vêm aumentando e a natureza não consegue lidar com eles sozinha.  

      À direita: Acima:

      Tobías Merlo, cofundador e diretor da ReforestArg, dá uma palestra informativa durante um trabalho de reflorestamento na Patagônia argentina.

      fotos de Divulgação/ReforestArg

      Passo 4: Por que a restauração ativa com intervenção humana é importante

      Conforme explica o especialista, sempre houve incêndios no planeta e, na verdade, o fogo também é parte natural da floresta. No entanto, atualmente eles são mais frequentes e intensos como consequência das mudanças climáticas provocadas pelos seres humanos, e as espécies exóticas introduzidas (como os pinheiros na Patagônia) complicam a situação

      No passadoquando uma floresta queimava, ela tinha a possibilidade de se restaurar naturalmente e, como os incêndios eram menores, as árvores espalhavam as sementes pela área queimada. Atualmente, como os focos de incêndio são grandesas árvores semeadoras estão muito longe da parte onde se originou o fogo, de modo que as sementes não chegam ao centro do local queimado. “Isso torna necessária a restauração ativa”, detalha Merlo.

      Mil anos atrás, essa intervenção humana não era necessária”, comenta o especialista. A floresta andina patagônica podia se restaurar sozinha porque não precisava competir com o pinheiro ou a rosa mosqueta, que são duas espécies invasoras. As sementes das árvores que sobreviviam chegavam ao centro do incêndio e, em 100 anos, a floresta já estava recuperada naturalmente. 

      “Agora, como o ser humano interveio e introduziu plantas exóticas e mais fogo (porque 95% dos incêndios são causados pelo homem por negligência ou intencionalidade), é necessária a restauração ativa”, conclui.

      “Podem levar décadas para que uma floresta entre em estado de equilíbrio.”

      Passo 5: Como fazer a restauração ambiental ser bem-sucedida

      Embora possa levar anos para alcançar o equilíbrio da floresta, há maneiras de avaliar o progresso positivo de uma tarefa de restauração. “Fazemos monitoramentos e, se mais de 80% do que foi plantado sobreviveu, podemos dizer que foi uma campanha bem-sucedida”, comenta o diretor da ReforestArg.

      No entanto, Merlo acredita que o verdadeiro sucesso está na transformação das pessoas. “Além de restaurar o ecossistema, estamos restaurando consciências”, diz ele. “Se um voluntário foi, plantou árvores, conseguiu se conectar com o espaço e consigo mesmo, se voltou para casa em busca da verdade... Para mim, essa campanha já foi vitoriosa. Se uma pessoa da cidade pôde ganhar dinheiro porque a contratamos para plantar árvores e pôde ter um emprego, para mim esse trabalho foi bem-sucedido”.

      Considerando a intencionalidade do incêndio, Merlo insiste em trabalhar sobre a “crise de consciência”. “O mais importante é transformar as pessoas em gente que cuida da floresta”, ressalta.

      mais populares

        veja mais
        loading

        Descubra Nat Geo

        • Animais
        • Meio ambiente
        • História
        • Ciência
        • Viagem
        • Fotografia
        • Espaço
        • Saúde

        Sobre nós

        Inscrição

        • Assine a newsletter
        • Disney+

        Siga-nos

        Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2026 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados