Animais

Seis mortes recentes aproximam baleias raras da extinção

Restam apenas cerca de 400 baleias-francas-do-atlântico-norte e elas estão sendo mortas mais rápido do que conseguem se reproduzir.Tuesday, July 16, 2019

Por Tom Cheney
Fotos de Nick Hawkins
Pesquisadores fazem a necropsia em Punctuation, uma baleia-franca-do-atlântico-norte fêmea que recebeu esse nome devido às cicatrizes em sua pele. Em junho, ela foi encontrada morta no Golfo de São Lourenço, uma das seis que morreram nas últimas seis semanas.
Uma baleia-franca-do-atlântico-norte tira a cabeça da água no Golfo de São Lourenço. Essas baleias correm risco de extinção, ameaçadas principalmente pelas colisões com navios e por ficarem presas em equipamentos de pesca.

Houve uma virada brusca em 2017, quando 17 baleias-francas foram encontradas mortas ao longo da costa leste — 12 em águas canadenses e cinco em águas norte-americanas, quase o dobro do registrado nos cinco anos anteriores. Pesquisadores e reguladores se esforçaram para descobrir o que estava acontecendo.

Nos anos anteriores, quando migravam para o norte, as baleias geralmente chegavam, no máximo, até a Baía de Fundy, logo após a fronteira entre os EUA e o Canadá, onde rotas marítimas foram adaptadas para ajudar a protegê-las. Mas como a distribuição de copépodes, o zooplâncton que é a principal fonte de alimentação das baleias, mudou para o norte, as baleias foram atrás deles.

No Golfo de São Lourenço, as indústrias pesqueiras e naval não estavam preparadas para lidar com a presença desses crustáceos.

Wolverine

Em 2018, o governo canadense instituiu um novo regime de fechamentos de zonas pesqueiras, alterações nas rotas de navegação e restrições de velocidade para os barcos. Somente três baleias morreram — e nenhuma delas foi no Canadá. Embora nenhum filhote tenha nascido naquele ano, a comunidade de baleias-francas conseguiu respirar aliviada porque as mortes tinham sido controladas.

Janeiro de 2019 renovou as esperanças: sete baleias-francas nasceram nas áreas de parição da Geórgia e Flórida. Mas a alegria durou pouco.

Em 4 de junho, um avião de reconhecimento avistou Wolverine, de nove anos de idade, flutuando em uma poça de sangue no Golfo de São Lourenço. Quando filhote, Wolverine tinha se chocado com a hélice de um navio e ficou com três cicatrizes paralelas nas costas, o que fez com que os pesquisadores se lembrassem do personagem das histórias em quadrinhos de mesmo nome. Durante sua curta vida, Wolverine tinha sobrevivido às três ocasiões conhecidas em que ficou preso aos aparelhos de pesca, felizmente ele conseguiu se soltar sozinho todas as vezes. Muitas outras baleias não têm a mesma sorte e acabam se afogando ou morrendo de fome, se ficam presas de uma forma que não conseguem se alimentar.

Uma pesquisadora remove uma costela do corpo de Wolverine, uma baleia-franca macho de nove anos de idade. A equipe de necropsia buscou hematomas, ossos quebrados e hemorragia, que poderiam indicar um trauma contuso, indicativos de uma colisão com navio. Os resultados preliminares não revelaram a causa da morte, mas as análises adicionais das amostras de tecido ainda podem dar uma resposta.
Cordas de pesca em volta da cabeça e da boca de uma baleia-franca-do-atlântico-norte no Golfo de São Lourenço. Quando as baleias ficam presas, podem morrer de fome ou se afogar. Uma equipe de resgate ficou de prontidão, mas essa baleia conseguiu se soltar sozinha depois de três horas.

Dar más notícias à comunidade de pesquisadores é um trabalho que frequentemente fica a cargo de Wimmer. “Esses são os piores e-mails e telefonemas que tenho que fazer. As pessoas conhecem esses animais e ficam desoladas,” me conta ela, a tensão em sua voz é palpável.

Na praia, de repente um silêncio toma conta da equipe de necropsia. O trabalho cessa. Circula entre a equipe a notícia de uma terceira baleia-franca morta — a qual também foi encontrada flutuando no Golfo de São Lourenço.

Um grupo de seis pesquisadores se senta em um banco de areia, em silêncio e abatido. Uma pesquisadora se senta sozinha na praia e afunda o rosto na palma de suas mãos. A tragédia de 2017 parece estar se repetindo.

Mais mortes

Dentro de 48 horas, outras três baleias são encontradas, totalizando seis mortes. Em apenas quatro semanas, 1,5% da população foi perdida. O mais preocupante é que quatro das baleias mortas são fêmeas reprodutivas, e agora restam menos de 100 delas. Para piorar, mais três baleias foram avistadas presas em aparelhos de pesca nas primeiras semanas de julho.

“É uma crise”, afirma Sean Brillant, biólogo de conservação sênior da Canadian Wildlife Federation, uma das muitas ONGs que trabalham na prevenção de risco e pesquisa de baleias-francas. No passado, as baleias-francas já foram em menor número, mas ele me conta que essa queda abrupta é o mais preocupante.

Um estudo publicado este ano no periódico Diseases of Aquatic Organisms mostrou que, nos últimos 15 anos, 88% das mortes de baleias-francas com causa determinada foram decorrentes de colisão com barcos ou por ficarem presas a equipamentos de pesca. Também foi revelado que não houve mortes naturais de baleias adultas ou jovens. O estudo concluiu que, sem uma mudança significativa, a extinção de baleias-francas-do-atlântico-norte “é quase certa”. Alguns estimam que a espécie poderia estar funcionalmente extinta em 20 anos.

Kim Davies, professora assistente de biologia da Universidade de New Brunswick, acredita que essa é uma história que ainda não se pode traçar. Ela observa que os fechamentos das zonas pesqueiras e as restrições às velocidades dos barcos no Golfo de São Lourenço implementados este ano foram baseados nos dados de localização das baleias dos últimos anos. As baleias-francas estão modificando seus padrões migratórios e alimentares, provavelmente em resposta às mudanças climáticas. A cada ano, elas se concentram em locais diferentes e em épocas diferentes.

A pesquisa de Davies rastreia a distribuição de copépodes. Ela espera que, com mais conhecimento sobre as movimentações da principal fonte de alimentos das baleias, os cientistas possam prever onde elas estarão, o que possibilitaria o desenvolvimento de estratégias de gestão mais personalizadas.

No entanto, até que os cientistas tenham esses dados em mãos, os reguladores não têm outra escolha a não ser ter cautela, afirma Amy Knowlton, cientista sênior do Aquário da Nova Inglaterra, que faz o levantamento e cadastro da população de baleias-francas-do-atlântico-norte. Ela diz que medidas protetivas “amplas devem ser impostas por toda a sua área de alcance”.

Wolverine sobreviveu a uma colisão com um navio e a três ocasiões em que ficou preso a equipamentos de pesca, mas em junho, foi encontrado morto. A causa de sua morte ainda não foi determinada.

Em 8 de julho, o governo canadense tomou providências em resposta a esse chamado. Foram ampliadas as zonas de velocidade reduzida no Golfo de São Lourenço para abranger mais áreas e classes de navios, a vigilância aérea ficou sete vezes maior e os critérios para fechamentos das zonas pesqueiras agora estão consideravelmente mais conservadores.

Mesmo que essas medidas tenham sucesso na prevenção de mais mortalidade, o futuro das baleias-francas-do-atlântico-norte permanece incerto. Mas a comunidade de baleias-francas não perdeu a fé.

As soluções não serão rápidas nem fáceis, afirma Brillant. Mesmo assim, ele acredita haver uma cooperação incrivelmente grande entre a indústria, o governo, as ONGs e os pesquisadores. “Há uma pressão de todos os lados”, afirma ele. “Existe boa colaboração, comunicação e boa vontade”.

Knowlton, que dedicou sua carreira ao estudo de baleias-francas-do-atlântico-norte, afirma a mesma coisa. “Todos se preocupam”, diz ela “e isso me dá esperança”.

CHÉTICAMP, NOVA ESCÓCIA A pele é macia, num tom preto fosco e, quando pressiono meu dedo nela, parece uma borracha esponjosa. Na profundeza do arco de sua boca, as longas placas das barbas de baleia são tão retas que nem parecem naturais. Os pesquisadores a batizaram de Punctuation (Pontuação, em tradução livre) devido às cicatrizes em sua cabeça que lembram hifens e vírgulas. Ela mede mais de 15 metros e pesa dez vezes mais que um elefante adulto. Sua grandeza desafia as possibilidades da criação natural.

Vivas, as baleias-francas-do-atlântico-norte são animais sociáveis e brincalhões. Com suas bocas enormes, corpos esféricos e nadadeiras peitorais robustas, elas são charmosas — de uma forma meio pré-histórica e sobrenatural. Ainda que seu comprimento continue sendo impressionante, Punctuation não chega nem aos pés do que já foi um dia. Seu corpo, avistado flutuando no oceano em 20 de junho, foi rebocado para terra firme para a realização de uma necropsia científica em Chéticamp, Nova Escócia.

As baleias-francas-do-atlântico-norte foram salvas por uma proibição da pesca comercial de baleias em 1937, após quase serem extintas devido à caça no início dos anos 1900. Porém, embora sua população tenha se estabilizado, nunca chegou a se recuperar. A mortalidade reduziu ano após ano e as mortes ocorriam devido a colisões com navios e porque as baleias ficavam presas em equipamentos de pesca. No início dos anos 2000, a estimativa era de que restavam 500 baleias-francas-do-atlântico-norte. No entanto, desde 2010, a população vem diminuindo a um ritmo alarmante e os cientistas acreditam que, atualmente, existam cerca de 400 baleias-francas-do-atlântico-norte vivas.

Uma equipe de pesquisadores e veterinários do departamento do governo Fisheries and Oceans Canada e das organizações Canadian Wildlife Health Cooperative e Marine Animal Response Society realizou a necropsia de Wolverine e divulgou os resultados preliminares no dia 9 de junho. Eles não puderam concluir de imediato o que o matou, só será possível determinar a causa da morte quando outros testes de amostras de tecido ficarem prontos, o que pode levar meses.

Por outro lado, o corpo de Punctuation não deixa muitas dúvidas.

Aprendendo com a baleia

Na praia de Chéticamp, vísceras saem de uma laceração de 1,8 metro da lombar de Punctuation, uma lesão que só poderia ter sido causada pelo choque com um navio. Na medida do possível, fico contra o vento para evitar o odor de carne podre, que é pungente e estranhamente doce.

Os pesquisadores e veterinários começam a dissecar o corpo de Punctuation. Eles utilizam lâminas afiadas para conseguir cortar as espessas camadas de gordura. O veterinário Pierre-Yves Daoust sobe no cadáver, entrando nele até a cintura. Sua roupa de neoprene rapidamente muda de cor com o sangue. O cheiro piora à medida que o dia esquenta, mas Daoust parece não se incomodar com isso, pois não demonstra nenhum sinal. Com a ajuda de uma escavadeira, grandes tiras de gordura são retiradas do corpo de Punctuation, cada uma delas faz um ruído surdo ao cair na areia.

A equipe coleta amostras dos diversos tecidos e órgãos, todas elas serão catalogadas e enviadas a pesquisadores de todo o continente, que as analisarão para saber mais sobre a saúde da população de baleias-francas. “É importante que as mortes delas não sejam em vão,” afirma Tonya Wimmer, da Marine Animal Response Society, uma organização de resgate localizada em Halifax. Por fim, até os ossos de Punctuation são removidos.

Wimmer me conta que Punctuation estava em condições excelentes. “Nunca vi uma gordura tão espessa. Sua aparência era tão saudável, a não ser pelo corte enorme em suas costas, que acabou matando-a,” diz Wimmer.

Cada baleia-franca-do-atlântico-norte que se vai é um golpe duro, mas a morte de Punctuation é especialmente dolorosa. Ela foi uma fêmea prolífera, que deu à luz oito filhotes durante os seus 38 anos. Em 1981, foi avistada pela primeira vez ainda filhote, desde então foi vista muitas vezes e era bem conhecida pelos pesquisadores.

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