Um guia de como superar a desinformação sobre a covid-19

Informações falsas sobre a pandemia estão desenfreadas, mas defensores experientes da ciência do clima podem oferecer dicas de como combatê-las.

Publicado 26 de out de 2020 07:00 BRT, Atualizado 5 de nov de 2020 02:56 BRST
Manifestante em protesto contra o isolamento social em Huntington Beach, na Califórnia, EUA, em 1 de ...

Manifestante em protesto contra o isolamento social em Huntington Beach, na Califórnia, EUA, em 1 de maio de 2020.

Foto de Jamie Lee Curtis Taete

SE HÁ ALGUM GRUPO que compreende bem o impacto da desinformação sobre o entendimento público da ciência, esse grupo é o de cientistas do clima. Há anos, esses cientistas tentam transmitir as descobertas de diversos estudos que mostram que o mundo está sofrendo aquecimento, enquanto combatem notícias falsas e interpretações errôneas. Atualmente, um infodêmico semelhante (excesso de informações tanto legítimas quanto ilegítimas) tem sido observado em relação ao surto de covid-19.

Na era da internet, quando artigos de pesquisa estão prontamente disponíveis, todos podem se tornar especialistas em covid-19 ou em mudanças climáticas. Mas essas mesmas pessoas também podem selecionar apenas os dados que correspondem às suas crenças e parecem abordar o assunto com propriedade. Esses tipos de personalidades são vistos na mídia tradicional, como a televisão, mas seu trabalho realmente prospera nas redes sociais e plataformas de streaming de vídeo. Parte do motivo é que as redes sociais permanecem, em sua maioria, não regulamentadas, e a atenção — ou seja, as “curtidas” e o engajamento — que recebemos em uma postagem pode nos incentivar a compartilhar.

“Parece que vivemos em um mundo de desinformação já há algumas décadas, mas a amplificação e o alcance são impressionantes com as novas plataformas”, afirmou Sarah Evanega, diretora da Alliance for Science, uma organização da Universidade Cornell dedicada a corrigir informações mal interpretadas.

E esta também é uma época de intenso partidarismo, quando as pessoas tendem a olhar para seus líderes políticos para ajudá-las a decidir como pensar sobre as questões, incluindo a ciência. Essa confiança em tendências políticas pode tornar as pessoas suscetíveis a argumentos não científicos.

Pessoas ignoram placas de fechamento em função da covid-19 em uma academia ao ar livre em Venice, na Califórnia, em 31 de março de 2020.

Foto de Jamie Lee Curtis Taete

“As pessoas dizem: ‘Bem, a Europa está abrindo as escolas, então por que não estamos abrindo as nossas?’” ou comparam a covid-19 com uma gripe, afirma John Cook, especialista em comunicação da Universidade George Mason, que estuda desinformação sobre mudanças climáticas. “Esses tipos de analogias são muito simplistas e enganosos.”

Para muitas pessoas, as mudanças climáticas e a covid-19 parecem remotas, então essas ameaças aparentemente invisíveis criam uma distância psicológica. Isso pode fazer com que as pessoas subestimem o perigo em potencial e faz com que as soluções pareçam piores do que o problema em si.

“Disseram-nos que as soluções são piores do que os impactos: ‘Destroem a economia, transformam o país em uma nação socialista’”, afirma Katharine Hayhoe, cientista climática da Universidade de Tecnologia do Texas. “As pessoas dizem essas coisas para evitar as ações climáticas e, claro, isso não é verdade.”

A desinformação pode parecer avassaladora, mas há maneiras de combatê-la, segundo aqueles que estudam seu alcance generalizado. Ao reconhecer suas características e de onde vêm, os especialistas dizem que podemos ajudar a esclarecer os fatos.

Preparando o cenário

Em todo o mundo, cientistas publicaram milhares de estudos sobre a covid-19 este ano em um ritmo vertiginoso. Embora não tenham sofrido um aumento tão drástico, os estudos sobre mudanças climáticas aumentaram exponencialmente de 1951 até o fim do milênio, tendo o número de publicações dobrado a cada 11 anos. Esse padrão ganhou força neste século, à medida que os perigos dos desastres climáticos se tornam mais aparentes.

Manifestante em uma passeata contra o isolamento social em Huntington Beach, na Califórnia, em 17 de abril de 2020.

Foto de Jamie Lee Curtis Taete

Porém, para divulgar informações sobre a covid-19 às autoridades públicas o mais rápido possível, as revistas científicas são pressionadas a apressar o minucioso exame normalmente exigido antes da publicação de novas descobertas científicas.

“Publicamos [estudos] uma semana após o envio”, disse Jennifer Zeis, diretora de comunicações do New England Journal of Medicine. “Isso não é comum. Não somos uma organização de furos de reportagem, e isso é um grande esforço para nossos recursos.”

Com a covid-19, essa pressão para obter informações que salvam vidas também levou a uma enxurrada de artigos divulgados nos chamados servidores de pré-impressão. Essas plataformas on-line permitem que os pesquisadores compartilhem seu trabalho assim que os experimentos são realizados, ao contrário das publicações acadêmicas que são mais exclusivas e exigem um processo de revisão demorado por parte dos pares cientistas de um aspirante a autor.

“Surgiu uma quantidade enorme de informações científicas importantes [sobre a covid-19]. É algo sem precedentes”, afirmou John Inglis, cofundador do medRxiv, o maior servidor de pré-publicação médica. “Obviamente, algumas coisas estão erradas.”

Pronunciado como “arquivo médico”, esse servidor de pré-publicação em particular foi inundado com novas pesquisas sobre o SARS-CoV-2. Em janeiro, o site postou 390 artigos sobre diversos assuntos, já em maio, esse número saltou para 2,2 mil, a maioria sobre a covid-19.

O medRxiv realiza um processo de triagem para garantir que um artigo de pesquisa enviado inclua resultados e não seja uma hipótese editorial ou infundada. O site, então, executa uma verificação de plágio e examina se o conteúdo do artigo consiste em alguma alegação prejudicial. Porém, afirma Inglis, esse processo não determina se o estudo é preciso, confiável ou passível de erros de interpretação.

Inglis vê os servidores de pré-impressão como uma parte natural do processo científico, mas afirma que seu público provavelmente se expandiu além dos acadêmicos, pois a covid-19 despertou o interesse dos leigos. Em maio, a página do medRxiv teve 10 milhões de visualizações e cerca de seis milhões de downloads. Isso significa que pessoas não especialistas podem acessar os documentos, interpretá-los de acordo com as suas crenças e, então, compartilhar suas opiniões com outras pessoas.

“A pré-publicação não é nociva e a revisão por pares não é perfeita. É tudo muito obscuro”, afirma Ivan Oransky, professor de jornalismo médico da Universidade de Nova York e cofundador do Retraction Watch, um banco de notícias dedicado a destacar a retratação e correção de estudos.

De cerca de 50 mil documentos e pré-publicações feitas desde janeiro sobre o SARS-CoV-2 e a covid-19, o Retraction Watch rastreou 36 artigos sobre a covid-19 que foram retratados, mas Oransky observa que normalmente leva cerca de três anos para um estudo ser corrigido.

Ele oferece um conselho sobre como consumir notícias sobre a covid-19: não confie em um único estudo para fornecer toda a verdade. Faça julgamentos apenas após diversos estudos demonstrarem consenso.

Manifestante em protesto a favor de Trump em San Clemente, na Califórnia, em 3 de outubro de 2020.

Foto de Jamie Lee Curtis Taete

Manifestante vestido como o personagem de Brad Pitt em Era Uma Vez em Hollywood, em uma manifestação contra o isolamento social em Huntington Beach, na Califórnia, em 1 de maio de 2020.

Foto de Jamie Lee Curtis Taete

Uma batalha política acirrada

A afiliação política é um dos principais aspectos que indica a probabilidade de alguém repudiar as mudanças climáticas ou a covid-19. A pesquisa de Cook mostrou que os líderes políticos podem influenciar significativamente a atitude de uma pessoa em relação às mudanças climáticas, e ele suspeita que o mesmo aconteça com a covid-19.

Por exemplo, inúmeras enquetes e grupos de estudo demonstram que a esmagadora maioria dos democratas são mais propensos a levar a covid-19 a sério, usando máscaras e praticando distanciamento social, enquanto apenas uma minoria de republicanos provavelmente fará o mesmo. Essa polarização política foi uma “tragédia evitável”, afirma Cook, apontando para a recusa precoce e persistente do presidente Donald Trump de usar máscara e praticar o distanciamento social como os principais fatores que impulsionam a divisão partidária de hoje.

“Quando nossos líderes tribais nos enviam pistas, a tribo tende a se mover nessa direção”, diz Cook. “A liderança é importante.”

Em uma análise da desinformação sobre a covid-19 realizada no início de abril, pesquisadores da Universidade de Oxford constataram que, embora a maioria das notícias falsas sobre a pandemia seja disseminada por usuários comuns das redes sociais, políticos ou celebridades mais importantes recebem mais atenção e engajamento em suas postagens.

“Um único leigo com uma grande plataforma, seja uma celebridade ou uma figura política, pode exercer um efeito desproporcional na população”, afirma Evanega.

Isso vale principalmente para a covid-19. Em um estudo publicado em setembro, Evanega e sua equipe analisaram um banco de dados com 38 milhões de conteúdos em inglês publicados entre 1 de janeiro e 26 de maio. Foram encontradas pouco mais de um milhão de matérias que divulgaram ou relataram informações incorretas relacionadas à pandemia.

A desinformação mais popular se concentrou em curas milagrosas e medicamentos sem nenhum benefício clínico comprovado que, no entanto, são tidos como eficazes. Notavelmente, sua equipe também descobriu que o presidente era o principal impulsionador individual da desinformação, aparecendo em 38% dessas matérias enganosas, e os maiores picos de desinformação ocorreram quando ele fez pronunciamentos sobre medicamentos para a covid-19.

Mesmo quando a desinformação não é disseminada por políticos, as pessoas têm dificuldade para discernir o que é real. Em um estudo publicado no fim de junho na revista científica Psychological Science, cientistas recrutaram 1,7 mil adultos para monitorar o que influenciava a probabilidade de compartilharem informações incorretas sobre a covid-19 nas redes sociais.

Dois grupos receberam manchetes que disseminavam informações falsas sobre a pandemia. O primeiro grupo foi questionado sobre a probabilidade de compartilhar a notícia, enquanto o segundo grupo foi solicitado a determinar a exatidão da manchete. Comparando os dois grupos, 32% mais participantes estavam dispostos a compartilhar uma manchete incorreta do que classificá-la como correta.

No entanto, em um segundo experimento, os participantes do estudo foram solicitados a avaliar se uma manchete era precisa antes de compartilhá-la. Os pesquisadores descobriram que essa pequena pressão para pensar de forma crítica tornou os participantes do estudo três vezes mais propensos a detectar informações incorretas.

“Nas redes sociais, as pessoas estão focadas no número de “curtidas” de amigos e seguidores — a quantidade de reforço social positivo que receberão — em vez de focar na precisão”, afirmou David Rand, um dos autores do relatório e pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts que estuda a tomada de decisões por trás da disseminação de desinformação.

Manifestante em protesto contra o isolamento social no centro de Los Angeles, em 13 de julho de 2020.

Foto de Jamie Lee Curtis Taete

Um caminho a seguir

Para combater a desinformação científica, Cook desenvolveu recentemente o protótipo de um jogo que explica diferentes táticas de desinformação. Ao mostrar aos jogadores o que seriam informações errôneas, eles aprendem a pensar de forma crítica e, no futuro, podem identificar melhor a desinformação.

Segundo ele, essa estratégia funciona em laboratório, mas não está convencido de que a desinformação possa ser combatida em escala global.

“Sou um pouco pessimista por natureza, mas tendo trabalhado em meio à negação das mudanças climáticas por 15 anos e visto e ouvido coisas horríveis, agora percebo essa mesma dinâmica em relação à covid em 2020”, afirma ele. “A negação da covid é a negação do clima em velocidade avançada.”

Hayhoe está um pouco mais otimista e continua a comunicar ativamente suas pesquisas climáticas em palestras e redes sociais. Em 2018, ela apresentou uma TED Talk — que já foi vista 3,6 milhões de vezes — sobre como comunicar as evidências científicas a respeito do clima a pessoas que são céticas em relação à ciência. Ela acredita que conversas produtivas são possíveis.

Em primeiro lugar, ela afirma: “é necessário respeito mútuo”. Ambos os lados devem chegar a um consenso — “algo em que possamos concordar” — que ajude a avançar em direção a uma solução positiva.

“A pandemia de covid-19 é uma demonstração terrível de como a desinformação tem consequências imediatas no mundo real e na saúde pública”, acrescenta Evanega. “É realmente uma questão de vida ou morte.”

 

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