Crânio intrigante pode revelar ancestral humano desconhecido

Os restos mortais foram encontrados com ferramentas frequentemente associadas aos humanos modernos, mas possuem características de hominíneos arcaicos, que já existiam há muito mais tempo.

Publicado 29 de jun. de 2021 16:30 BRT
Pesquisadores utilizaram os escassos restos do crânio encontrados em Nesher Ramla para recriar virtualmente um hominíneo ...

Pesquisadores utilizaram os escassos restos do crânio encontrados em Nesher Ramla para recriar virtualmente um hominíneo que viveu há relativamente pouco tempo, mas que possui características bastante arcaicas, incluindo a ausência de queixo.

Foto de Image by Ariel Pokhojaev, Sackler Faculty of Medicine, Tel Aviv University

Quando viram pela primeira vez os fragmentos do crânio pardo — um pedaço de neurocrânio achatado e baixo, uma mandíbula inferior quase completa mas sem queixo e um dente solitário — os paleoantropólogos israelenses logo perceberam que não se tratava de um de... nós.

Ao contrário de nós, Homo sapiens, que temos crânios altos e arredondados para abrigar nossos cérebros grandes, os restos mortais analisados pelos pesquisadores tinham características típicas de espécies mais antigas de Homo, que provavelmente chegaram ao Oriente Médio há cerca de 450 mil anos, 250 mil anos antes do surgimento do Homo sapiens. Em primeira análise, o dente parecia ser muito semelhante aos encontrados nas populações locais de hominíneos datadas de 400 mil anos atrás, bem como aos dos neandertais.

Surpreendentemente, esse crânio incomum com algumas características um tanto arcaicas acabou não tendo mais do que 120 mil a 140 mil anos, uma época em que o Homo sapiens já existia. O crânio também estava cercado por ferramentas de pedra avançadas que normalmente eram feitas por Homo sapiens de cérebros maiores ou possivelmente por neandertais. Para os paleoantropólogos, a tecnologia compartilhada sugere que diferentes tipos de Homo provavelmente tenham se encontrado.

Isso complica o cenário de um período já confuso, que se estende de cerca de 770 mil a 126 mil anos atrás: o Pleistoceno Médio. Na época, a África e a Eurásia eram povoadas por uma variedade conhecida como hominíneos arcaicos, posicionados cronologicamente entre o Homo erectus mais primitivo, que veio antes, e os neandertais e os Homo sapiens mais avançados, que vieram depois. Os vestígios de hominíneos do Pleistoceno Médio, que muitas vezes exibem um conjunto de características primitivas e mais modernas, eram frequentemente categorizados como Homo heidelbergensis, uma espécie “genérica” que, de acordo com alguns cientistas, já foi utilizada em excesso.

Mas os pesquisadores esperam que a nova descoberta também possa fornecer novas informações. Em dois artigos publicados recentemente na revista científica Science, os pesquisadores exploram as evidências que a descoberta fornece para determinar onde os restos mortais se encaixam na árvore genealógica dos hominíneos e como eles podem se relacionar a outras populações.

“Sabíamos que o Homo sapiens estava nesta região nessa época”, diz Hila May, paleoantropóloga da Universidade de Tel Aviv e uma entre os diversos autores dos artigos, “mas até o momento, não tínhamos nenhuma evidência de que outros tipos de Homo ainda existiam durante esse período”.

“As implicações são surpreendentes”, afirma o antropólogo Israel Hershkovitz, da Universidade de Tel Aviv, Explorador da National Geographic e autor principal do artigo da Science que descreve os ossos. “Dois grupos de Homo conviveram no Levante por quase 100 mil anos, trocando conhecimentos e genes.”

Habilidades impressionantes

A descoberta aconteceu em um lugar chamado Nesher Ramla, localizado em uma pedreira no centro de Israel. Depois que escavadeiras revelaram acidentalmente um tesouro de ferramentas de pedra pré-históricas na pedreira em 2010, os arqueólogos passaram quase um ano escavando em busca de evidências de atividades de caça entre 140 mil e 100 mil anos atrás: com as dezenas de milhares de ferramentas de pedra, estavam os restos de diversos animais, incluindo tartarugas, gazelas e veados, bem como evidências de abate e fogo.

Os pesquisadores consideram as ferramentas encontradas em Nesher Ramla como bastante avançadas. Originalmente, nossos ancestrais hominíneos transformaram pedras ásperas em machados afiados, talhando as lascas das bordas até que a própria pedra pudesse ser usada para cortar e cavar. Mais tarde, quando descobriram que as lascas descartadas também podiam ser utilizadas como facas mais finas, raspadores ou pontas de lança, eles desenvolveram novos métodos para talhar exatamente as melhores lascas a partir de um bom pedaço de pedra.

O específico método de talhar utilizado pelos hominíneos em Nesher Ramla é conhecido como “Levallois centrípeto”. Evidências de seu uso na região são frequentemente encontradas em restos mortais de Homo sapiens, que datam de cerca de 140 mil a 80 mil anos atrás. Os neandertais na Europa parecem tê-lo usado também mais recentemente.

Yossi Zaidner, arqueólogo da Universidade Hebraica de Jerusalém, primeiro autor do artigo a descrever as ferramentas e também Explorador da National Geographic, atesta a complexidade das técnicas de fabricação de ferramentas observadas em Nesher Ramla. “Eu mesmo talhei algumas pedras. Consigo fazer ferramentas de pedra simples, mas certamente não pontas de Levallois, pois exigem muita prática. Portanto, ainda estou no nível do Homo erectus”, brinca.

Mas como explicar a presença de um hominíneo com um neurocrânio pequeno, mais semelhante ao de espécies arcaicas de Homo, que tenha criado essas ferramentas avançadas? Será que algumas das ferramentas de pedra encontradas em Nesher Ramla foram deixadas lá pelo Homo sapiens, permitindo que seu primo distante e arcaico descobrisse como utilizar e produzir essas ferramentas?

Zaidner acredita que essa teoria provavelmente não seja verdadeira. Em primeiro lugar, ele aponta, os fragmentos de crânio foram encontrados no fundo do depósito, que tinha mais de 7,5 metros de profundidade, sugerindo fortemente que o recém-descoberto hominíneo de Nesher Ramla teria chegado ao local antes do Homo sapiens. Ainda mais importante, ele acredita que o método Levallois centrípeto não tenha se originado no Oriente Médio, mas sim na África, e que algumas das ferramentas lá encontradas podem ter sido feitas por espécies arcaicas em vez de Homo sapiens. Portanto, é igualmente possível, diz Zaidner, que o Homo sapiens tenha aprendido a tecnologia específica de talhar ferramentas com hominíneos arcaicos.

Isso teria exigido alguma interação contemporânea entre as espécies de hominíneos mais primitivas e as mais modernas, afirma a arqueóloga Alison Brooks, da Universidade George Washington, que não participou do estudo.

“A complexidade da técnica é difícil de dominar sem um treinamento considerável, auxiliado por ensino visual e oral”, explica Brooks, que também acredita que a tecnologia provavelmente se originou na África.

Zaidner concorda e acredita que os hominíneos que dominavam essas habilidades podem ter migrado para outros grupos de hominíneos, transmitindo a técnica por meio de demonstração, espalhando-a pela Europa e além.

Sem novas espécies, por favor

Quando analisaram as características dos restos do crânio para verificar em que lugar da árvore genealógica dos hominíneos ele se encaixava, os pesquisadores ficaram confusos. O espécime não parecia combinar muito bem com nenhuma espécie particular de Homo, nem mesmo com o “genérico” Homo heidelbergensis.

Alguns cientistas podem ficar tentados a afirmar que o crânio de Nesher Ramla pertence a uma nova espécie, segundo Hershkovitz. Mas ele acredita que isso não seria útil.

“Consideramos impreciso, até mesmo inapropriado, nomear um espécime tão isolado como uma nova espécie. Temos uma combinação única de características aqui. Mas isso parece ser comum em hominíneos do Pleistoceno Médio”, ele argumenta. “Para nós, sugere a presença de tipos diversos, não espécies.”

O clima instável no Pleistoceno Médio, com períodos de frio severo alternados com clima mais ameno, fez com que as populações na Europa diminuíssem e se expandissem. Quando os grupos de hominíneos tornavam-se pequenos e isolados devido às condições adversas, seus corpos e culturas desenvolviam suas próprias características peculiares. Então, quando as condições climáticas melhoraram, essas populações se expandiram, se encontraram e se misturaram com outros grupos de hominíneos, trocando cultura e genes. Isso, argumentam Hershkovitz e seus colegas, deu origem ao mosaico de características observado nas populações de hominíneos do Pleistoceno Médio.

O grupo distinto de pessoas ao qual pertencia o dono do crânio em Nesher Ramla pode ter desempenhado um importante papel nessa história, acreditam os cientistas. Como as condições no Oriente Médio na época eram mais estáveis do que aquelas mais ao norte, as populações regionais teriam sido maiores, possivelmente repovoando as regiões do norte sempre que as calotas polares recuavam.

“Achamos que os Homo de Nesher Ramla foram uma população originária de muitos dos grupos que surgiram na Europa mais tarde”, afirma Rachel Sarig, antropóloga médica da Universidade de Tel Aviv e autora do artigo. Os dentes do hominíneo de Nesher Ramla, que são semelhantes aos dentes de neandertais, podem ser um indício disso.

Provavelmente não será possível realizar uma análise genética do hominíneo de Nesher Ramla e suas relações familiares, diz May. “Em um local aberto com clima quente como este, o DNA se degrada muito mais rápido do que em cavernas ou climas mais frios”, explica ela. 

No entanto, o momento e a localização do fóssil são tentadores, e suas características bem preservadas ajudam a dar sentido a outros achados da região que foram difíceis de categorizar até agora. Isso inclui dentes de hominíneo encontrados na caverna Qesem, cerca de 32 quilômetros ao norte, que são muito semelhantes aos encontrados em Nesher Ramla, diz Sarig, mas também muito mais antigos, datando de cerca de 400 mil anos atrás.

Se isso significa que os hominíneos do tipo Nesher Ramla já estavam presentes naquela época, eles também podem ter contribuído com pelo menos alguns de seus genes para um misterioso grupo de hominíneos encontrado em Sima de los Huesos (“Poço de Ossos”), no norte da Espanha. Eles também têm dentes muito semelhantes, diz Herskovitz, e costumam ser considerados pré-neandertais.

Uma análise genética anterior dos restos mortais de Sima de los Huesos revelou uma relação intrigante com os denisovanos siberianos. Talvez eles tenham herdado características comuns por meio da população de Nesher Ramla, que pode ter tido a chance de se misturar com os ancestrais dos denisovanos quando eles passaram pelo Oriente Médio a caminho da Ásia. “Acreditamos que os primeiros membros do grupo de Nesher Ramla podem ter começado a migrar para a Europa há 400 mil anos”, afirma Hershkovitz.

O paleoantropólogo Michael Petraglia, do Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana, concorda que essas descobertas apoiam a nova visão de que “não podemos mais imaginar um modelo simples e unilinear de nossa evolução. Houve muitas expansões, contrações e extinções.”

Shara Bailey, paleoantropóloga da Universidade de Nova York que não participou do estudo, concorda que os fósseis de Nesher Ramla apresentam “uma combinação de características arcaicas e neandertais distintas”, mas acrescenta que “é sempre difícil determinar se um único fóssil pode ser considerado indicativo de como era a população.”

Em qualquer caso, ela diz, “acredito que todos nós (ou a maioria) estamos começando a aceitar uma imagem muito mais turva da evolução humana durante o Pleistoceno Médio, uma visão que mudou muito em relação ao que se acreditava há algumas décadas.”

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