A polêmica venda de ‘Big John’, o maior tricerátops do mundo

A venda do fóssil por US$ 7,7 milhões preocupa especialistas, pois temem que o aumento dos preços torne inacessíveis fósseis de grande valor científico.

Publicado 14 de nov. de 2021 08:34 BRT
Big John

Leiloeiro Alexandre Giquello supervisiona o leilão do fóssil de tricerátops conhecido como “Big John”. Em 21 de outubro, Big John foi arrematado por um comprador norte-americano anônimo por US$ 7,7 milhões, incluindo taxas.

Foto de Michel Stoupak, NurPhoto via Getty Images

Em 2014, Walter Stein explorava um rancho no condado de Perkins, no estado da Dakota do Sul, Estados Unidos, quando tropeçou em um conjunto de ossos coberto por raízes em uma encosta exposta devido à erosão. Stein percebeu que estava diante de chifres de Triceratops e, apesar do desgaste dos ossos, notou que pertenciam a um indivíduo grande.

Fundador da PaleoAdventures, empresa da Dakota do Sul que escava fósseis para venda comercial, Stein apelidou o fóssil de “Big John” em homenagem ao proprietário do rancho onde foi encontrado. Por seis anos, ele manteve o Triceratops na esperança de que um museu dos Estados Unidos o adquirisse, mas nenhum se prontificou. Então, em 2020, vendeu o fóssil a uma empresa italiana que o preparou para ser leiloado. No mês passado, com ampla divulgação e exorbitantes US$ 7,7 milhões pagos por um comprador anônimo, Big John se tornou um grande negócio — e acirrou um debate contínuo e acalorado entre cientistas, leiloeiros, paleontólogos comerciais e proprietários de terras.

Big John é apenas o último fóssil de grande notoriedade vendido por milhões de dólares. Há pouco mais de um ano, um esqueleto cientificamente importante de  T. rex apelidado de Stan foi arrematado por um comprador anônimo em um leilão determinado pela justiça por US$ 31,8 milhões — o maior valor já pago por um fóssil. Alguns cientistas temem que o aumento dos preços de ossos primitivos restrinja futuros fósseis a acervos particulares, impedindo o acesso de pesquisadores que desejam estudar os restos insubstituíveis.

Com um crânio reconstruído com mais de 155 centímetros de comprimento, a cabeça de Big John é alguns centímetros maior do que qualquer crânio de Triceratops documentado na literatura científica, conferindo ao dinossauro um recorde mundial no Guinness.

Em 21 de outubro, as casas de leilões parisienses Binoche et Giquello e Hôtel Drouot venderam Big John em nome da Zoic, empresa italiana de fósseis, pelo preço mais alto já pago em um leilão europeu por um fóssil — e o preço mais alto já pago em leilão por uma criatura fóssil diferente de um Tyrannosaurus rex.

Embora seja incomum encontrar um crânio de Triceratops com o esqueleto, como foi o caso de Big John, o estado de conservação do dinossauro — com 75% de seu crânio e 60% do esqueleto completos — não é algo inédito, e seus ossos variam de amplamente conservados a desgastados. O fóssil montado é bastante vistoso, e o animal possui uma laceração intrigante em sua gola óssea que cicatrizou em vida. Ainda assim, “seu valor científico é bastante limitado”, afirma Denver Fowler, curador do Museu de Dinossauros de Badlands, no Centro de Museus de Dickinson, na Dakota do Norte.

Cientificamente, o fato de Big John ter o maior crânio conhecido entre os Triceratops documentados é “basicamente irrelevante”, reconhece Iacopo Briano, dono de galeria e especialista em leilões de história natural que trabalhou com a Binoche et Giquello na promoção da venda de Big John. “O que o fato de ser o maior adiciona à ciência ou ao nosso conhecimento sobre dinossauros?” Contudo, como publicidade a colecionadores particulares, acrescenta ele, “chama bastante a atenção”.

O valor de um fóssil

Big John é um dos mais de 100 fósseis conhecidos de Triceratops, um dos dinossauros mais comuns encontrados na formação Hell Creek, no oeste da América do Norte, que contorna regiões dos estados de Montana, Dakota do Norte, Dakota do Sul e Wyoming.

Nos Estados Unidos, apenas pesquisadores com autorização do governo podem coletar fósseis em milhares de hectares de terras federais, e esses restos devem ser mantidos sob custódia pública em instituições como museus. No entanto fósseis encontrados em terras privadas — como Big John — pertencem ao proprietário e podem ser comprados e vendidos legalmente.

Os Estados Unidos são um dos poucos países que permitem esse tipo de comércio. Em Alberta, no Canadá, por exemplo, fósseis encontrados naquela província não podem ser exportados de acordo com uma lei promulgada na década de 1970 que determina que fósseis são parte do patrimônio natural de Alberta — uma medida jurídica em resposta à retirada de fósseis raríssimos de dinossauros da província por parte de museus estrangeiros durante décadas. Outros países ricos em fósseis, como o Brasil, a China e a Mongólia, possuem leis semelhantes, embora persistam mercados clandestinos que comercializam os fósseis desses países.

Os paleontólogos acadêmicos possuem diferentes pontos de vista sobre o comércio lícito de fósseis, alguns o aceitam relutantemente, outros manifestam oposição firme. Jessica Theodor, paleontóloga da Universidade de Calgary e presidente da Sociedade de Paleontologia de Vertebrados, que representa paleontólogos de todo o mundo, afirma que receia que os leilões transformem fósseis em objetos de coleção de luxo e legitimem ainda mais o comércio global de fósseis.

“Entendo o desejo de observar e possuir um fóssil... Toda criança que sempre quis ser paleontóloga teve esse desejo”, conta ela. “Mas a realidade é que os fósseis não são infinitos... É preciso aprender o máximo possível com eles e, para tanto, é necessário que estejam em museus, acessíveis à observação e ao estudo.”

Das colinas da Dakota do Sul às salas de leilão de Paris

Big John morreu há cerca de 66 milhões de anos e foi soterrado em uma antiga planície aluvial que se tornou um rancho particular a cerca de 110 quilômetros a nordeste de Rapid City, na Dakota do Sul. O Triceratops permaneceu intacto até que Stein tropeçou em chifres que se projetavam de uma colina.

Stein informa que está sempre em busca de novas propriedades para escavar, fechando acordos com seus proprietários para obter permissão para explorar suas terras. Em 2014, ele conheceu o proprietário Big John, do qual deriva o nome do fóssil, que disse que, em 50 anos, nenhum paleontólogo acadêmico ou comercial havia pedido para escavar sua terra.

À medida que Stein e seus colegas escavavam a encosta, a qualidade dos ossos ficava cada vez melhor. A equipe coletou amostras, analisou as camadas de rocha onde o Triceratops estava sepultado e cuidadosamente mapeou e fotografou o local: detalhes críticos para qualquer pesquisa acadêmica futura ou venda comercial. “Escavar o esqueleto de um dinossauro não é e nem nunca deveria ser uma caça a troféus”, declarou Stein em entrevista por e-mail.

Apesar de documentar cuidadosamente a escavação de Big John, Stein teve dificuldades para encontrar um comprador entre museus nos Estados Unidos porque, entre outros motivos, o espécime não estava preparado, ainda estava coberto de rocha e protegido por volumosas camadas de gesso. Quem comprasse Big John teria que preparar o enorme esqueleto do Triceratops. Muitos museus possuem orçamentos e espaços limitados e também podem ter relutado em manter contato com um paleontólogo comercial, observa Stein.

Em 2020, Flavio Bacchia, diretor da Zoic, empresa que vendeu Big John, concordou em comprá-lo de Stein por algumas centenas de milhares de dólares.

O fóssil chegou à sede da Zoic em Trieste, Itália, em duas etapas: uma em novembro de 2020 e outra em janeiro de 2021. Foram necessários cinco preparadores que trabalharam até o fim de julho para remover cuidadosamente a rocha dos ossos do Triceratops e montar o esqueleto em uma estrutura. Membros da equipe de Bacchia também esculpiram, moldaram e imprimiram em 3D as peças que faltavam para completar o exemplar em exposição.

Quanto mais completo ficava o esqueleto de Big John, mais Iacopo Briano, especialista em leilões de fósseis, apreciava o resultado. Briano colabora regularmente com Bacchia em leilões de dinossauros, assumindo a liderança em sua divulgação. Impressionado com o tamanho do crânio de Big John, Briano percebeu que “era algo totalmente inédito para o mercado de leilões”.

Para facilitar a venda, o crânio de Big John pôde ser declarado como o maior do gênero — uma constatação devida à Universidade de Bolonha, na Itália.

Federico Fanti, paleontólogo da Universidade de Bolonha e Explorador da National Geographic cujo estudo foi financiado pela National Geographic Society, indicou um de seus alunos como estagiário na Zoic ao saber que a empresa estava comprando Big John. Quando o Triceratops foi retirado das rochas, o aluno de Fanti mediu seu crânio e o comparou com dois conjuntos de dados de dezenas de crânios de Triceratops. Qual foi o resultado final? O crânio de Big John era vários centímetros maior do que os crânios em registro.

O trabalho do aluno resultará em uma tese de graduação, revela Fanti, mas talvez nunca seja publicado em um periódico científico formal, pois os periódicos estão cada vez mais receosos de publicar estudos baseados em fósseis de acervos particulares. Ainda assim, Fanti afirma que valeu a pena reunir dados sobre Big John antes de sua venda oficial. “Se um cientista tiver a oportunidade de verificar, observar e registrar as partes científicas de um espécime, é melhor do que nada”, conta ele. “Obtive medidas, fotos e dados 3D de Big John, agora disponíveis à ciência.”

Com o avanço dos preparativos de Big John, o interesse na região cresceu. Em 30 de julho, Zoic expôs o fóssil totalmente montado em uma instalação temporária na praça central de Trieste. Bacchia afirma que milhares de pessoas vieram visitar Big John durante três dias. Dezenas de crianças formaram filas para tirar fotos com o Triceratops.

Briano então providenciou o envio de Big John para um bairro chique de Paris, onde ficou exposto nas vitrines de uma antiga loja da Gucci em setembro de 2021. Uma ampla campanha publicitária e cobertura da imprensa aumentaram a visibilidade do Triceratops, resultando em uma participação sem precedentes no leilão.

Compradores interessados começaram a chegar com semanas de antecedência, algo incomum em leilões de fósseis, comenta Briano. Muitos manifestaram interesse pela beleza escultural do fóssil. “É a arte de Deus”, observa Bacchia.

Em 21 de outubro, os lances tiveram início. De acordo com Briano, o grupo inicial era composto por várias celebridades de Hollywood e uma das famílias mais ricas do Japão, além de outros possíveis compradores dos Estados Unidos e da Europa.

Em menos de meia hora, o grupo foi reduzido a apenas um homem segurando a placa 3: Djuan Rivers. Rivers, que atualmente mora em Paris, revela ter sido o representante de um amigo de longa data (que não quis se identificar) que desejava incluir Big John em sua coleção de arte. Rivers se aposentou no início deste ano como vice-presidente do parque temático Animal Kingdom do Walt Disney World (a The Walt Disney Company é proprietária majoritária da National Geographic Partners).

O maior Triceratops

Após o leilão, algumas das pessoas que testemunharam a jornada de sete anos de Big John expressaram diferentes opiniões sobre a venda.

“Por um lado, estou feliz que o esqueleto finalmente foi preparado, reconstruído e montado. Os italianos fizeram um bom trabalho expondo-o e mostrando-o ao público. Muitas crianças na Europa tiveram a oportunidade de ver um verdadeiro Triceratops de perto, o que foi ótimo!”, escreveu Stein por e-mail. “Por outro lado, lamento muito que tenha sido vendido e espero que os novos proprietários possam mantê-lo em um museu ou ao menos em exposição, para que outros possam desfrutar e aprender com ele também.”

Os paleontólogos comerciais nos Estados Unidos há muito argumentam que seu ramo de atividade incentiva a descoberta de fósseis importantes porque o lucro incita a exploração. As mais conceituadas dessas empresas escavam e preparam fósseis de acordo com padrões elevados e entram em contato com museus e pesquisadores quando encontram fósseis de importância científica evidente.

Briano alega que, ao adotar padrões legais rigorosos, os leilões públicos oferecem aos colecionadores uma alternativa confiável a fósseis obtidos ilegalmente. Stein acrescenta que, sem um mercado lícito de fósseis, alguns fósseis em terras privadas nunca teriam sido escavados devido à falta de incentivos financeiros, o que faria com que esses fósseis nunca tivessem a oportunidade de entrar em um museu. “Os processos naturais de desgaste e erosão não são interrompidos” e, por isso, esqueletos importantes seriam decompostos com o tempo e perdidos para a ciência e colecionadores particulares, conta ele.

A Sociedade de Paleontologia de Vertebrados, por sua vez, se opõe aos leilões de fósseis e desestimula o estudo de fósseis de propriedade privada por temer que pesquisadores e o público não recebam garantia de acesso a eles. Um mês antes do leilão de Big John, a sociedade enviou uma carta à Hôtel Drouot pedindo que restringisse os compradores a instituições públicas de pesquisa, mas os leiloeiros responderam que a venda não poderia ser restringida, segundo Theodor.

O impacto do comércio de fósseis sobre a ciência dependerá, em grande medida, de seu local de descoberta. A maioria dos paleontólogos comerciais nos Estados Unidos concentra sua exploração na formação Hell Creek, bastante estudada, onde os fósseis são relativamente abundantes. No entanto, em alguns trechos de terras majoritariamente privadas em outras regiões, como no oeste de Montana, os fósseis são muito mais raros — e mais propensos a ter importância científica. “Receio que alguns recursos cruciais sejam esgotados”, afirma Fowler, curador do Museu de Dinossauros de Badlands.

O maior obstáculo para Fowler é a enorme discrepância entre os elevados preços pagos por restos de dinossauros em leilões e como esse dinheiro poderia ser investido na própria ciência. O orçamento anual de campo de Fowler é de US$ 19 mil, do qual faz amplo uso: na metade deste ano, ele conseguiu transportar um esqueleto de tiranossauro articulado para fora da área encontrada com um helicóptero, com sobra de recursos.

Com o dinheiro gasto com Big John, Fowler poderia reunir vastas quantidades de dados para pesquisa e compreensão futuras, “eu poderia escavar 50 Triceratops”, brinca ele.

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