Como a ciência vem reagindo ao aumento das alergias alimentares?

Segundo os especialistas, é um momento emocionante para o campo da alergia. Confira o que você deve saber sobre as causas das alergias alimentares e as novas pesquisas que podem nos ajudar a lidar com elas.

Smith Craft, de 9 anos, fotografada em 2018 depois de participar de um ensaio clínico para o medicamento de imunoterapia oral Palforzia, que protege contra as reações graves à exposição acidental a amendoim. Aprovado pelo FDA em 2020, é o primeiro e único medicamento para alergia ao amendoim.

Foto de Eamon Queeney The New York Times, Redux
Por Allie Yang
Publicado 26 de dez. de 2022 08:00 BRT

Os especialistas as chamam de “nove grandes”: leite, ovos, nozes, peixes, crustáceos, mariscos, trigo, soja e gergelim. Essas são, de longe, as alergias alimentares mais comuns, e podem surgir em qualquer idade. Na melhor das hipóteses, as alergias alimentares exigem cautela e mudanças no estilo de vida; no pior dos casos, elas podem desencadear uma reação com risco de vida conhecida como anafilaxia.

Apesar de alguns desafios na medição contra as alergias alimentares, os dados sugerem que as taxas explodiram nas últimas décadas. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças relatam que as alergias alimentares em crianças aumentaram 50% entre 1997 e 2011. De 2005 a 2014, as visitas de emergência nos hospitais por anafilaxia entre crianças de 5 a 17 anos aumentaram quase 200%.

Nos Estados Unidos, uma pesquisa publicada no Journal of the American Medical Association mostra que mais de 32 milhões de pessoas têm pelo menos uma alergia alimentar, incluindo cerca de 6 milhões de crianças, o que representa aproximadamente duas crianças em cada sala de aula. Os dados também revelaram pistas sobre como a genética e o ambiente podem contribuir para o aumento do número de alergias.

Especialistas destacados conversaram conosco a respeito das pesquisas mais recentes sobre alergias alimentares e a tecnologia mais inovadora que estamos usando para combatê-las.

O que é uma alergia alimentar?

É difícil identificar o número de pessoas com alergias alimentares específicas, em parte porque existem muitos tipos de sensibilidades alimentares com sintomas que imitam uma reação alérgica. Por exemplo, a intolerância à lactose pode desencadear dor de estômago como uma reação alérgica – mas tecnicamente é um problema do sistema digestivo e não uma alergia ao leite.

Segundo Ruchi S. Gupta, diretora do Centro de Pesquisa de Alergia Alimentar e Asma (Center for Food Allergy & Asthma Research, Cfaar) da Faculdade de Medicina da Universidade de Northwestern (EUA), a melhor maneira de saber com certeza que uma reação ruim à comida é realmente uma alergia é ser diagnosticado por um médico. Depois de saber que é uma alergia, diz ela, você pode desenvolver um plano para tratá-la.

As sensibilidades alimentares são muitas vezes confundidas com alergias alimentares. O teste de contato (APT) é uma maneira de determinar se um alimento está realmente causando uma reação alérgica, embora o Dr. Edwin Kim observe que isso, junto com o exame de sangue, são métodos imperfeitos de diagnóstico, pois requerem interpretação.

Foto de Benoit Durand HANS LUCAS, REDUX

O que torna uma alergia alimentar diferente de outras sensibilidades é uma resposta do sistema imunológico. Em uma reação alérgica, erroneamente o corpo considera como perigosa uma proteína inofensiva, como a do amendoim – as proteínas que causam uma reação alérgica são chamadas de alergênicas. O corpo, então, produz um anticorpo chamado imunoglobulina E (IgE) para combater o invasor.

Esses anticorpos se ligam a certas células imunológicas – eosinófilos, mastócitos, basófilos – que, quando ativados, liberam uma substância química chamada histamina. Isto pode produzir uma reação alérgica em qualquer um dos quatro principais sistemas de órgãos: intestino, pele, pulmões e coração. Os sintomas incluem coceira e erupções cutâneas, contração muscular nos pulmões, vômitos e diarreia.

Quando mais de um dos quatro sistemas está envolvido – por exemplo, quando um paciente apresenta sintomas tanto no intestino, como vômitos, quanto nos pulmões, como dificuldade para respirar – é chamado de anafilaxia. Nesse caso, o hormônio epinefrina, administrado por meio de uma injeção de EpiPen, pode ser usado para relaxar e abrir os músculos das vias aéreas para facilitar a respiração.

“Os problemas respiratórios e cardíacos são os mais alarmantes, porque é realmente onde você está falando sobre reações potencialmente fatais”, alerta Edwin Kim, chefe da divisão de Alergia e Imunologia Pediátrica da Universidade de Carolina do Norte (EUA) e diretor da Iniciativa de Alergia de Alimentos da universidade.

Não há alergias alimentares leves ou graves, mas apenas reações leves ou graves. As reações podem ser um tanto imprevisíveis: um alergênico que causou uma reação leve no passado pode causar uma reação mais extrema no futuro e vice-versa.

Por que houve aumento nos casos de alergias alimentares?

Existem duas causas para alergias alimentares: fatores genéticos e ambientais. Gupta diz que a genética por si só não pode explicar esse rápido aumento de alergias. O que sabemos, diz Kim, é que as crianças têm maior probabilidade de ter alergias se ambos os pais apresentarem desregulação imunológica, sejam alergias sazonais ou eczema.

Enquanto isso, duas teorias principais examinam os fatores ambientais que levam às alergias alimentares. A hipótese da higiene postula que a obsessão de uma sociedade com a limpeza reduz nossas exposições iniciais a alergênicos – tornando, portanto, nosso sistema imunológico mais propenso a reagir exageradamente a proteínas inofensivas comuns e desencadear uma reação alérgica.

Em muitas partes do mundo, as crianças também passam menos tempo perto da terra e do gado como no passado – o que pode explicar por que alguns estudos mostraram que as áreas urbanas têm mais alergias alimentares do que as áreas rurais.

“Muitas vezes falamos sobre a importância dos primeiros cem dias ou primeiro ano de vida para que os corpos dos bebês vejam coisas diferentes, como brincar na terra ou ser exposto a diferentes tipos de alimentos”, diz Gupta. Por temor as alergias, os pais se tornaram excessivamente cautelosos ao introduzir alimentos para seus bebês, acrescenta.

Mas a hipótese da higiene não explica completamente por que as alergias estão aumentando. Os pesquisadores descobriram que altas exposições a um determinado alimento (como frutos do mar na Ásia), às vezes, estão associadas a uma maior prevalência de alergias a esse alimento. E aqui surge a hipótese da dupla exposição: essa teoria postula que a chance de desenvolver uma alergia alimentar aumenta se um bebê for exposto a vestígios de um alergênico (respirando ou tocando nele) antes de comê-lo.

Robert A. Wood, chefe da Divisão Eudowood de Alergia e Imunologia do Centro Infantil Johns Hopkins (EUA), dá o exemplo de um pai passando loção na pele de seu bebê. Se o pai tiver uma quantidade muito pequena de proteína de amendoim em suas mãos, a teoria sustenta que isso pode tornar a criança mais propensa a desenvolver uma alergia a amendoim mais tarde.

Essas são, de longe, as duas hipóteses mais estudadas. Outras incluem as mudanças nos sistemas de cultivo ou embalagem dos alimentos, bem como as implicações que podem ter as mudanças climáticas.

Quais são os tratamentos disponíveis hoje e no futuro?

As pesquisas mostram que a prevenção é fundamental. A organização sem fins lucrativos norte-americana Food Allergy Research and Education incentiva  as crianças a comerem amendoim o mais cedo possível; as investigações sugerem que métodos de prevenção semelhantes também são eficazes para outras alergias alimentares, diz Kim.

Os tratamentos se enquadram em duas categorias: a imunoterapia, que aumenta a tolerância aos alergênicos por meio de pequenas doses, e os biológicos, que interrompem o anticorpo IgE que causa reações alérgicas.

Um menino carrega sua mochila, rotulada com um alerta de alergia e medicação em Broken Arrow, Oklahoma. Nos Estados Unidos, aproximadamente de 80% das crianças alérgicas a ovos, leite e trigo superam as alergias, mas apenas 20% a 25% das crianças superam a alergia ao amendoim.

Foto de Melissa Lukenbaugh THE NEW YORK TIMES, REDUX

Os tratamentos de imunoterapia foram amplamente estudados e, em 2020, a Agência Federal de Medicamentos (FDA) aprovou o primeiro (e único até agora) tratamento desse tipo. A droga, Palforzia, é uma imunoterapia oral na qual pequenas doses altamente controladas de proteína de amendoim são administradas diariamente por meio de pílulas. 

O objetivo do medicamento é prevenir uma reação grave no caso de uma exposição acidental – o que significa que as pessoas que tomam o medicamento ainda precisam evitar o amendoim sempre que possível. Também existem ensaios clínicos para desenvolver tratamentos que possam tratar alergias ao amendoim por meio de manchas na pele.

Não há tratamentos aprovados pela FDA para alergias além do amendoim. Alguns alergistas administram doses improvisadas desses alergênicos aos pacientes, diz Wood, mas a prática traz riscos. O pó de amendoim obtido no supermercado, por exemplo, depende de um sistema comercial de rotulagem de alimentos que nem sempre é preciso, dificultando a dosagem correta.

Como ataca apenas uma alergia por vez, a imunoterapia não é eficaz para os 40% das crianças que têm múltiplas alergias alimentares. Mas os medicamentos biológicos podem ser a solução bloqueando os anticorpos IgE. Por exemplo, o remédio omalizumabe se liga aos receptores das células imunes antes que um anticorpo IgE chegue até eles, impedindo a ocorrência da reação alérgica.

Wood espera que o omalizumabe, atualmente vendido sob o nome Xolair, para tratar a asma, possa ser aprovado para tratar alergias alimentares nos próximos anos. Em vez de uma pílula diária, é uma injeção administrada a cada duas semanas, e as primeiras pesquisas mostram que os pacientes que tomam esta droga podem tolerar uma grande quantidade de um alergênico. Os efeitos colaterais da droga incluem dor nas articulações, tontura e fadiga.

Embora seja um momento emocionante para o campo da alergia, “a cura não está no vocabulário”, pondera Wood. Tanto a imunoterapia quanto os medicamentos biológicos precisariam ser tomados indefinidamente, e se um paciente interrompesse o tratamento, sua alergia apareceria novamente. “No momento, não vemos nada que se assemelhe a uma cura, mas obviamente esse é o grande objetivo”.

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