Cultura

Marañón, Fernãoburgo e cyri-gi-pe: a origem dos nomes dos estados do Nordeste brasileiro

Termos em tupi-guarani, acidentes geográficos ou uma mistura dos dois podem estar por trás da maior parte das nove unidades federativas da região.quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Por João Paulo Vicente
A origem de Maranhão, estado que abriga os Lençóis Maranhenses, é uma das mais misteriosas entre os estados brasileiros. Sabe-se que vem de Marañón, mas o termo pode ter origem tupi-guarani e significar "o mar que corre" ou vir do espanhol e se referir a cajueiros.

Cezar Neri, professor do curso de Letras no Campus do Sertão da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), sintetiza a dificuldade de identificar a origem exata do nome de um lugar com um caso bastante ilustrativo. Durante uma pesquisa sobre a toponímia de cidades sergipanas, ele chegou a Aquidabã, com pouco mais de 20 mil habitantes e distante cerca de 100 km da capital Aracajú.

“Eu entrevistei um professor da rede municipal sobre a motivação por trás do nome e ele me contou que viajantes que passavam pela região decidiram descansar por ali. Estavam cansados e falaram ‘Aqui tá bom’. Com o tempo, teria virado Aquidabã”, conta Cezar. “Aquidabán, na verdade, é o nome de um rio no Paraguai. A cidade faz menção à vitória brasileira na Guerra do Paraguai. Mas é muito comum essa ressignificação das motivações”.

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A explicação surge no meio de uma discussão sobre o Maranhão, estado mais ao norte do Nordeste. Maranhão veio de Marañón, isso não se questiona. Mas de onde veio essa primeira palavra?

Depois de falarmos sobre o Norte e Centro-Oeste, no segundo texto da série da National Geographic sobre o nome dos estados brasileiros, vamos ao Nordeste. Termos em tupi-guarani, acidentes geográficos ou uma mistura dos dois estão por trás da maior parte das nove unidades federativas da região, mas isso não significa que não existam mistérios por lá.

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De volta ao Marañón, o termo remonta ao século 16 – na verdade, o próprio rio Amazonas e toda a região ao seu redor foram chamados assim durante décadas. Do espanhol, especula-se que, por trás da palavra, esteja a ideia de que ali não era o mar, assim como há a possibilidade de se referir aos cajueiros.

Do tupi-guarani, por outro lado, o nome pode vir da expressão ‘o mar que corre’. “É algo próprio do rigor científico questionar até que ponto mesmo clássicos da etimologia tupi são verdade”, diz Cezar. “O maior livro que temos sobre o tema, de Teodoro Sampaio, é de 1901. Há uma distância temporal muito grande, e mesmo de cosmovisão, para entender nomes cunhados nos séculos 16, 17 e 18”, afirma o pesquisador.

O Maranhão, já com esse nome, chegou a ser administrado pela coroa portuguesa como um estado à parte do restante do Brasil entre os séculos 17 e 18.

Sergipe, por sua vez, é menos controverso. Vem do tupi ‘rio dos siris’, ou cyri-gi-pe. O rio Sergipe banha Aracajú, a capital, que, entre outros atrativos turísticos, é famosa por pratos à base de caranguejos. (Tudo bem que siris e caranguejos são animais diferentes, mas esse é um mistério que fica para outra oportunidade). O estado virou província já com esse nome, em 1822.

Origem portuguesa

Os dois estados que fazem fronteira com Sergipe têm nomes de origem portuguesa. Alagoas, ao norte, e Bahia, ao sul, também não guardam grandes segredos. Bahia vem da Baía de Todos os Santos, a maior baía do Brasil.

Ainda que não esteja no nome dos estados, vale explicar o porquê do “de Todos os Santos”. O nome foi dado pelo navegador italiano Américo Vespúcio, que aportou ali em 1501, no dia primeiro de novembro – o dia de todos os santos. No Sul e Sudeste, a explicação das toponímias do Espírito Santo, Rio de Janeiro e Santa Catarina é parecida (mais isso é assunto para a próxima reportagem). A província da Bahia surgiu um ano antes de Sergipe, em 1821.

Já o nome de Alagoas se origina nas diversas grandes lagoas presentes no estado, como a Mundaú e a Manguaba. Ainda no século 17, antes de ser independente de Pernambuco, a região já era designada como Comarca de Alagoas.

A versão mais comum sobre Pernambuco diz que, por trás desse nome, está a mesma raiz em tupi (pa’ra) que Pará, Paraná e a Paraíba. No caso de Pernambuco, o termo na língua indígena seria paranãpuka, algo como “buraco no mar” ou “furo que o mar faz”. “A interpretação mais aceita é a de que o nome faz referência ao braço de mar que separa a Ilha de Itamaracá do continente”, diz George Félix Cabral, professor do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

O professor conta que, além de outras leituras para a expressão em tupi, tem surgido uma versão que Pernambuco vem de Fernãobourg - o burgo de Fernando, em referência a Fernando de Noronha, primeiro português a receber da coroa portuguesa permissão para explorar pau-brasil por aqui. “Até o nome se estabilizar como Pernambuco, você encontra pelo menos doze variantes. Eu, particularmente, permaneço fiel à versão de que o nome vem do tupi. É muita ginástica linguística transformar Burgo de Fernão em Pernambuco”, afirma George.

Milton Marques Junior, professor do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), lembra que Pernambuco é citada na primeira obra em língua portuguesa produzida no Brasil, Prosopopeia, de Bento Teixeira, escrita em 1601 e publicada apenas no século 17.

Esta é a estrofe 19 do poema:

Em o meio desta obra alpestre e dura,

Uma boca rompeu o Mar inchado,

Que, na língua dos bárbaros escura,

Pernambuco de todos é chamado.

De Para’na, que é Mar; Puca rotura,

Feita com fúria desse Mar salgado,

Que sem, no derivar, cometer míngua,

Cova do Mar se chama em nossa língua.

“Paraíba significa ‘rio ruim, impraticável’ ou ‘rio mau’, diante da dificuldade de navegação nesse rio que dá nome ao estado”, diz Milton. Outra versão é de que o nome na realidade significa ‘grande enseada’. De qualquer forma, a capitania da Paraíba foi fundada ainda em 1585.

Referência literal

Assim como Alagoas e Bahia, o Rio Grande do Norte é bastante literal. É uma referência ao rio Potenji (que por sua vez significa ‘rio dos camarões’ em tupi), cujo estuário é muito grande. O curioso é que, apesar de a região ser chamada de Rio Grande desde o século 16, só virou do Norte no século 18, quando surgiu o Rio Grande do Sul.

Mais acima, no começo do século 17, o Ceará era Siará Grande, por conta de um rio chamado Siará. De novo, não existe certeza sobre o significado do termo. Uma das teorias diz que trata-se de uma adaptação de Saara, o deserto, por conta das dunas da região. Outra afirma que a palavra vem de uma expressão em tupi para o local onde há caça abundante.

“A tese mais difundida e simpática é a de que o termo vem de algo como ‘canto da jandaia’”, diz Francisco Pinheiro, professor da Universidade Federal do Ceará e ex-vice-governador do estado. Um dos responsáveis pela popularização dessa vertente é o escritor José de Alencar, que faz menção a ela no livro Iracema, de 1865.

Capitania durante o século 17, o Ceará se tornou autônomo no finalzinho do século 18, em 1799, após passar quase cem anos subordinado a Pernambuco.

Por fim, o Piauí, que fazia parte do Ceará até tornar-se independente em 1811. De novo, a origem do nome do estado está no tupi. Segundo leituras diversas, pode significar ‘rio das piabas’, sendo piaba um termo genérico para designar peixes pequenos, ou ‘rio dos piaus’, uma espécie de peixe de pequeno porte caracterizado por três manchas pretas ao longo do corpo.

O piau é um peixe bom de briga e bastante resistente. Assim como os nordestinos.

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