Técnicos do SUS levam vacina em casa e devolvem esperança ao sertão do Brasil

Fotógrafo acompanhou equipe de vacinação em trajetos para imunizar população da zona rural do Cariri paraibano.

O agricultor Severino Esperidião é vacinado em sua roça, no sítio Balanço, município de Prata, na Paraíba, a cerca de 300 km da capital João Pessoa. “Ave Maria, nós isolados aqui, num canto desses, e recebendo a vacina dentro de casa. A gente fica tão feliz que começa a achar até que essa doença nem existe!”, disse ele em entrevista à reportagem.

Foto de Miguel Salvador
Fotos de Miguel Salvador
Publicado 11 de jun de 2021 11:51 BRT

“Boa noite, quem é? Eu não sei ler.” Essa foi a resposta que chegou por áudio no meu Whatsapp – vinha do Brasil rural para o Brasil da metrópole. Esta repórter – que vive em São Paulo – havia enviado uma mensagem de texto a uma das pessoas retratadas pelo fotógrafo autor das imagens desta reportagem, que acompanhou uma equipe de vacinação no interior da Paraíba. Em tempos de pandemia de covid-19, fazer contatos com possíveis entrevistados à distância acabou se tornando – devido a óbvias questões sanitárias – quase uma norma.

No entanto, esses momentos escancaram a gigantesca distância – geográfica e social – entre as capitais e o interior do país. Uma distância que foi rapidamente vencida pelo coronavírus e que agora tem que ser superada pelas vacinas na corrida para salvar vidas.

A resposta era da filha de um senhor de mais de 100 anos, que, desconfiado, não quis gravar entrevista. Ele foi um dos primeiros a ser vacinado contra a covid-19 em Prata (PB), cidade com cerca de 4 mil habitantes a 130 quilômetros da capital João Pessoa. Lugar tranquilo, onde pouco chove, e cuja maioria da população vive na zona rural. Por lá, todos os profissionais da saúde e idosos já foram imunizados e já fazem parte dos cerca de 11% da população brasileira integralmente protegido contra o coronavírus.

A chegada da vacina em Prata é a última etapa de uma operação logística extraordinária, que começa com a partida do insumo farmacêutico ativo (IFA) de Pequim, na China, a mais de 17 mil quilômetros de distância do Brasil. Chegando aqui, o IFA é utilizado na produção dos imunizantes no Rio de Janeiro ou São Paulo, num processo que dura no mínimo 15 dias. Só então os frascos embalados viajam mais alguns milhares de quilômetros até as centrais de distribuição estaduais, onde as doses são separadas proporcionalmente de acordo com a população de cada local. Dali, partem até os braços dos cidadãos dos 5.568 municípios brasileiros.

Entre esses braços está o de Severino Espiridião de Freitas, 70 anos, que, ao lado de sua plantação, de óculos escuros e com um sorriso no rosto, levantou a manga da camiseta da seleção brasileira para receber uma dose de esperança, como a vacina já foi chamada por outros entrevistados. Nascido em Costado, a um quilômetro de Prata, Severino estudou até a 4ª série e diz que “graças a Deus, praticamente o que eu sei é ler bem meu nome e já estou achando demais”. Aos 20 anos, após casar-se, Severino migrou de ônibus para São Paulo. Contratado como soldador, função que exerceu durante boa parte da vida, passou dois anos na metrópole antes de ser enviado pela empresa em que trabalhava para trabalhar em estados do nordeste brasileiro. “Eu nem sabia o que era soldar, mas um colega me convidou e fui, fiquei anos trabalhando com isso”, conta.

Benivaldo Souza toma vacina em casa, em frente à parede de retratos organizado por sua esposa, Josefa Maria Freire Souza. "É um grande mural da família, as pessoas tiram as fotos e me mandam, ou eu mesma faço, depois levo na vidraçaria para enquadrar”, disse Josefa à reportagem.

Foto de Miguel Salvador

Já vacinada, Dona Josefa recebe a reportagem para um rápido retrato. “O meu marido já tomou as duas doses daquela Coronavac, eu tomei só uma, da outra, ‘estrezene’, aquele nome difícil”, conta ela, rindo, ao se referir à vacina Oxford-Astrazeneca. “Mas ainda temos medo, o jeito agora é se cuidar e pedir a Deus que a vacina chegue para todos.”

Foto de Miguel Salvador

No ano passado, quando a pandemia começou, Severino já estava aposentado e vivendo na roça, semeando milho e feijão. Ele e a esposa, companheira há 50 anos, ficaram preocupados, afinal, se adoecessem ali, estariam muito distantes de qualquer hospital. Decidiram então seguir as recomendações de isolamento, usando máscaras e álcool em gel. Após mais de um ano de quarentena, Severino até duvidou da chegada da vacina. “Ave Maria, nós isolados aqui, num canto desses, e recebendo a vacina dentro de casa. A gente fica tão feliz que começa a achar até que essa doença nem existe!”, conta Severino. “Mas não podemos descuidar, vamos continuar fazendo as mesmas coisas.”

Cuidados que Maria Marluce Nunes, 71 anos, – também moradora da cidade – promete seguir tomando. Marluce, como gosta de ser chamada, foi morar em Prata quando se casou. Lá criou 10 filhos, oito deles por adoção. Ela conta que foi auxiliar de enfermagem no hospital da cidade e que atuou como professora, mas se considerava mesmo uma mãe. “Eu ensinava como dar mamadeira e trocar as fraldas dos bebês e, também a ler e escrever”, disse.

Esse lado materno, aliás, ficou bastante afetado pelo distanciamento social. Durante todo o período do isolamento, o que mais fez falta, segundo Marluce, foi justamente a visita dos filhos. Um deles, que é comerciante em Alagoas, contraiu covid-19, mas, “por sorte”, não desenvolveu quadro grave. Seu maior desejo depois que a pandemia terminar é reunir todo mundo para “comer galinha, peru, vai ser uma festa só”.

Quando a vacina chegou, Marluce diz que ficou tão feliz que não sabe nem descrever. “Eu fiquei tão alegre que eu não sabia nem falar direito”, lembra. “Fiquei muito, muito alegre, meu marido se vacinou primeiro e eu, ansiosa que chegasse o dia da minha vacina, pedi tanto a Deus que elas até anteciparam o dia da segunda dose.”

Trabalho noite e dia

Parte dessa esperança e felicidade chegam pelas mãos da técnica de enfermagem Raiane Rocha de Melo, 26 anos. A vida a levou para a área da saúde quando começou a auxiliar um idoso. A partir dali, com ajuda de colegas, estudou e hoje é uma das técnicas responsáveis pela vacinação em Prata. Hoje ela se emociona ao falar sobre a pandemia. “No começo, eu nem imaginava que iria tomar a proporção que tomou, tirar tantas vidas assim”, disse. “Falaram que o que salvaria seria só a vacina, e me preocupei porque não se faz vacina do dia para a noite, mas ela chegou e foi uma emoção muito grande para mim e para toda a população.”

Maria Marluce Nunes, 71 anos, toma vacina no interior da Paraíba. Ela contou à reportagem que ficou muito feliz com a chegada da vacina. “Fiquei muito, muito alegre. Meu marido se vacinou primeiro e eu, ansiosa que chegasse o dia da minha vacina, pedi tanto a Deus que elas até anteciparam o dia da segunda dose.”

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João Batista, aposentado, é vacinado em sítio Várzea Nova, município de Prata (PB).

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Raiane destaca o carinho com que é recebida nas casas e sítios da localidade. Na Páscoa, não tinha mais onde colocar os chocolates que ganhou. Quem ficou feliz mesmo foi a filha de seis anos com todos os presentes. “É muito gratificante, ganhamos frutas, ovos, se preocupam com a gente. À tarde, como eles sabem que não almoçamos, sempre tem quem coloque mais água no feijão e nos convida para comer. Às vezes, conversam bastante e não querem deixar a gente ir embora, em tempos de isolamento social somos a visita do dia.”

Ainda assim, há quem resista a receber a vacina. Raiane conta que algumas pessoas ainda não aceitaram receber a dose. “Foram poucas, mas elas falavam que isso não adiantava, que o vírus não existia ou que Deus protege para não pegar”, diz ela. “Se fosse assim esta doença nem existiria. Deus protege, mas nós temos que fazer a nossa parte, né.” Raiane conta que boa parte dessas pessoas voltaram atrás, pedindo para tomar suas doses após a recusa.

Doses que tem chegado “de pouquinho em pouquinho”, como ela diz. “Normalmente, recebemos no domingo, e a gente não deixa para pegar na segunda, porque bem cedo já queremos estar na ativa”, explica a técnica. Além de ficarem sem dormir, organizando os frascos, os profissionais também enfrentam sérias dificuldades logísticas, mas não se intimidam. Enfrentam estradas estreitas, chuva, locais onde só é possível chegar a pé. “Nós damos um jeito e não deixamos de vacinar de jeito nenhum”, destaca.

A dedicação de profissionais como Raiane é reconhecida pela Coordenadora Geral do Programa Nacional de Imunizações (PNI), Francieli Fontana. Ela foi testemunha desse empenho durante uma visita à Paraíba. “Eles receberam as vacinas a 1h15min da manhã e às 6h já estavam todos os quantitativos separados e encaminhados para os 223 municípios do estado”, disse Francieli em entrevista à reportagem. Francieli também se preocupa com os negacionistas, “vacinação e água potável são as intervenções que mais trazem benefícios para a população, nós precisamos combater a desinformação e as fake news na mesma velocidade em que acontecem. Afinal, a vacina não é uma responsabilidade individual, é responsabilidade de todos os segmentos da sociedade.”

Francieli lembra que, num país com proporções continentais como o Brasil, com mais de 8 milhões de quilômetros quadrados e diferenças climáticas e culturais, há locais onde a vacina só é disponibilizada por meio de barco voadeira ou helicóptero. No entanto, apesar da logística complexa, a coordenadora considera que o maior desafio em relação à vacina da covid-19 foi ter que pensar em uma estratégia de imunização sem ter a vacina. “Começamos a organizar um plano enquanto as vacinas ainda estavam sendo testadas com plataformas diferentes, e ainda vivemos um cenário de escassez mundial”, diz ela. “Mas, por sorte, temos duas fortalezas, que são o Butantan e a Fiocruz, capazes de produzir nacionalmente.”

Zefinha de Galego, moradora de sítio São Francisco, em Prata (PB), é vacinada.

Foto de Miguel Salvador

A técnica de enfermagem Raiane Rocha de Melo, 26 anos, à direita, aplica vacina na dona Izaura, agricultora que vive em Prata (PB). “É muito gratificante, ganhamos frutas, ovos, se preocupam com a gente. À tarde, como eles sabem que não almoçamos, sempre tem quem coloque mais água no feijão e nos convida para comer", contou Raiane à reportagem.

Foto de Miguel Salvador

São 0,5 mls – quantidade aplicada das vacinas Oxford-Astrazeneca e Coronavac – de um líquido tão escasso, no Brasil mas que leva, de pouquinho em pouquinho, a esperança de volta para pessoas como dona Josefa Maria Freire Souza, de 65 anos. Enquanto conversamos por telefone, ela prepara o almoço com feijão de corda verde, e o galo canta. Ela e o marido, Benivaldo, viram a pandemia chegar pela televisão e ficaram com medo. Até hoje pedem o mercado por teleentrega ou mototáxi.

Nascida no estado de Alagoas, Josefa já viveu em muitos lugares do Nordeste. Com mais sete irmãos, ela tem parentes em várias cidades – como Arapiaca, Petrolina, Juazeiro do Norte e Salgueiros. Até 2019, as viagens e visitas eram constantes, mas, em 2020, o jeito foi matar a saudade por chamadas de vídeo e registros na galeria de fotos organizada com por ela mesma na parede de casa. “É um grande mural da família, as pessoas tiram as fotos e me mandam, ou eu mesma faço, depois levo na vidraçaria para enquadrar”, conta.

Infelizmente, algumas fotos não poderão ser renovadas. Josefa conta que a pandemia levou muitos conhecidos, incluindo uma irmã que vivia em Alagoas. “Não sabemos como ela pegou, mas foi muito triste, ela ficou sete dias internada e faleceu”, diz Josefa, que não pode viajar nem para se despedir. “Meus irmãos tiveram que acompanhar de dentro do carro no cemitério, de longe, foi muito triste.”

Quando for possível sair de casa com segurança, Josefa quer viajar para reencontrar os filhos e amigos. “O meu marido já tomou as duas doses daquela Coronavac, eu tomei só uma, da outra, ‘estrezene’, aquele nome difícil”, conta ela aos risos ao se referir à vacina Oxford-Astrazeneca. “Mas ainda temos medo, o jeito agora é se cuidar e pedir a Deus que a vacina chegue para todos.”  

Para ela, nem a crueldade da seca nordestina foi tão ruim quanto viver em meio a pandemia. “A seca durou alguns meses, mas a pandemia está acabando com o Brasil e com várias nações. Não podemos viajar nem ver a família, por isso eu considero que foi bem pior.”

A agricultora Maria Pituba recebe a vacina em sítio Gabriel, município de Prata (PB).

Foto de Miguel Salvador

A agricultora Maria Pituba recebe a vacina em sítio Gabriel, município de Prata (PB).

Foto de Miguel Salvador

O bem-humorado escritor paraibano Ariano Suassuna, que tanto retratou a cultura popular brasileira, sempre lembrava a fala de Machado de Assis sobre a existência de dois Brasis, o real e o oficial. Segundo Suassuna, oficial é o da elite, o real é o povo – analfabetos e semianalfabetos que representam a maior parte da população brasileira. Para ele, se o Brasil quiser um dia ser mais que um país, mas uma nação, é preciso considerar este Brasil real do povo.  

Em 2021, por enquanto, simplesmente voltar a ser um país cabe nos poucos mililitros de vacina que também incluem esperança, felicidade, alegria, saudades, ansiedade e reencontros. Talvez neles esteja uma das poucas conexões entre estes dois Brasis. Uma ponte entre o mundo da ciência e o Brasil de Severinos, Josefas e Marias. Uma ponte proporcionada pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que, apesar da falta de vacina, segue atuando com técnicos de enfermagem trabalhando de domingo a domingo, lutando para chegar a absolutamente qualquer braço, na batalha contra esta doença que já subtraiu a vida de quase meio milhão de brasileiros. E, só com todos imunizados, será possível abrir uma nova galeria de fotos da família na parede.  

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