Mulheres buscam igualdade em esporte tradicional do Taiti

Atletas femininas lutam por reconhecimento e encontram conexão cultural no esporte tradicional da Polinésia: a canoagem polinésia.

Por Amanda McCracken
Publicado 3 de out. de 2021 08:00 BRT
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Mulheres em uma competição de canoagem polinésia, originalmente conhecida como va’a, no festival cultural Heiva de 2019, no Taiti. Atletas femininas reivindicam igualdade no esporte tradicional, que conecta os polinésios aos seus ancestrais.

Foto de Xavier Keutch

“Afunde o seu remo e sinta a água”, diz Hinatea Bernadino, enquanto nossa canoa desliza sem esforço por uma lagoa cristalina do Taiti. Posso ver claramente o fundo, a 1,8 metro de profundidade, e um peixe-papagaio passando por nós. “Você e a canoa são um só.”

Em uma canoa polinésia, ou va’a, em taitiano, a capacidade de ser guiado por manaa força da vida, a energia dos ancestrais e da natureza — supera a força física, explica Bernadino, que se tornou uma lenda nas ilhas da Polinésia por suas conquistas como remadora profissional.

“Sentir o mana durante a competição significa que não estamos sozinhos na canoa. Isso nos ajuda a ir mais rápido”, afirma Bernadino.

Em 24 de julho, Bernadino conquistou sua 11a vitória na 33a competição anual Te Aito, realizada na costa de Papeete, no Taiti. Te Aito, que significa “guerreiro” em taitiano, é a corrida de va’a individual de maior prestígio do mundo.

Pesquisas genéticas sugerem que os ancestrais dos polinésios de hoje possivelmente chegaram às ilhas do Taiti com as canoas va’a vindos do sudeste da Ásia continental.

Foto de Frank Ferville, Agence Vu/Redux

Séculos antes de os exploradores ocidentais zarparem com bússolas e mapas, os “buscadores de caminho” polinésios em suas canoas orientavam-se por ondas do oceano, estrelas e padrões de voo de pássaros. Em seu livro The Wayfinders (Os buscadores de caminho, em tradução livre), o antropólogo Wade Davis escreve: “o mais surpreendente é que toda a ciência dos buscadores de caminho polinésios é baseada em navegação estimada. Só é possível conhecer a posição atual sabendo precisamente a posição anterior e como se chegou até onde está”.

Saber de onde veio é importante para atletas como Bernadino, para pessoas que não consideram a canoa polinésia apenas um esporte, mas uma prática cultural que os conectam com sua herança. No entanto, apesar de ser a atleta de va’a feminina mais condecorada da Polinésia Francesa, ela e outras atletas ainda lutam para serem tratadas com igualdade. Como líder em seu esporte, ela espera facilitar o caminho para outras atletas e transmitir aos visitantes dos arquipélagos a importância do va’a para a compreensão da essência da Polinésia Francesa.

“A canoa é uma ilha”

A maioria dos turistas não vai ao Taiti para conhecer o va’a. Eles vão para descansar nos bangalôs e mergulhar nas lagoas azuis com águas a 28 graus Celsius.

Mas o Taiti e as outras 117 ilhas que compõem os cinco arquipélagos da Polinésia Francesa não existiriam como os conhecemos hoje se não fosse pelo va’a. Uma pesquisa genética sugere que os polinésios migraram da região sudeste da Ásia continental para as ilhas do Pacífico Sul, provavelmente navegando para o Taiti no va’a de casco duplo, há cerca de 4 mil anos. O nome dado à canoa pelos diferentes povos é uma viagem linguística pelo Pacífico: ela é chamada de va’a em taitiano, vaka nas Ilhas Cook, waka na Nova Zelândia, e wa'a no Havaí.

Um ditado em taitiano e havaiano diz: “a canoa é uma ilha, e a ilha é uma canoa”. O va’a, assim como o pito (umbigo), é sagrado para muitos polinésios. Ambos representam vida e origem. Até mesmo a bandeira do Taiti representa uma canoa va’a de casco duplo.

Tradicionalmente, o casco era feito de uma árvore oca, chamada acacia koa, e o braço estabilizador, o ama, era preso com fibras de coco tecidas em cordas. O va’a era usado para negociar, pescar, lutar e comemorar.

Segundo o especialista cultural e cineasta Johann Hironui Bouit, para entender os taitianos é preciso saber que, para eles, o va’a representa o deslocamento de tempo e espaço. Os polinésios se concentram no hoje com confiança no amanhã por causa de sua fé na orientação de seus ancestrais, explica Bouit. A palavra “futuro” em taitiano é muri e também pode ser traduzida por “atrás”.

“Quando você parte de uma ilha, olha para trás e a vê como um ponto de referência. Focamos no ponto de onde viemos para nos guiar em direção ao futuro”, diz Bouit.

A prática de remar como uma tradição familiar

As primeiras competições de va’a organizadas ocorreram no século 19, nas lagoas do Havaí e do Taiti.

Quando Bernadino participa de uma corrida, ela conta: “sempre levo minha família comigo. Eu sempre faço uma oração e peço aos meus ancestrais que me ajudem”. A atleta de 33 anos atribui seu sucesso ao pai, que também é seu treinador desde que ela começou a remar, aos 14 anos. Desde então, essa valente competidora é praticamente imbatível.

“Está no meu sangue”, diz ela. Os Bernadinos resumem a cultura va’a da família. O pai de Hinatea Bernadino já ganhou vários campeonatos mundiais e, aos 65 anos, ainda compete. Os tios por parte de pai e a mãe dela são campeões em canoa va’a ou famosos construtores de va’a.

Os atletas da Polinésia Francesa tendem a dominar o esporte. “Em nenhum outro lugar do mundo o va’a recebe tanto apoio do governo e dos canais de TV. Em nenhum outro lugar as pessoas são pagas para competir em canoas va’a”, disse Lara Collins, presidente da Federação Internacional de Va’a, com sede na Nova Zelândia.

Atletas de va’a se reúnem na competição chamada Hawaiki Nui Va’a, no Taiti, em 2019. A corrida de canoa entre as ilhas é a maior da região.

Foto de Xavier Keutch

Mas, na Polinésia Francesa, apenas os melhores remadores entre os homens desfrutam dessa oportunidade econômica. A cultura patriarcal predominante na Polinésia Francesa se manifesta no domínio masculino do esporte mais popular do país. “Eu não sou um homem, então não posso viver do meu esporte. Isso é revoltante”, diz Bernadino, heptacampeã mundial que trabalha como mediadora da polícia municipal.

Seu prêmio em dinheiro da competição Te Aito foi menos que a metade do recebido pelo vencedor masculino. As mulheres remam apenas a metade da distância percorrida pelos homens — 14 quilômetros, comparados a 28 quilômetros — mas Bernadino afirma que, se tiverem oportunidade, as mulheres podem percorrer a mesma distância com a mesma habilidade dos homens. Atualmente ela está treinando para uma corrida de 25 quilômetros.

Bernadino assumiu a missão de abrir caminho para outras remadoras da Polinésia Francesa. Ela fala abertamente sobre as desigualdades de gênero em prêmios em dinheiro, cobertura televisiva e patrocínio. “Mesmo quando remamos a mesma distância, não ganhamos o mesmo prêmio em dinheiro”, afirma a atleta.

Ela também trabalha para que o esporte seja aprovado pelo Comitê Olímpico Internacional e espera se tornar a primeira mulher campeã olímpica de va’a.

Como praticar canoagem polinésia

Além das competições, Bernadino dá aulas particulares, como a que ela me deu durante uma visita que realizei antes da pandemia. Quando for seguro viajar para lá, os turistas podem entrar em contato com os guias de va’a locais, como Bernadino, ou com organizações como a Federação de Va’a do Taiti, a Tahiti Va’a Inc., ou a Tahiti Tourisme. Organizações locais, como a Huahine Lagoon, oferecem aulas e excursões; a Green Tours Huahine combina uma experiência de canoagem com uma aula sobre a história e cultura da migração polinésia.

No Arquipélago das Marquesas, uma das cadeias de ilhas da Polinésia Francesa, um jovem treina em uma canoa no vilarejo de Hakahau.

Foto de Laurent Weyl, Panos Pictures/Redux

Prefere assistir? Hawaiki Nui é uma das corridas de equipe va’a mais difíceis do mundo. Equipes de seis remadores percorrem exaustivos 129 quilômetros durante três dias seguidos, sem mudança de tripulação, ligando as ilhas de Huahine, Raiatea, Taha’a e Bora Bora. Heiva é um festival cultural taitiano que começa no início de julho e dura várias semanas. Os remadores, representando suas cidades, clubes ou bairros, participam de corridas em todas as ilhas.

Ao contrário de muitos esportes, não existe aposentadoria no va’a. Aos 70 anos, Sylvie Auger continua sua carreira após 40 anos de competição. “Espero conseguir praticar esse esporte o máximo possível”, conta ela. Quando ela não está treinando na água, está transmitindo seu conhecimento para a geração mais jovem.

Leilanie Tuea, de 20 anos, por exemplo, começou sua carreira no remo aos 16 e agora treina um time feminino na escola. “Adoro a sensação de flutuar com o mar”, diz ela. “Como taitiana, o oceano é parte de quem eu sou. Isso me fortalece.”

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