Fotografia

Fotógrafo brasileiro revela as ruínas da guerra em Mosul, no Iraque

Três anos depois de ser capturada pelo Isis, a terceira maior cidade do Iraque foi liberada, mas está destruída. Quarta-feira, 8 Novembro

Por Alexandra Genova
Fotos de Felipe Dana

A cidade de Mosul, oficialmente retomada por forças iraquianas em julho, está em ruínas. Ao fim de nove meses de combates violentos, milhares estão mortos, cerca de 900 mil civis foram deslocados e vizinhanças inteiras foram destruídas. O custo da vitória militar é caríssimo.

[ Assista The State no canal National Geographic. Hoje, 25 de setembro, e amanhã, 26, às 23h20 ]

Para o fotógrafo brasileiro da Associated Press, Felipe Dana, que esteve no Iraque desde outubro de 2016, a vitória marca o fim da batalha, mas não da guerra. "Se acabasse hoje, não acho que as pessoas vão simplesmente voltar atrás, reconstruir suas vidas e tudo ficará bem. Não vai ser assim", disse Felipe à National Geographic. Ele está preocupado com a recuperação dos civis e, também, com a possibilidade das crenças do Estado Islâmico se manifestarem de maneiras diferentes, mais traiçoeiras. 

Fotografar uma região tão perigosa quando essa foi um desafio. "Primeiro, é preciso ter muito cuidado com a própria segurança, não há porque colocar sua vida em risco", diz ele. "Segundo, o acesso é muito difícil. Somos muito limitados pelas forças armadas. Muitas vezes, mesmo quando nos é dado acesso, se a operação não está correndo como esperado, eles vão te tirar dali rapidamente."

Mas, mesmo com as limitações, Felipe produziu uma ampla e sensível documentação da ofensiva. Seu foco foi sempre nas pessoas, em vez da guerra. Apesar das imagens de carros destruídos, de nuvens de fumaça e de edifícios no chão serem impactantes, são as mulheres fugindo do fogo ou as crianças surgindo de escombros que contam a história mais profunda. "Ainda que os danos na cidade sejam chocantes, acho que, no fim, é sobre as pessoas que vivem na cidade", diz Felipe. "É isso o que mais me interessa."

O sofrimento das crianças de Mosul é tema ao qual Felipe retorna com frequência. A imagem sombria do garoto em uma bicicleta entre ruínas de casas e carros ou a menina de rosa brincando em um balanço são visões surreais no contexto de uma zona de guerra. Felipe disse que as cenas são surpreendentemente comuns e revelam a capacidade das crianças de "seguir em frente". No entanto, ele acrescenta, são muitos os momentos que eles nunca mais esquecerão.

Dois primos apareceram em um hospital de campo onde ele fotografava. Eles estavam famintos e gritavam descontroladamente, dizendo que seus pais estavam enterrados sob os escombros. Eles imploravam para que os resgatassem. "Eles não paravam de gritar", disse Felipe. "As pessoas davam biscoitos e água porque eles estavam famintos e sedentos. Mas continuavam a gritar mesmo enquanto comiam e bebiam. Para essas crianças, não sei como o futuro delas será."

São histórias como essa que mostram que a queda do bastião do Estado Islâmico não foi uma vitória fácil. "Trata-se de uma liberação do Isis, e concordo que muitos civis estavam extremamente descontentes de viver sob o seu controle", disse Felipe. "Mas foi uma batalha muito, muito complicada, que deixou milhares de mortos, muitas crianças sem pais e muitos pais sem suas crianças. Nem todo mundo tem motivos para celebrar."

Nos próximos meses, Felipe vai focar nas histórias depois da guerra. "Vou observar a reconstrução, pessoas voltando às suas vidas, como é a vida depois do Isis", ele disse. "Vou focar nas consequências da guerra."

Continuar a Ler