Fotografia

A vida das noivas crianças da Geórgia

A Geórgia tem uma das maiores taxas de casamento infantil na Europa. Lá, é comum meninas de 12 anos se casarem.Friday, November 10

Por Melody Rowell
Fotos de Daro Sulakauri
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O Fundo de População das Nações Unidas possui registros que mostram que pelo menos 17% das meninas na Geórgia casaram antes dos 18 anos, a idade legal do país para o casamento. Mas as famílias às vezes contornam a lei, aguardando anos para fazer o registro do casamento, dificultando o monitoramento. Eles realizam casamentos em mesquitas ou igrejas rurais e consideram os noivos casados de forma cultural e religiosa.

A fotojornalista Daro Sulakauri cresceu na Geórgia e lembra que uma colega se casou quando ambas tinham apenas 12 anos. "Eu tive esse sentimento ruim, de certa forma", diz. "Eu senti que algo estava errado. Mas não entendi o que era.

Esses sentimentos voltaram a Sulakauri quando ela começou a pesquisar os problemas das mulheres na Geórgia, depois de receber uma bolsa da Human Rights House Network. Lembrando-se de sua colega de classe, ela começou a se perguntar sobre os casamentos de jovens. Logo depois, recebeu um convite para um casamento em uma pequena aldeia. No final da celebração, a jovem noiva começou a chorar.

Noivas crianças

"Foi tão difícil ler seus sentimentos", diz Sulakauri. "Ela estava triste? Ela estava feliz? Para mim, ela estava muito confusa. Então, por isso, comecei a perceber que queria realmente escrever uma história sobre isso ".

A Unicef considera o casamento infantil "uma violação fundamental dos direitos humanos", e a Geórgia tem uma das maiores taxas de casamento infantil na Europa. É uma tradição que remonta há séculos e não se limita a uma região ou religião. E enquanto as razões para os casamentos serem diferentes entre cidades e grupos, existem alguns pontos em comum. Os noivos são quase sempre mais velhos, terminaram a escola e têm idade legal. Normalmente, é a mãe do noivo que começa o processo de compatibilidade, mas Sulakauri encontrou casais que se conheceram através de amigos, na escola ou na internet. E, embora as meninas não sejam necessariamente obrigadas a casar, a pressão cultural é forte.

"Elas se deixam levar", diz Sulakauri. "Porque sua bisavó fez o mesmo, e sua avó e sua mãe, todas se casaram em uma idade muito jovem. Então elas pensam que é um modo de vida, que é assim que deveria ser".

As pessoas nas fotos de Sulakauri são azeri-georgianos, membros de uma minoria étnica e religiosa. Uma das noivas crianças que conheceu, Layla, tinha 12 anos quando se casou e morava com a família do marido. Sua história permaneceu com Sulakauri, que lembra que em suas primeiras conversas, Layla estava muito aberta. "Ela tinha muitos sonhos para o futuro, queria ser uma estilista", diz ela. "Ela queria continuar a educação e tinha várias coisas que ainda queria fazer".

Um ano depois, Sulakauri entrou em contato com Layla, e as coisas estavam diferentes. "Ela se tornou uma dona de casa aos 13 anos", diz ela. "Ela não vai mais para a escola. Por um lado, parece o fim da linha."

E o impacto disso não é apenas a falta de escola. A educação sexual é praticamente inexistente na Geórgia, e Sulakauri diz que algumas garotas não entendem o que o casamento implica até chegarem no dia seguinte. Uma pesquisa sobre saúde reprodutiva em 2010 revelou que "cerca de 76,6% das mulheres casadas, de 15 a 19 anos, não usaram um método anticoncepcional moderno". Sem surpresa, então, muitas jovens noivas ficam grávidas logo após o casamento, o que pode causar problemas de saúde para seus corpos ainda em desenvolvimento.

Quando Sulakauri conhece essas garotas, ela não consegue deixar de pensar em sua própria infância. "Foi muito diferente", diz ela. "Eu fui criança pelo tempo que eu poderia ser uma criança, entende?" Se seu trabalho não pode conceder a mesma infância para as noivas que ela fotografa, ela espera que possa mudar o futuro para outras.

“Eu queria mostrar às pessoas no meu país que isso estava acontecendo. Isso pode levar a mudanças. Talvez eles comecem a falar sobre isso: ‘Talvez isso não deva acontecer. Talvez ela seja muito jovem.’”

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