História

Dentes de Neandertais revelam detalhes exclusivos do cotidiano da época

De aleitamento materno a doenças durante o inverno, um novo estudo revela detalhes surpreendentes sobre nossos primos ancestrais.terça-feira, 6 de novembro de 2018

Por Maya Wei-Haas
Semelhante aos dentes analisados no novo estudo, esses dentes podem conter seus próprios segredos sobre a vida e os hábitos dos Neandertais.

TANYA SMITH analisa dentes com a mesma facilidade que a maioria das pessoas lê livros.

Os dentes carregam ricos detalhes da vida—de dietas a doenças—em cada uma de suas camadas. E Smith, bióloga da Universidade de Griffith, Austrália, pesquisa a química e a estrutura física dos dentes há mais de uma década e meia. Contudo, há muito tempo, falta um detalhe nessas histórias: as condições ambientais nas quais as mudanças ocorreram.

"Estudiosos que pesquisam a origem do homem há tempos especulam que mudanças climáticas e períodos de instabilidade climática podem ter representado fatores importantes nas etapas evolucionárias da jornada humana", afirma Smith. Porém, os marcadores utilizados para desvendar o clima no passado—como núcleos de gelo e registros de pólen—não fornecem informações em períodos de tempo curtos o suficiente para compreendermos os impactos ocorridos durante o tempo de vida de um único indivíduo. Agora, isso deve mudar.

Um novo estudo, publicado na revista científica Science Advances, traz informações inéditas sobre o início da vida de duas crianças neandertais que viveram há cerca de 250 mil anos no local onde atualmente é o sudeste da França. A química de seus dentes revela os diversos desafios ambientais que enfrentaram. Os homininos sofriam estresse causado pelo inverno e períodos de exposição ao chumbo, provavelmente relacionados a mudanças sazonais nos recursos.

Ainda, os pesquisadores utilizaram isótopos de oxigênio para determinar que o nascimento de uma das crianças neandertais havia ocorrido durante a primavera. Após ser amamentado por 2,5 anos, o hominino deixou de consumir o leite materno no outono.

"Este estudo representa uma das pesquisas mais importantes que já li em muito tempo", afirma Kristin Krueger por e-mail, paleoantropóloga da Universidade de Loyola, especialista em dentes antigos. "Para ser honesta, o estudo me deixou de queixo caído várias vezes".

O cotidiano a partir dos dentes

Os dentes crescem em um padrão consistente, assim como anéis em uma árvore. "Essas camadas são adicionadas umas após as outras", explica Smith, autora principal do novo estudo, que também publicou recentemente um livro intitulado The Tales Teeth Tell (As histórias que os dentes contam, em tradução livre). Porém, diferentemente dos anéis de uma árvore que surgem a cada ano, os dentes formam camadas muito mais finas, permitindo aos cientistas estudarem cada dia de crescimento nos primeiros anos de uma criança.

Para o recente estudo, Smith e uma equipe internacional de pesquisadores examinaram dois dentes de duas crianças neandertais. Eles também compararam os resultados com os de um humano moderno da mesma localidade, que habitou a região milhares de anos após os Neandertais, cerca de 5 mil anos atrás. (Saiba mais sobre a descoberta de uma menina milenar cujos pais eram de espécies humanas diferentes).

Ao cortar uma fina fatia de cada um dos dentes, os pesquisadores tiveram acesso a informações ocultas em suas diversas camadas. A equipe utilizou recursos de alta capacidade de ampliação para contar as adições diárias e obter estimativas incrivelmente precisas da idade de cada criança no momento em que cada camada se formou.

Ambos os molares levaram cerca de três anos para atingir a maturidade. Um molar neandertal concentra o período de tempo logo antes do nascimento do indivíduo até cerca de três anos de idade, diz Smith. E o molar precoce com pouco desgaste sugere que o indivíduo não atingiu a fase adulta.

ver galeria

O outro era um segundo molar, que começa a crescer posteriormente durante o desenvolvimento infantil. Esse dente provavelmente começou a se formar quando o Neandertal tinha aproximadamente três anos de idade e continuou a se desenvolver até cerca de seis anos. A partir desse ponto, o dente não apresentou novas camadas, mas sim padrões acumulados que revelaram desgaste e uso.

Dietas sazonais

Os pesquisadores realizaram uma análise ainda mais profunda, mapeando mudanças nas concentrações de elementos químicos, bem como no nível de isótopos de oxigênio contido nos dentes. Isótopos de oxigênio indicam o clima do passado que, nesse caso, foi analisado pelos cientistas em uma escala semanal. Alimentos e água contêm isótopos de oxigênio. Então, conforme os homininos antigos comiam e bebiam, eles codificavam registros de temperatura em seus dentes.

Esses registros demonstraram que a mãe neandertal do indivíduo dono do dente mais jovem deu a luz na primavera, assim como fazem muitos mamíferos. Contudo, na fase mais rigorosa do inverno, os dentes de ambas as crianças neandertais demonstraram discretos distúrbios estruturais, o que sugere estresse. "Diversos fatores podem alterar o crescimento dos dentes", observa Smith, mas o fato de coincidirem com o inverno sugere que o frio provavelmente tenha trazido desafios como febres, deficiência de vitaminas e doenças.

Mas esses não eram os únicos perigos de um clima frio. Diversas partes dos dentes formadas durante o inverno e início da primavera coincidiram com períodos de exposição ao chumbo. "O que eles faziam para terem ficado expostos ao chumbo é uma dúvida que ficou em aberto", afirma Smith. Depósitos naturais de chumbo foram uma constante para os Neandertais, observa ela. Então, talvez, o clima frio os tenha obrigado a viajar para cavernas próximas e sobreviver à base de alimentos ou água contaminados. É até mesmo possível que tenha sido devido à inalação de fumaça proveniente de uma fogueira feita com materiais contaminados por chumbo, acrescenta ela.

O marco do leite

Os cientistas também mapearam alterações no elemento bário, trazendo informações sobre os hábitos de aleitamento dos Neandertais. O leite materno possui uma quantidade incrivelmente alta desse elemento, que é semelhante ao cálcio, e ele pode ser incorporado aos ossos e dentes em crescimento durante a fase infantil.

Embora um dos dentes neandertais estudados provavelmente tenha se formado apenas após o desmame, o outro dente apresentava claras assinaturas de aleitamento ao longo dos primeiros 2,5 anos de vida da criança.

Apenas um outro caso de aleitamento dos Neandertais foi analisado pelos cientistas. Em 2013, Smith e seus colaboradores documentaram um Neandertal encontrado onde hoje é a Bélgica, cujo dente indicou que ele havia sido amamentado por apenas 1,2 ano. Ainda, o fornecimento de leite à criança foi interrompido de forma brusca, sugerindo que a criança tivesse sido separada de sua mãe ou ficado doente de uma hora para outra.

Por esta razão, é difícil saber se os últimos resultados se estendem a outros indivíduos. Contudo, a idade de 2,5 anos condiz com a idade média de desmame em populações humanas não industriais, sugerindo que, talvez, os Neandertais faziam o mesmo.

"Identificar a idade de desmame é fascinante", disse Debbie Guatelli-Steinberg por e-mail, antropóloga biológica da Universidade do Estado de Ohio. Ela aponta que 2,5 anos é um período de aleitamento muito mais curto do que o praticado pelos chimpanzés, por exemplo. Esses primatas, em conjunto com os bonobos, são nossos parentes vivos mais próximos e normalmente amamentam seus filhotes por até cinco anos. Isso sugere que os Neandertais podem ter sido mais parecidos com os humanos modernos na questão do desmame de sua prole.

Smith planeja ampliar esse trabalho a outros Neandertais, períodos cronológicos e ambientes—bem como a crianças humanas da ancestralidade. Pouco se sabe sobre a alteração na idade de desmame ao longo do tempo, explica ela. Alguns cientistas teorizam que o desenvolvimento de alimentos moles e de produtos lácteos provenientes do leite animal poderia ter ajudado as mães a desmamarem seus filhos mais cedo. "Porém, ninguém conseguiu testar isso de forma precisa, e esse método nos ajudaria a fazer isso", afirma Smith.

Primos complicados

O recente estudo só faz somar à grande complexidade dos Neandertais, diz Krueger, proporcionando aos pesquisadores uma surpreendente janela com vista para o cotidiano de nossos primos ancestrais. O estudo também desmente a ideia de que os Neandertais eram "brutos e estúpidos", explica ela. "Exemplo: Qual seria a sua reação se alguém o chamasse de Neandertal? Não seria aceito como um elogio, certo?"

"Porém, esses homininos eram absolutamente complexos e complicados; eles cozinhavam seus alimentos, exploravam uma grande variedade de plantas e animais, e até mesmo utilizavam plantas para fins medicinais", diz Krueger. "Eles realizavam adornos pessoais e arte na caverna, além de queimarem seus mortos".

O recente estudo conta a história da vida dos Neandertais em ainda mais detalhes, demonstrando os efeitos do inverno e apresentando informações adicionais sobre como as mães cuidavam de seus filhos. Como disse Krueger, "a linha que divide 'eles' de 'nós' está ficando cada vez mais fraca".

Continuar a Ler