Arte rupestre pode ser retrato da cena de caça mais antiga da história

A incrível cena vista na Indonésia reforça a ideia de que as origens da arte são mais globais do que se imaginava.

Friday, December 27, 2019,
Por Michael Greshko
Nas paredes de uma caverna no sul de Sulawesi, uma figura humanoide de aproximadamente 12,7 centímetros ...
Nas paredes de uma caverna no sul de Sulawesi, uma figura humanoide de aproximadamente 12,7 centímetros de largura paira sobre a cabeça de um javali-das-visayas, com os braços conectados a um objeto comprido e fino. Essa imagem, interpretada como um caçador em um mural de 44 mil anos, parece ter uma cauda curta.
Foto de Image by Ratno Sardi  

Um explorador de cavernas indonésio, chamado Hamrullah, estava explorando o terreno de uma fábrica de concreto na ilha de Sulawesi, em 2017, quando avistou um buraco despretensioso em uma rocha calcária bem acima de sua cabeça. Sem pensar duas vezes, escalou a rocha e se enfiou pela abertura de uma pequena caverna, atravessando o ar frio e mofado do túnel. Bateu na parede dos fundos e viu um mural que se desdobrava por quase dois metros e meio de rocha lascada, então pegou o celular e começou a tirar fotos.

A pintura, descrita na revista científica Nature, mostra dois javalis e quatro parentes menores do búfalo-asiático, bem como o que parecem ser oito figuras humanoides, medindo entre cinco e 10 centímetros de altura. Algumas dessas figuras estão segurando objetos compridos e finos, apontados para os animais, que podem ser cordas ou lanças.

A arte pode ser um retrato de uma caçada ou de algum outro evento. De qualquer forma, essa é, provavelmente, a história mais antiga contada por meio de imagens, dizem os pesquisadores. O mural remonta há, pelo menos, 44 mil anos, o que o torna duas vezes mais antigo que a maioria das cenas semelhantes encontradas na Europa, como um mural francês de 19 mil anos de um bisão prestes a atacar um homem com cabeça de pássaro. A descoberta é somada a um crescente conjunto de arte rupestre conhecido no sudeste da Ásia, que muda conceitos de longa data sobre quando e onde os humanos começaram a mostrar os traços cognitivos que nos distinguem.

“Quando fazemos uma escavação arqueológica, geralmente encontramos o que as pessoas deixaram para trás, seu lixo. Mas, quando olhamos para a arte rupestre, não se trata de lixo — parece uma mensagem, podemos sentir uma conexão com ela”, afirma Mauxime Aubert, autor principal do estudo, arqueólogo e geoquímico da Universidade Griffith da Austrália.

“Agora, estamos começando a datá-la, não somente na Europa, como também no sudeste da Ásia, e percebemos que isso muda completamente a perspectiva da jornada humana.”

O painel de arte rupestre se estende por quase 2,5 metros pela parede dos fundos de Leang Bulu’ Sipong 4, uma das muitas cavernas na região de Maros-Pangkep, em Sulawesi.
Foto de Image by Adam Brumm

Determinando a época

O mural é a obra artística mais importante recentemente encontrada nas cavernas da região de Maros-Pangkep, em Sulawesi. Há milhões de anos, rios subterrâneos percorreram o calcário do local para formar um labirinto de cavernas, muitas das quais contêm gravuras manuais e outras pinturas feitas pelos humanos, que tinham a ilha como seu lar há dezenas de milhares de anos.

Desde a década de 1950, estudiosos documentaram mais de 240 locais de arte rupestre em Sulawesi, mas por décadas essas pinturas foram consideradas como tendo no máximo 12 mil anos. Isso começou a mudar em 2014, quando uma equipe, incluindo Aubert e Brumm, começou a encontrar pinturas rupestres na Indonésia com pelo menos 40 mil anos, tornando-as pelo menos tão antigas quanto os famosos locais de arte rupestre da Europa, se não mais.

“A Europa já foi considerada uma ‘escola conclusiva’ para a humanidade, porque a França, em particular, foi objeto de intensa pesquisa desde muito cedo... então, por muito tempo, o registro europeu de arte rupestre era o marco do que podíamos esperar encontrar”, relata por e-mail a arqueóloga April Nowell, da Universidade de Victoria, que não participou do estudo. “Já sabemos que essa visão da Europa como uma ‘escola conclusiva’ não é mais sustentável há bastante tempo, e a riqueza das descobertas na Austrália e na Indonésia seguem reforçando essa questão.”

O mural tem importância global, explica Peter Veth, arqueólogo da Universidade da Austrália Ocidental que analisou a versão preliminar do estudo: “Assim como já havia pessoas viajando pelos mares até a Austrália e produzindo arte altamente complexa, aqui temos indígenas do sudeste asiático demonstrando as relações entre os homens e os animais antes de os sapiens chegarem à Europa”.

Como os pesquisadores determinam a idade de uma pintura na caverna? Um dos métodos fornece uma estimativa indireta ao revelar quando os minerais começaram a crescer sobre a arte finalizada. Esses minerais contêm, devido à sua natureza, vestígios de urânio radioativo, que se transforma em tório a um ritmo previsível. Quanto mais antigo esse depósito mineral, mais tório haverá em relação ao urânio.

Para o mural recém-descoberto, a equipe de Aubert e Brumm utilizou amostras dos depósitos que se formaram sobre partes da pintura e descobriu que os minerais começaram a se formar entre 35,1 mil e 43,9 mil anos atrás. Visto que é possível que o mural tenha sido produzido antes disso, os pesquisadores consideram essas datas como mínimas. Além disso, a equipe acredita que o mural foi feito de uma só vez e decidiu utilizar a data mais antiga — 43,9 mil anos — como a idade mínima do mural.

Aubert está confiante de que essas datas serão validadas. Por um lado, a equipe utilizou amostras de minerais que, claramente, formaram-se sobre a camada de pigmento da pintura e, portanto, eram sem dúvidas mais jovens do que a pintura. Ao que tudo indica, as amostras não lixiviaram urânio com o passar do tempo, o que rejeita uma possível fonte de erro. Também está claro que os antigos moradores de Sulawesi haviam desenvolvido talhas artísticas: uma escavação próxima, liderada por Brumm, encontrou “giz de cera” e joias de 30 mil anos de idade.

Elisabeth Culley, arqueóloga da Universidade Estadual do Arizona, especialista em arte rupestre, concorda que a pintura de Sulawesi é pelo menos tão antiga quanto as pinturas da Caverna de Chauvet, na França, que datam de 30 mil a 32 mil anos atrás. Ela também concorda que a obra de arte representa uma cena específica.

“Não acredito que a interpretação seja controversa”, completa. “As figuras estão orientadas uma de frente para a outra, [e] não é algo simplesmente dinâmico — parece haver movimento”.

Seis imagens pequenas cercam a cabeça de um búfalo-anão, um parente menor do búfalo-asiático, em parte do mural. Os pesquisadores interpretam as seis entidades como imagens abstratas, que combinam características animais e humanas. A segunda imagem de cima para baixo, por exemplo, parece ter um bico de pássaro.
Foto de Image by Ratno Sardi

O abstrato

Entretanto, o mural descoberto tem elementos mais polêmicos a serem debatidos pelos cientistas. As figuras humanoides apresentam características incomuns, incluindo uma com uma cauda curta e outra com um bico de pássaro. Como parte de seu trabalho, a equipe de Aubert acredita que as representações podem ser os híbridos humanos-animais mais antigos já encontrados em uma obra de arte. A imagem antiga mais aceita, uma estatueta masculina com cabeça de leão, foi esculpida em marfim de mamute entre 39 mil e 40 mil anos atrás, onde se configura, hoje, a Alemanha.

Se as imagens retratadas realmente misturam o humano e o não humano, os pesquisadores sugerem que o artista por trás delas poderia pensar de maneira abstrata e criativa. Inclusive, é possível que indiquem uma espiritualidade antiga ou expressem crenças xamânicas.

“Talvez as pessoas daquela época se consideravam parte indivisível do mundo animal”, explica o coautor do estudo Adam Brumm, arqueólogo da Universidade Griffith. “Até onde sabemos, esse vínculo especial entre humanos e animais era tão forte que, cultural e filosoficamente, é possível que eles se vissem como sendo parte animal, parte humano”.

Nowell reitera que a obra de arte possa representar uma cena de caça abstrata: “Considerando que algumas das figuras humanas pareçam ter uma cauda ou um bico, isso sugere que não se trata de uma cena de caça direta, há um certo toque de mitologia”. Culley também acredita que a obra de arte seja abstrata, pois as figuras humanoides são excessivamente pequenas. Mas justamente por ser abstrata, adiciona Culley, a pintura pode carregar muitas interpretações para além de uma cena de caça. Talvez as supostas lanças sejam “traços de força” xamânica, destinadas a mostrar energia movendo-se de um objeto a outro.

Apesar de todos esses detalhes, Culley afirma que a importância real da cena está na tentativa de abstração do artista — uma característica que também surge na França há mais de 30 mil anos.

 “Há uma enorme variação nas [duas] culturas, com bastante distância entre essas tradições..., mas também são muito consistentes”, afirma. “Para mim, essa é a mensagem principal: são contemporâneas e carregam uma tradição muitíssimo parecida, devendo compartilhar a mesma origem”.

Protegendo o passado

Agora que os pesquisadores já descreveram a pintura, estão em busca de mais material para documentar. Hamrullah, coautor do estudo, e os outros membros indonésios da equipe encontram, com frequência, mais cavernas inexploradas enquanto mapeiam a região. A equipe também está tentando definir qual será o destino da caverna desse mural. Ainda não está claro por quê, mas a arte recém-descoberta começou a descascar da parede da caverna a um ritmo acelerado.

A agitação das atividades em toda a região pode ser uma das causas. Embora o governo local e a fábrica de concreto tenham concordado em proteger a caverna, explosões de mineradoras na região seguem perturbando a paisagem.

“Não sabemos por quanto tempo continuará lá”, diz Aubert.

É provável que a proteção da área seja reforçada. Por e-mail, Hamrullah demonstrou esperança de que o sistema da caverna possa ser declarado Patrimônio Mundial da UNESCO. Mesmo que seu futuro seja incerto, Brumm se admira com tudo aquilo que a caverna já nos contou sobre o nosso passado comum.

“Ter a oportunidade de se sentar nessa caverna, em que você é apenas a quarta, quinta ou sexta pessoa a testemunhar os desenhos em dezenas de milhares de anos, até onde sabemos — e então estar ciente desse conhecimento, desse entendimento, ter noção da antiguidade disso tudo”, relata. “É muito difícil descrever esse sentimento. Mas é certamente o que faz você seguir adiante.”

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