Japoneses invadiram Guam durante Segunda Guerra, agora são recebidos como turistas

A ocupação japonesa na ilha custou muitas vidas. Apesar do trauma ainda existir, Guam encontrou uma forma de esquecer o passado.segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Por Sydney Combs
Fotos de Nancy Borowick

Em janeiro de 1972, Vicente Diaz estava indo para o treino de baseball em Guam, uma ilha no Pacífico, quando um colega de classe o parou e perguntou se ele já sabia da novidade: caçadores locais haviam encontrado um soldado japonês escondido na selva. O soldado, cujo nome era Shoichi Yokoi, acreditava que a Segunda Guerra Mundial ainda estava em curso, 27 anos depois do seu término.

Essa descoberta disparou um antigo medo no adolescente. “Contaram-nos histórias sobre a guerra e isso foi o suficiente para nos dar pesadelos”, disse Diaz, que hoje é professor de estudos indo-americanos na Universidade de Minnesota. “Ainda sonho com o que me contaram.”

Os japoneses mantiveram uma ocupação brutal sobre Guam durante 32 meses, durante os quais 10% dos Chamorros (povo indígena das Ilhas Marianas) foram mortos. Mesmo assim, os ilhéus encontraram uma maneira de fazer as pazes com o passado, recebendo os turistas japoneses na ilha para que vivenciem, entre outras coisas, a celebração exagerada da cultura norte-americana, herança deixada pelos soldados norte-americanos após a expulsão das tropas japonesas.

“Tio Sam, por favor, volte para Guam”

Poucas hora depois do bombardeio surpresa a Pearl Harbor, nove aviões japoneses sobrevoaram a parte leste de Guam e bombardearam o ainda não incorporado território norte-americano. Após dois dias de ataques aéreos, cerca de 6 mil soldados japoneses invadiram a ilha, que mal chega às dimensões da cidade de Chicago, e pegaram de surpresa 400 soldados de tropas norte-americanas que estavam servindo lá.

Ao amanhecer do dia 10 de dezembro de 1941, o comandante da marinha de Guam declarou sua rendição ao Japão. Todos os norte-americanos e estrangeiros – militares ou não – foram reunidos e enviados de navio ao Japão para serem mantidos como prisioneiros de guerra. Os outros 13 mil nativos Chamorros, incluindo aqueles que lutaram pelos Estados Unidos durante a invasão, ficaram sob o comando dos Japoneses. Pelos próximos dois anos, a ocupação foi crescendo de simples aulas obrigatórias de japonês ao massacre indiscriminado.

Os Chamorros já possuíam quase 400 anos de experiência em  lidar com regras de colonizadores. A Espanha foi a primeira a dominar a ilha em 1565, mas a perdera para os Estados Unidos depois da Guerra Hispano-Americana em 1898. Mesmo essas ocupações tendo sido conduzidas com variados graus de severidade — a espanhola reduziu a população nativa para menos de 75% do total, enquanto os Estados Unidos requisitaram vastas faixas de terra — a ocupação japonesa foi diferente.

Sob o domínio do Japão, os Chamorros eram obrigados a se curvar para quase todos os japoneses, com consequências mortais se fizessem a reverência de maneira incorreta. Os homens eram obrigados a trabalhar em obras de infraestrutura para o exército japonês, já que os soldados japoneses ordenavam a construção de mais e mais prédios pela ilha afora. Policiais disfarçados estavam infiltrados nas comunidades.

“Durante a ocupação, nenhuma família foi poupada do sofrimento do luto e todos passavam fome”, escreveu Diaz em seu artigo sobre identidade, história, memória e a guerra em Guam.

Ao longo de toda a ocupação, os Chamorros ansiavam pelo retorno dos norte-americanos. A canção de guerra “Tio Sam, por favor, volte para Guam” era tão popular que os nipônicos tiveram que proibi-la.

O Dia da Libertação de Guam é a maior comemoração do ano. Moradores de todos os cantos da ilha se reúnem para celebrar a vitória norte-americana sobre o Japão com um festival, um concurso de beleza e um desfile cívico. O retorno dos corajosos soldados norte-americanos à ilha foi o que inspirou os Chamorros a se reconhecerem como norte-americanos, explica Vicente Diaz, nativo de Guam que agora é professor na Universidade de Minnesota.
Foto de Nancy Borowick

Os Estados Unidos voltaram para retomar a ilha em julho de 1944. Durante o intenso bombardeio antes da invasão propriamente dita, os japoneses massacraram um número assustador de pessoas em cavernas, florestas e ônibus. Os remanescentes foram reunidos e levados para campos de concentração (embora haja debate sobre o fato de essa medida ter sido tomada para a proteção deles). Até o fim da ocupação, pelo menos 1,17 mil Chamorros haviam morrido, quase um décimo da população.

Imediatamente após a retomada da ilha, a Marinha Norte-Americana prestou queixa contra os japoneses envolvidos na ocupação. Contudo como a maioria dos líderes japoneses morreu nas batalhas finais pela posse da ilha, o público dirigiu seu ódio aos imigrantes japonês. Esse sentimento antinipônico dominou a comunidade até o final da década de 1960, fazendo com que os habitantes de dupla nacionalidade — japonesa e Chamorro — trocassem seus sobrenomes para esconder sua descendência.

Bem-vindos a Guam

Até 1962, qualquer não residente que desejasse visitar Guam deveria solicitar uma autorização à Marinha. Quando esse obstáculo foi removido, a moeda japonesa começou a correr para a ilha.

Investidores viram uma oportunidade de fazer de Guam um Havaí acessível — e Guam concordou. Quando a ilha começou a ser colocada no circuito turístico, foi anunciada como a próxima Waikiki. Como Guam está há apenas poucas horas de avião do Japão, era uma alternativa barata.

O súbito fluxo de investimentos e turistas alavancou a economia local e mudou a atitude com relação ao Japão. “O sentimento antinipônico foi se enfraquecendo no sentido inverso ao do desenvolvimento turístico direcionado aos japoneses,” escreveu o historiador Wakako Higuchi para a National Geographic.

Durante esse tempo, Guam também estabeleceu programas sociais e cívicos para promover o relacionamento intercultural. Times universitários de futebol e de baseball viajavam ao Japão com frequência para competir e ficavam com famílias anfitriãs. Clubes locais infantis e adultos também organizavam viagens. Diaz foi a três dessas viagens enquanto era estudante, e afirma ter aproveitado bastante.

“Dentro da mesma geração de pessoas que sobrevieram à guerra, tivemos o retorno dos japoneses e uma guinada nas relações sociais que, posso afirmar seguramente, têm sido boas desde então,” explica Diaz.

O turismo asiático e o crescimento da presença militar norte-americana eclipsaram as memórias da ocupação. “No caso de Guam, a narrativa norte-americana de patriotismo tende a se sobrepor em relação às memórias da guerra,” afirma Keith Camacho, professor de estudos asiático-americanos na Universidade da Califórnia, em Los Angeles.

Esse ano, Guam recebeu mais de 600 mil turistas japoneses em suas praias — 25% a mais que no último ano. Porém, o pico de visitantes nipônicos foi em 1997 com mais de 1,1 milhão de pessoas — os números despencaram no ano passado depois que a Coreia do Norte ameaçou destruir a ilha com armas nucleares.

Os turistas japonês visitam a ilha por conta das praias, lojas duty-free e atrações bastante americanizadas. Em um único dia podem personificar um cowboy, cumprimentar Elvis e tirar selfies no maior K-Mart do mundo — um famoso ponto turístico. Mas os turistas também podem conhecer o passado, tirar selfies com relíquias enferrujadas da Segunda Guerra Mundial e visitar uma representação do abrigo que Shoichi Yokoi cavou no chão da floresta.

Guam, por sua vez, adaptou-se à cultura japonesa. Em áreas turísticas da ilha, a sinalização das lojas está escrita em japonês, os funcionários falam japonês e os melhores comércios aceitam iene como pagamento. A ilha até mesmo adotou algumas celebrações japonesas. No mês passado, mais de 30 mil pessoas se reuniram no Ypao Beach Park, em Tumon, para assistir ao 40º Festival de Outono japonês, que ocorre anualmente. Músicos e dançarinos tradicionais japoneses apresentaram-se no palco enquanto crianças pescavam peixinhos dourados com redes de papel e adultos carregavam um pesado santuário xintoísta pelo parque.

Até Yokoi, que passou quase três décadas aterrorizado e escondido em Guam, sentiu-se bem-vindo o suficiente para visitar a ilha muitas outras vezes antes de morrer. Assim como Akihito, o último Imperador do Japão. O Imperador nunca pediu desculpas formalmente pela ocupação, somente expressou seu remorso.

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