Esses elegantes predadores são, na verdade, tiranossauros jovens

Análise detalhada de ossos fossilizados sugere que esse dinossauro icônico tinha uma estratégia de sobrevivência intrigante em tempos de escassez de alimentos.

Thursday, January 9, 2020,
Por Michael Greshko
Fósseis que poderiam pertencer a Tyrannosaurus rex jovens sugerem que esses gigantes predadores eram esbeltos e ...
Fósseis que poderiam pertencer a Tyrannosaurus rex jovens sugerem que esses gigantes predadores eram esbeltos e velozes, e tinham dentes afiados na adolescência.
Foto de Illustration by Julius T. Csotonyi

Há 66 milhões de anos, o solo da região oeste da América do Norte tremia com as pegadas de um tirano: o Tyrannosaurus rexMas apesar da grande quantidade de fósseis de T. rex retirada das rochas do período Cretáceo, até agora, os cientistas tinham poucas pistas de como esse célebre dinossauro evoluía, desde o momento em que saía do ovo até virar um predador monstruoso.

Em um estudo publicado no periódico Science Advances, os pesquisadores revelam uma impressionante e detalhada análise de seções transversais dos ossos de tiranossauros adolescentes. Os resultados sugerem que as taxas de crescimento do T. rex variavam à medida que eles envelheciam e que esses predadores podiam, aparentemente, desacelerar seu crescimento em caso de escassez de alimentos, dando-lhes uma possível vantagem evolutiva.

A pesquisa também coloca mais dúvidas acerca da existência do Nanotyrannus, um controverso tiranossauro “pigmeu” que supostamente teria vivido na mesma época em que o T. rex. Na década de 1980, paleontólogos que examinavam um grupo de pequenos carnívoros esguios concluíram que os fósseis do Cretáceo eram de uma espécie de tiranossauro distinta. No entanto, estudos posteriores levaram a maior parte dos especialistas a concluírem que os fósseis atribuídos ao Nanotyrannus provavelmente eram de T. rex jovens.

O novo estudo proporciona os primeiros dados concretos sobre a estrutura em pequena escala de alguns supostos ossos de Nanotyrannus, confirmando que dois fósseis candidatos são, de fato, provenientes de exemplares adolescentes. Sendo assim, restam duas alternativas: ou ainda não foi encontrado um Nanotyrannus adulto — ou o Nanotyrannus é, na verdade, um T. rex adolescente. No último caso, os fósseis oferecem uma rara amostra de um importante estágio do desenvolvimento na vida desse dinossauro icônico.

“Ainda temos muito que aprender sobre os dinossauros, até mesmo sobre um dinossauro tão famoso quanto o Tyrannosaurus rex”, diz a principal autora do estudo, Holly Woodward, paleontóloga do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Estadual de Oklahoma. “Até agora, sabemos muito pouco sobre sua história de vida: como ele se desenvolvia desde que saía do ovo até tornar-se um monstro de 9 toneladas”.

'Fóssil de unicórnio'

Estudos anteriores sobre o T. rex adulto revelaram que o dinossauro atingia seu tamanho colossal por volta dos 20 anos de idade. Em dois artigos influentes de 2004, os pesquisadores sugerem que ele passava por um estirão na adolescência, ganhando 2,3 quilogramas por dia, em média. Mas a análise do T. rex idoso não é capaz de contar toda a sua história. À medida que os ossos crescem, eles se renovam constantemente, o que elimina pouco a pouco o osso formado na infância.

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“Sabemos que [o T. rex] tinha que crescer rapidamente, passando de um filhote, mais ou menos do tamanho de um pombo, até chegar à idade adulta, medindo mais que um ônibus. Mas não sabemos muito sobre como ele se desenvolvia durante a adolescência”, contou por e-mail Steve Brusatte, paleontólogo da Universidade de Edimburgo, que revisou o estudo.

É aqui que entra Woodward, cuja fascinação por microscopia durante a infância a levou a estudar as minúsculas estruturas preservadas nos ossos dos dinossauros. Para esse estudo, Woodward e sua equipe se concentraram em dois exemplares de dinossauros encontrados em Montana e armazenados no Museu Burpee de História Natural, em Illinois. Um deles, chamado Jane, é um fóssil de tiranossauro quase completo que mede quase 6,5 metros de comprimento. O outro não tem nome e é menos completo, mas é provável que tenha sido maior que Jane.

Primeiramente, a equipe cortou camadas finas dos ossos das patas dos dois exemplares e as fixou em resina plástica. Em seguida, cortaram camadas ainda mais finas e as reduziram até atingirem a espessura de um fio de cabelo humano — finas o suficiente para deixarem a luz passar pelo osso fossilizado. Woodward examinou essas amostras translúcidas em busca de detalhes ocultos. Os canais de vasos sanguíneos preservados revelam a quantidade de sangue que nutria o osso, um indicador da taxa de crescimento ósseo. A organização estrutural óssea também continha pistas: quanto menos organizados estavam os minerais, mais rápido o osso havia sido formado.

Assim como os anéis de crescimento das árvores, os ossos também preservam as mudanças anuais. Quando a época era propícia, nos meses mais quentes, os animais tinham tendência a crescer mais rápido. Nos tempos de vacas magras, durante o inverno, o crescimento ficava estagnado por três a seis meses, deixando anéis reveladores para contar a história.

As fibras ósseas dos dois exemplares estavam desorganizadas e repletas de vasos sanguíneos, o que sugere que o osso estava crescendo rapidamente quando os animais morreram. Além disso, os ossos não têm as linhas sobrepostas características dos ossos adultos, confirmando que os dois fósseis pertenciam a dinossauros jovens. Para a equipe, isso se soma às evidências de que os fósseis provavelmente sejam de T. rex.

“Esse estudo coloca mais um prego no caixão do Nanotyrannus. Acho que já está na hora de enterrar esse caixão”, diz Brusatte. “Embora eu tenha esperanças de que um Nanotyrannus adulto possa ser encontrado, neste momento eu diria que as probabilidades são as mesmas de acharmos um fóssil de unicórnio nas mesmas rochas”.

Fazendo uma pausa

Com base na quantidade de anéis de crescimento, a equipe de Woodward estima que os dois exemplares tinham pelo menos 13 e 15 anos de idade quando morreram. Além disso, a equipe constatou que a taxa de crescimento de cada dinossauro oscilava de forma considerável ano a ano, provavelmente de acordo com uma maior ou menor disponibilidade de alimentos.

“Isso sugere que, em vez de passar fome e morrer porque não havia abundância de recursos em um determinado ano, o animal simplesmente não crescia”, diz Woodward. Nas mesmas rochas que preservam os fósseis de T. rex, os paleontólogos não encontram muitos outros carnívoros de porte médio a grande, sugerindo que outros predadores podiam não estar tão bem preparados para sobreviver nesse ecossistema, ela acrescenta. “Talvez essa estratégia seja algo que dava certo para o [T. rex].”

No futuro, Woodward acrescentará dados a um estudo ainda maior sobre o crescimento de tiranossauros para determinar, de uma vez por todas, se é possível modelar os padrões de crescimento dos dinossauros com base no registro fóssil incompleto. Em particular, ela também está empenhada em fazer mais análises desses fósseis de tiranossauro do Museu Burpee.

Por exemplo, seu trabalho indica que um dos dois exemplares teria osso medular preservado, um tipo de osso que pode ser visto somente em fêmeas que ovulam. Para confirmar essa descoberta, será necessária uma análise química posterior.

“Acho ótimo que ainda haja tanto para descobrirmos”, diz ela. “Lembro-me de ler livros sobre dinossauros quando eu era pequena e pensar: ‘Nossa, quero muito estudar os dinossauros, mas até eu ter idade para isso, não vai ter sobrado mais nada para mim.’ Fico muito feliz por ter errado essa previsão”.

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