Essas meninas sobreviveram ao Boko Haram. Agora, enfrentam uma pandemia

Em uma parte remota da Nigéria, as “garotas de Chibok” enfrentam insurgência terrorista e um vírus que se propaga rapidamente.

sexta-feira, 15 de maio de 2020,
Por Nina Strochlic
As alunas de Chibok tiram fotos no último dia de aula em seu dormitório na região ...

As alunas de Chibok tiram fotos no último dia de aula em seu dormitório na região nordeste da Nigéria. Mais de cem sobreviventes de uma tentativa de sequestro em 2014 agora vivem e estudam no campus da Universidade Americana da Nigéria. As jovens estão se preparando para ingressar na universidade e planejam seguir carreiras em administração, medicina e direitos humanos.

Foto de Bénédicte Kurzen, Nat Geo Image Collection

TODO MÊS DE MAIO, HÁ uma festa no nordeste da Nigéria para comemorar uma data única: o aniversário de libertação de mais de 100 jovens que estavam presas em cativeiro. Em 2014, 276 meninas em um colégio interno de um vilarejo chamado Chibok foram sequestradas de seus dormitórios pelo grupo militante Boko Haram. Elas ficaram conhecidas como as “garotas de Chibok”.

Hoje, as sobreviventes deveriam estar frequentando um curso preparatório para o ensino superior no campus da Universidade Americana da Nigéria (AUN), na quente e poeirada cidade de Yola, no nordeste do país. Em vez disso, elas estão de volta aos seus vilarejos, em isolamento devido ao coronavírus.

No ano passado, a fotógrafa Benedicte Kurzen e a escritora Nina Strochlic participaram das comemorações do “Dia da Libertação”, que duraram o dia todo. No pátio de um prédio que é utilizado como dormitório e sala de aula, as alunas cantaram, fizeram apresentações e sessões de leitura. “Há cinco anos, o mal chegou à cidade de Chibok com a intenção de privar essas jovens de seus sonhos de educação”, disse Reginald Braggs, norte-americano que dirige o curso das meninas, em seu discurso de abertura. “Hoje elas lutam incansavelmente por seus sonhos, com um forte desejo de se aperfeiçoarem e realizarem conquistas.” 

Um ano após o discurso otimista de Braggs, as circunstâncias são novamente desfavoráveis para as garotas: os casos de coronavírus estão aumentando e os ataques de militantes do Boko Haram também.

Toda primavera, a AUN celebra a liberdade de mais de cem jovens que ficaram anos sob o domínio do Boko Haram. Das 276 alunas de Chibok sequestradas, algumas escaparam, outras foram libertadas por meio de negociações com o governo e 112 ainda estão desaparecidas.

Foto de Bénédicte Kurzen, Nat Geo Image Collection

No fim de março, a AUN precisou encerrar suas atividades e retirar todos os alunos e professores em apenas três dias. Muitos dos alunos da AUN que foram enviados para casa estão conseguindo realizar as aulas e as provas finais pela Internet — mas as alunas de Chibok vivem em aldeias remotas com pouca conectividade. Elas foram enviadas para casa com tarefas e projetos para mantê-las em contato com os estudos, diz o presidente da AUN, Dawn Dekle.

Quando a vida voltar ao normal na Nigéria, o Dia da Libertação será comemorado novamente. “O nosso foco foi arrumar as coisas, organizar o transporte que levaria as jovens para casa, bem como o restante dos alunos”, diz Dekle. “Foram três dias muito atarefados, mas conseguimos fazer tudo.”

Em 22 de abril, a Nigéria relatou quase 800 casos confirmados de coronavírus e 25 mortes relacionadas ao vírus. Nenhum atingiu o nordeste, onde a AUN está localizada. Mas os casos estão aumentando constantemente e o sistema de saúde do país não possui estrutura para testes e tratamentos em larga escala. A economia está prestes a sucumbir: devido ao isolamento, a pobreza se agrava para os 80% dos nigerianos que trabalham no setor informal.

“Se o vírus chegar ao nordeste, teremos inúmeros desafios a enfrentar”, diz Gillian Walker, gestor de emergências da Unicef no estado de Borno, epicentro de uma insurgência que já dura uma década. Entre esses desafios, Walker cita a presença de militantes do Boko Haram, cujos ataques se tornaram cada vez mais descarados à medida que o país se concentra em combater a covid-19. No fim de março, quase 50 soldados foram mortos em uma emboscada do Boko Haram no estado de Yobe — não muito longe de onde as alunas de Chibok moram.

Com o exército focado em garantir o isolamento, o Boko Haram parece se aproveitar do cenário de incerteza. Em um vídeo recente, o líder do grupo terrorista declarou que o vírus era uma punição de Deus para os pecadores. Em abril, diversos ataques foram relatados nas estradas utilizadas por trabalhadores da saúde e humanitários para transportar suprimentos e tratamentos que salvam vidas. As ameaças dos militantes armados dificultam “os encaminhamentos do campo para uma unidade de tratamento”, diz Walker.

Mais de 2,5 milhões de pessoas deslocadas internamente estão no nordeste da Nigéria, muitas delas vivendo em assentamentos superlotados. O distanciamento social é especialmente difícil, se não impossível.

Para as sobreviventes do sequestro, que ainda são bastante conhecidas como as garotas de Chibok, essa pandemia é apenas mais um obstáculo que as mantém longe da escola.

Seis anos atrás, na noite do ataque do Boko Haram, uma estudante chamada Mary Katambi escapou depois de pular de um caminhão em movimento e correr pela floresta de volta ao seu vilarejo. Ela rapidamente percebeu que sua casa não era mais segura. “O Boko Haram ateou fogo na casa dos meus pais três vezes”, disse ela no ano passado. Quando chegou à AUN, alguns meses após o ataque, ela se destacou e foi admitida na universidade principal. Em janeiro, desembarcou em Roma para iniciar um programa de estudos no exterior para o qual havia sido escolhida. Foi a primeira vez que saiu da Nigéria.

No início de março, a Itália foi colocada em quarentena nacional. Do seu dormitório em Roma, Katambi continua fazendo cursos on-line. Mas outros planos, como aulas de culinária e uma viagem de férias na primavera, foram cancelados. “É muito difícil ficar em casa”, ela escreve no WhatsApp. “Era para eu estar me divertindo, mas olha só o que aconteceu.”

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