Uma pandemia quase arruinou o movimento sufragista feminino

As mulheres superaram a gripe espanhola, o distanciamento social e o preconceito político para finalmente conquistar o direito ao voto.

Sunday, August 30, 2020,
Por Ellen Carol DuBois
Quando ocorreu a pandemia de gripe espanhola, muitos médicos estavam servindo na Primeira Guerra Mundial, então ...

Quando ocorreu a pandemia de gripe espanhola, muitos médicos estavam servindo na Primeira Guerra Mundial, então enfermeiras e voluntárias se ofereceram, como essas mulheres na Estação de Ambulâncias de Emergência da Cruz Vermelha em Washington, D.C.

Foto de Universal History Archive/Universal Images Group, Getty

“São tempos tristes para o mundo inteiro, inesperadamente ainda mais tristes devido à repentina e ampla epidemia de gripe”, escreveu Carrie Chapman Catt, presidente da Associação Nacional Sufragista da Mulher dos Estados Unidos, em carta às apoiadoras em 1918.

“Esse novo flagelo está entristecendo muitos lares sufragistas e representa um novo e grave obstáculo a nossas campanhas em prol de um referendo e às campanhas do Congresso e do Senado”, prosseguiu ela. “Devemos, portanto, estar preparadas para o fracasso.”

Carrie Chapman Catt liderou o movimento sufragista, apesar de ter adoecido gravemente com a gripe espanhola.

Foto de Photograph from Library of Congress

 

Sufragistas lutaram pelo direito das mulheres de votar durante 70 anos e a vitória parecia próxima. Apesar da ampla mobilização dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial, o presidente Woodrow Wilson manifestou apoio a uma emenda constitucional, aprovada pela Câmara dos Deputados.

Foi quando ocorreu o surto de gripe espanhola e as líderes de um dos movimentos políticos mais longos da história do país tiveram de encontrar uma maneira de continuar sua campanha em meio à pandemia mais mortal dos tempos modernos.

A primeira onda de gripe espanhola assolou o país na primavera de 1918, entrando em declínio no verão. Durante esse período, o Senado, dominado por democratas do sul determinados a impedir a concessão de direitos a afro-americanas, se recusou a aprovar a lei e assim enviar a emenda do sufrágio aos estados para ratificação. Os votos foram anunciados por duas vezes e depois cancelados. No início do outono, as sufragistas estavam a dois votos dos dois terços necessários para a aprovação.

Encontrar esses dois senadores estava se revelando uma tarefa impossível. Maud Wood Park, a principal lobista do sufrágio, escreveu ao marido que sentia “como se estivesse tentando nadar em um redemoinho” e que estava esgotando “cada uma de suas forças e pensamentos”. Algo mais precisava ser feito para haver um avanço.

As eleições legislativas seriam realizadas em novembro, quando estava prevista uma batalha entre democratas e republicanos pelo controle do Congresso. As sufragistas escolheram duas estratégicas ao abordar essa atmosfera tensa. A primeira foi tentar conquistar plenos direitos de voto em mais alguns estados, onde seriam realizados referendos (doze estados já haviam concedido plenos direitos de voto às mulheres). Foram escolhidos os estados de Oklahoma, Louisiana, Dakota do Sul e Michigan. Se tivessem êxito, os votos de muito mais mulheres intensificariam a pressão para o Congresso tomar uma atitude. A outra estratégia foi identificar quatro deputados contrários ao sufrágio no Senado que concorriam à reeleição e cujos adversários haviam prometido apoiar a emenda federal.

‘Presa à cama’

Contudo, em setembro, a gripe retornou com força e acabou matando cerca de 675 mil pessoas nos Estados Unidos e 50 milhões em todo o mundo. Boston e Filadélfia foram fortemente atingidas, seguidas por Washington, D.C., onde um grande número de funcionários do governo em tempos de guerra abarrotavam moradias inadequadas.

No Congresso, Champ Clark, o influente presidente da Câmara, contraiu a gripe. No Senado, onde definhou o projeto de lei do sufrágio, foram fechadas as galerias de onde as sufragistas observavam tudo. Posteriormente, o Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos emitiu um informe nacional às secretarias de saúde locais para proibir grandes reuniões e aglomerações.

Mulheres alistam enfermeiras para ajudar durante a pandemia de gripe espanhola. Atrás delas, gráficos mostram as taxas de mortalidade.

Foto de Photograph from Hulton Archive, Getty

As campanhas eleitorais das sufragistas foram comprometidas imediatamente. As organizadoras tiveram que adiar uma viagem de trem com a presença de manifestantes que haviam sido presas anteriormente. Esperava-se que os protestos atraíssem grandes multidões ao longo de seu itinerário de Washington, D.C. a Oregon. No segundo andar da Suffrage House (Casa do Sufrágio, em tradução livre), na capital do país, Carrie Chapman Catt ficou “presa à cama” devido à gripe. No entanto ela estava decidida a consultar um aliado próximo do presidente, o senador de Montana John Walsh, que também contraiu a gripe. Catt não podia descer e Walsh não podia subir, então um intermediário se alternava entre eles para uma discussão confidencial.

A essa altura, a pandemia estava se espalhando das cidades devastadas na costa do Atlântico para o oeste. A situação do referendo da Dakota do Sul sofreu um duro golpe. “Justamente quando tínhamos planos prontos para uma campanha revitalizada e aprimorada”, escreveu uma organizadora do estado, “veio a gripe e foi eliminada toda a possibilidade de falar em público e até mesmo reuniões ao ar livre. Foram inúmeros os lares afetados por toda parte se não pela própria doença, pelo medo terrível, que parece ser pior, de não conseguirmos transmitir nossa mensagem a todos os eleitores.” Era impossível angariar verbas e muitas defensoras do sufrágio eram voluntárias da Cruz Vermelha ou em hospitais.

Diante das proibições de aglomerações, as sufragistas passaram a uma abordagem mais pessoal por meio do contato direto com vizinhos e amigos. Destacaram seu patriotismo e citaram o presidente ao dizer que os votos das mulheres seriam uma recompensa apropriada para tamanho sacrifício delas em tempos de guerra. A sede nacional distribuiu mais de um milhão de panfletos de porta em porta e 300 boletins semanais para publicação em jornais locais. As mulheres assinaram petições pedindo aos eleitores do sexo masculino que aprovassem os referendos nos quatro estados escolhidos.

‘Não é uma boa aposta política’

O mais importante para os avanços conquistados, entretanto, foi a ampla organização popular das sufragistas. Elas haviam estabelecido as bases de suas campanhas muito antes do surto de gripe. Cidades e municípios de todos os estados contavam com suas próprias organizações, ligadas à estratégia nacional. As moradoras dessas regiões desenvolveram sofisticadas habilidades políticas. Sabiam identificar oportunidades e superar obstáculos — Dakota do Sul e Michigan já haviam realizado vários referendos. Toda essa preparação foi fundamental.

A epidemia reduziu o comparecimento às urnas, resultando em três milhões de cédulas a menos do que nas eleições legislativas de 1914. No entanto o sufrágio venceu nos referendos em Michigan, Dakota do Sul e Oklahoma, em cada um desses estados com uma margem confortável. A gratidão pelo papel desempenhado pelas mulheres durante a guerra e na pandemia influenciou os resultados. Com tantos médicos servindo nas forças armadas, as enfermeiras assumiram a linha de frente do atendimento médico.

O sufrágio perdeu apenas no referendo de Louisiana. Foi o primeiro no sul, região onde o sufrágio feminino havia sido condenado pelo medo incontrolável de que afro-americanas votassem. A campanha nesse estado, liderada por mulheres contrárias a uma coordenação e estratégia nacional, não produziu o ímpeto, a determinação e o entusiasmo que trouxeram a vitória a outros locais em plena crise de gripe.

De volta à Costa Leste, onde as sufragistas fizeram campanha para substituir os adversários do Senado, a pandemia havia recuado bastante e elas enfrentaram um obstáculo mais convencional: o poder arraigado dos partidos. O maior desafio delas, a campanha com a organização mais impressionante e a maior vitória foram contra John Weeks, senador republicano de Massachusetts, amplamente considerado invencível. Em Delaware, Willard Saulsbury Jr., senador democrata membro da poderosa família DuPont, também foi derrotado. Segundo um editorial de um jornal de Chattanooga, “a eleição demonstrou incontestavelmente que fazer oposição ao sufrágio não é uma boa aposta política para nenhum dos partidos”.

As mulheres no estado de Nova York, cuja constituição havia sido alterada no ano anterior para lhes conceder plenos direitos de voto, compareceram às urnas em grande número na eleição de 1918. Catt, ainda em recuperação da gripe, insistiu em votar — foi seu primeiro voto. Em outras regiões do estado, em uma irônica conquista após o surto de gripe, os votos das mulheres ajudaram a eleger Grace Norris, uma médica que lutou contra o vírus, como a primeira mulher legista do país.

Enfermeiras voluntárias cuidam de doentes em um auditório transformado em hospital temporário em Oakland, na Califórnia.

Foto de Underwood Archives, Getty

Em 22 de novembro de 1918, terminou a Primeira Guerra Mundial. A gripe teve mais uma onda durante o inverno e enfraqueceu o presidente Wilson. Os republicanos ganharam o controle das duas casas do novo Congresso e, no início de junho de 1919, o Senado finalmente aprovou a lei do sufrágio, 18 meses após a aprovação da Câmara. Era hora da próxima batalha: conseguir que três quartos dos estados ratificassem a emenda.

Nos 15 meses seguintes, as sufragistas lutaram arduamente em prol da ratificação nos 36 estados necessários. Em fevereiro de 1920, a sufragista Aloysius Larch-Miller, infectada com a gripe, saiu doente de sua cama para testemunhar perante a convenção do Partido Democrata de Oklahoma em favor da ratificação. Ela ganhou a discussão, mas morreu de pneumonia. Meses após a gripe dar trégua, a pandemia arrebatou a mártir do sufrágio.

Tennessee finalmente aprovou a 19ª Emenda e, em 26 de agosto de 1920, o sufrágio feminino foi registrado na Constituição dos Estados Unidos.

Continuar a Ler